BOLIVAR PENSAMENTO PRECURSOR DO ANTIIMPERIALISMO
Órgão Oficial da Liga Marxista Internacional. Direção editorial: Roberto Bergoci. Nasce preocupado com os caminhos do proletariado em geral, porém, especialmente, o brasileiro.
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segunda-feira, 26 de agosto de 2024
BOLIVAR PENSAMENTO PRECURSOR DO ANTIIMPERIALISMO * FRANCISCO PIVIDAL PADRON/VENEZUELA
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SEM ENGELS NÃO HAVERIA MARXISMO * Liberdade e necessidade blog
SEM ENGELS NÃO HAVERIA MARXISMO
“A maioria das pessoas tem muita preguiça de ler tomos robustos como O Capital, portanto pequenos panfletos como este [Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico] tem um efeito muito mais rápido.” — Friedrich Engels,
MECW, vol. 46, pp. 300, 369.
Friedrich Engels; o menino chicoteante da esquerda contemporânea, a gênese do “pecado original” do stalinismo, o vulgarizador positivista do trabalho de Marx e o ideólogo equivocado que tentou tolamente aplicar o método de Marx às ciências naturais.
Estes são todos os tropos comuns que foram usados para desprezar Engels não só como um teórico dentro do panteão do pensamento comunista, mas também para minimizar seu próprio papel em contribuir para os fundamentos do marxismo e, portanto, relegar seu papel em seu relacionamento com Marx para o de seguidor passivo que “nunca entendeu [o marxismo], mas pensou que tinha”.
As razões para expurgar Engels expressam vários motivos políticos, com alguns vendo Engels como a única pessoa responsável por despojar o pensamento de Marx de seu humanismo original como visto nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 e A Ideologia Alemã, e, assim, abrindo inadvertidamente o caminho para os “horrores estalinistas” do século XX.
Ainda outros de uma visão mais liberal vêem em Engels uma expressão do pensamento do século 19, com todo o seu fervor determinista, como o contraste, ao invés de o elogio, ao pensamento liberal percebido por Marx.
Em ambas as narrativas, Engels é o corruptor, o poluidor da “pureza” das contribuições originais de Marx, que, apesar das boas intenções de Engels para espalhar o marxismo, sem saber, espalhou sua própria distorção do marxismo infectada com toda uma série de bagagens ideológicas alienígenas.
No entanto, a verdade de seu papel é que não só ter sido parte integrante da propagação do marxismo após a morte de Marx, mas que foi Engels, e não Marx, que pode ser dito ter sido o primeiro marxista. Longe de ser o “corruptor” do marxismo, Engels foi o seu mais firme defensor e trabalhou incansavelmente, tanto em termos abertos como discretos, para construir os fundamentos teóricos e práticos do marxismo há mais de 40 anos.
Sem Engels, o marxismo tal como o conhecemos, e como a História o concebeu, não existiria. Jovem Engels O jovem Engels era um radical. Ele era o produto de uma casa burguesa e religiosamente piedosa, uma situação contra a qual ele se rebelou constantemente na sua juventude, mas um contexto moral que sustentou sua indignação contra os horrores e as injustiças da sociedade industrial emergente.
O iniciante Engels escreveu com zelo contra os maus tratos dos pobres na sociedade industrial, com sua bússola moral dirigida por sua fé protestante ainda presente e compromisso com os oprimidos como os verdadeiros filhos de Deus.
Sua carreira jornalística precoce estava cheia de críticas mordazes sobre as condições que criaram os perigos do proletariado, transbordando uma retórica de fogo e de enxofre que qualquer pregador teria inveja. Ele se juntou ao exército prussiano em 1841, onde aprenderia sua propensão para a disciplina e a coordenação, qualidades suas que foram notadas por colegas soldados e oficiais superiores.
Foi nesse momento que ele se envolveu com os Jovens Hegelianos em Berlim, um grupo de jovens intelectuais enamorados da filosofia de G.W.F. Hegel, que se reunia consistentemente em tabernas locais para conversar abertamente sobre as últimas questões filosóficas do dia. As bebidas fluíam, assim como os gritos vigorosos, e ocasionalmente um soco ou dois, se os ânimos se acendessem. Tais intelectuais proeminentes como Bruno Bauer, Ludwig Feuerbach e Max Stirner foram contados entre as fileiras dos Jovens Hegelianos.
Esta foi a atmosfera em que o jovem Engels, já conhecido por sua sagacidade aguda, aprimorou suas habilidades de debate e afiou sua política. Não demorou até Engels ficar frustrado com a falta de atividade política do grupo, prefigurando a posterior ênfase do marxismo na fusão entre teoria e prática. Seu tempo com os Jovens Hegelianos foi cortado bastante curto devido à sua impaciência. No entanto, politicamente, ele sofreu uma transformação, pois sua amizade estreita com o jovem hegeliano Moisés Hess o tornou um comunista convicto em 1842.
Foi por volta dessa época que Engels conheceu Marx. Como um Jovem Hegeliano, Engels estava escrevendo editoriais consistentemente para o jornal Gazeta Renana, para o qual Marx também contribuiu. Foi nos escritórios daquele jornal onde Marx e Engels se conheceram pela primeira vez. Engels estava visitando o escritório com seu amigo Edgar Bauer, o irmão mais novo de Bruno Bauer, quando ambos tropeçaram na cena de Marx gritando selvagemente sobre o jornal publicar os artigos de Edgar Bauer, que, segundo Marx, pressionaram o “comunismo militante” e eram todos “ar quente”.
Engels, sendo o amigo de Edgar, imediatamente tirou o olhar frio de Marx, que, desnecessário dizer, ficou menos que impressionado com os dois jovens comunistas. Por mais breve que esta reunião tenha sido, uma coisa é clara: no momento do primeiro encontro, Engels já era um comunista convicto, enquanto Marx ainda era um democrata burguês. Nesse mesmo ano, os pais de Engels o mandaram para Manchester para trabalhar na fábrica de algodão familiar.
No entanto, foi ali onde nasceram os fundamentos do marxismo. Engels passou a maior parte do tempo compilando dados, observando a vida das fábricas e caminhando pelos distritos proletários de Manchester para reunir material para uma série de artigos a serem publicados na Gazeta Renana. Mais tarde, isso seria compilado em seu livro A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Foi seu tempo em Manchester que lhe confirmou a necessidade do comunismo.
Ao contrário de Marx, que chegou ao comunismo através da investigação filosófica e do humanismo, Engels chegou ao comunismo através das realidades práticas que ele observou diretamente operando no capitalismo. Em Manchester, ele finalmente conectou seu radicalismo filosófico hegeliano com
as realidades do capitalismo e as lutas da classe trabalhadora.
Quando se encontrou com Marx em Paris em 1844, foi a fervorosa crença de Engels no papel de vanguarda do proletariado, confirmada através da experiência e da pesquisa, que Marx adotou. Sem hesitação, podemos dizer que foi então que Engels se tornou o primeiro marxista, com Marx seguindo sua liderança. Foi depois deste segundo encontro que Marx e Engels estabeleceram seu relacionamento de trabalho duradouro, e onde Engels consolidaria seu papel como o grande divulgador de suas ideias.
Em 1845, Engels visitou a Alemanha dando palestras sobre o comunismo, que atraiu multidões consideráveis, nas quais ele debatia firmemente os oponentes ideológicos e convenceu mais do que alguns com suas habilidades de fala, argumentos bem elaborados e determinação implacável. Engels também foi responsável pela elaboração de Princípios do Comunismo, um documento destinado ao consumo popular que elucidou os fundamentos do comunismo de Marx e Engels em algumas páginas curtas. Foi este documento que serviu como um modelo áspero para o que se tornaria o panfleto político mais retumbante dos tempos modernos, o Manifesto Comunista.
Engels não parou em apenas ensinar e escrever e co-escrever tratados revolucionários, ele também usou suas habilidades em oratória e perspicácia política para ir entre a classe trabalhadora lutar para conquistar os trabalhadores para o comunismo. Um exemplo foi Engels viajando para Paris com nada além de sua pequena soma de dinheiro e sua própria inteligência na tentativa de converter Straubingers (trabalhadores imigrantes alemães que se inscreveram no “verdadeiro socialismo” e alguns para as teorias do anarquista francês Proudhon).
Ele participou de todas as reuniões semanais, falou, debateu, denunciou e intimidou até que a maioria viesse ao seu lado. Ele transformou sua política de uma minoria de um para uma maioria que abrangeu todos, exceto dois ou três, sozinho. Sua luta na conversão desses trabalhadores “não educados” aperfeiçoou suas capacidades como popularizador, uma habilidade que ele aperfeiçoaria em seus últimos anos, quando propulsionou o marxismo a novos níveis de popularidade.
Velho Engels Enquanto Engels apoiou financeiramente Marx em seu monumental esforço de economia política, O Capital, ele ainda trabalhou nos bastidores politicamente, lutando pelo domínio político na Primeira Internacional, publicando trabalhos mais curtos como o agora clássico A Origem da Família, da Privada Propriedade e do Estado, e editando e adicionando sugestões às obras de Marx.
Engels foi o secretário correspondente da Primeira Internacional para a Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Dinamarca. Ele foi capaz de coordenar uma luta proletária multi-país de seu estudo em Manchester. Todos os artigos e documentos relativos ao movimento dos trabalhadores foram entregues pessoalmente à sua casa, e ele se debruçou sobre cada um com meticulosidade. Ele rastreou disputas faccionais e eventos práticos similares em todo o movimento continental dos trabalhadores. Ele também fez traduções e correspondência com representantes trabalhistas em várias línguas e foi encarregado de editar e aprovar todos os rascunhos finais e traduções do trabalho marxista antes da publicação.
No entanto, apenas depois da morte de Marx em 1883 o marxismo como movimento emergiu, principalmente devido à popularização do marxismo e dos trabalhos de Marx por Engels. De fato, as principais figuras da Segunda Internacional creditam Engels, não Marx, com a sua conversão ao marxismo, citando especificamente as obras de Engels Anti-Dühring e Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, como catalisador da explosão do marxismo no continente.
August Bebel, Eduard Bernstein, Georgi Plekhanov e Karl Kautsky confessaram ser feitos marxistas pelo livro Anti-Dühring. Foi com esses dois panfletos que países como Inglaterra, Áustria, França, Alemanha e Itália finalmente tiveram sinopses compactas do marxismo pela primeira vez em uma forma facilmente digerível, destinada ao consumo popular pelas massas proletárias e seus intelectuais revolucionários. Foi também durante esse tempo que Engels começou a olhar para as ciências naturais como uma prova adicional da validade do materialismo dialético e do materialismo histórico.
O resultado de sua pesquisa foi vários artigos incompletos e notas sobre assuntos que vão desde matemática, química, biologia e evolução humana, que posteriormente foram coletados no livro Dialética da Natureza. Embora grande parte do livro esteja agora desacreditada com as descobertas recentes, e, de acordo com Albert Einstein, as seções sobre matemática foram totalmente confusas, o ensaio curto O papel do trabalho na transformação do macaco em homem foi aclamada por cientistas proeminentes como Stephen Jay Gould como o único texto do século 19 a antecipar o co-desenvolvimento do cérebro e mãos humanos no processo evolutivo. Este trabalho também condensou a dialética nas três principais leis da transformação da quantidade em qualidade, negação da negação e unidade e conflito de opostos, todos decorados com seus exemplos apropriados do mundo natural.
Longe de ser o açougueiro vulgar das ideias de Marx e do próprio marxismo, Engels foi fundamental, de fato, indispensável para a criação do marxismo. Ainda mais importante foi o papel de Engels como um popularizador de idéias marxistas, levando à fusão mundial histórica do movimento da classe trabalhadora com o marxismo. Não pode haver marxismo sem Engels, nem historicamente falando, nem politicamente. Engels foi o aríete para o marxismo, o tático bem-aventurado, o soldado disciplinado e militante do comunismo e do proletariado marchando com zelo revolucionário em todo o continente. Das favelas e moradias operárias de Manchester às reuniões dos trabalhadores em Paris, Engels era o propagador incansável de uma política à qual ele chegou mesmo antes de Marx. Engels era comunista em palavras e atos, além de um incrível organizador que provava que ele era muito mais do que o inferior a Marx, ou que ele de certo modo nem era marxista.
Engels foi o primeiro marxista, aquele que colocou a base sobre a qual a torre do marxismo poderia ser construída. Sem o ardente e jovem soldado comunista de uma piedosa família burguesa, toda a estrutura do marxismo poderia ter sido apenas uma nota de rodapé na história mais ampla da política proletária em vez de seu tesouro e guia para mudar o mundo.
FONTE
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segunda-feira, 15 de abril de 2024
Retomar o Primeiro de Maio de luta, socialista e antiimperialista! * FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES/FRT
Retomar o Primeiro de Maio de luta, socialista e antiimperialista!
Há quase 140 anos do histórico levante proletário em Chicago em 1886, quando os trabalhadores, organizados e municiados por uma profunda consciência de classe e dos seus interesses para si, em brava e heróica batalha contra as forças do capital, tiveram seus históricos mártires assassinados covardemente pelas forças de repressão da burguesia. Da qual daí em diante foi instituído pela Segunda Internacional, o Primeiro de Maio como data mundial do proletariado.
Após quase 140 anos desse combate histórico de nossa classe, nos encontramos num período cuja principal característica seja o avanço da contra-revolução burguesa em praticamente todos os países. Particularmente desde o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim no crepúsculo do século passado, o capital não sessou uma vasta ofensiva econômica, política e ideológica contra o proletariado e seu programa científico de emancipação histórica: o marxismo.
As ideologias vulgares que pregavam o "fim da história"; o "empreendedorismo"; o identitarismo anti-classista; o politicismo e conciliação com o inimigo de classe; o conformismo e resignação com o presente, marcado pelo "congelamento" histórico, etc., não passam de artimanhas estratégicas e táticas da burguesia mundial e seus meios de propagação de mentiras e irracionalismo, visando arrefecer a fé dos trabalhadores no socialismo e na sua própria emancipação dos grilhões da sociedade de classes.
Em compasso com os ataques econômicos e sociais contra as conquistas históricas que o proletariado arrancou da burguesia no último século de duras batalhas, vemos uma verdadeira ofensiva ideológica e cultural por parte do imperialismo, visando um vasto entorpecimento de seu antagonista histórico para assim, quebrar suas perspectivas revolucionárias como forma de garantir a perenidade e sobrevida do regime capitalista em sua fase senil, marcada por crises cada vez mais recorrentes e de grande duração, ameaçando mesmo a própria humanidade.
Em todo o mundo governado pelo modo de produção capitalista, temos visto o desmonte dos mecanismos de proteção dos trabalhadores. Os direitos trabalhistas e o chamado "Estado de bem estar social" (onde existiu) tem sido radicalmente suprimidos; o nível econômico e social das classes trabalhadoras em todo o mundo não param de cair.
Na verdade entramos na era da superexploração do trabalho como um fenômeno mundial. As seguidas revoluções tecnológicas e informacional criou uma massa crônica de desempregados e seres humanos "supérfluos" pela ótica do capital e que não podem mais serem inseridos produtivamente no mundo das mercadorias cada vez mais mercantilizado e fetichizado. Para essa massa humana "sobrante"--um verdadeiro exército de reserva utilizado para aviltar os salários e condições de trabalho dos que ainda labutam--a "saída" burguesa é cada vez mais a repressão e extermínio malthuziano.
Nessa esteira, a chamada "composição orgânica do capital" como bem o conceituou Karl Marx, atua como um verdadeiro pêndulo contra a taxa de lucros do capital, obrigando seus servidores (a burguesia e seus agentes, sim, servidores de sua criatura) a recorrerem a um padrão de reprodução do capitalismo mundial francamente destrutivo, selvagem e incontrolável, que põe mesmo como horizonte a destruição da civilização como a conhecemos.
As guerras e o capital: uma relação de mão dupla
Com o alastrar da decadência capitalista, o recrudescimento das guerras de baixa e alta intensidade, tornaram-se algo corriqueiro, mesmo banal.
Neste século atual por exemplo, tivemos as guerras de tipo neocolonial por parte do imperialismo contra o Afeganistão, Iraque, Haiti, Líbia, Síria, Ucrânia (guerra por procuração do imperialismo ianque contra a Rússia), Iêmen, Palestina, etc. Também os golpes de Estado de novo tipo pela vida das revoluções coloridas e guerras híbridas, tem se tornado constantes e diversos países já foram ou estão sendo vítimas dessa forma de ataque encoberto, por parte das forças imperialistas e seus fantoches.
A instabilidade política promovida pela CIA contra governos populares e/ou nacionalistas também é algo que avança nessa época marcada pela crise geral do capitalismo, que exige de forma imperiosa ao grande capital, colonizar e impor sua agenda destrutiva em todo o mundo: diante de sua fase senil, o Globo terrestre já se tornou demasiado pequeno para o capital e seu caráter ontológico expansionista.
Daí a necessidade cada vez mais premente por parte do grande capital em controlar com mãos de ferro as fontes energéticas, de matéria prima, os mercados e o assalto aos Estados nacionais. Uma nova redivisão do mundo e da divisão mundial do trabalho, está em andamento; em tal movimento tectonico, o que o grande capital imperialista impõe aos povos da periferia capitalista é uma ainda maior subalternidade, agravando sua crônica relação de dependência e subdesenvolvimento.
Em suma, o preço pago pela humanidade com a perenidade até o presente do modo de produção capitalista tem sido alto demais. O próprio desenvolvimento histórico e das forças produtivas internacionalmente já estabeleceram as condições objetivas necessárias para a superação do regime burguês e para a construção do socialismo.
Os trabalhadores e os povos oprimidos resistem
O proletariado mundial embora ainda confuso, disperso e cambaleante diante da atual correlação desfavorável, resiste como pode. Vimos desde a última década importantes movimentos de luta dos trabalhadores em diversos países, sobretudo em nossa América latina. Os trabalhadores venezuelanos, bolivianos, equatorianos, chilenos, peruanos, haitianos e colombianos por exemplo, tem protagonizado ou protagonizaram nos últimos anos, importantes e heróicas lutas contra as forças da extrema direita, das tentativas golpistas e do imperialismo em seus países.
O povo palestino tem dado lições históricas a seus irmãos trabalhadores do mundo, através de sua gigantesca resistência armada contra os genocidas sionistas que comandam o facínora Estado de Israel e seus patrões imperialistas da Casa Branca. Embora o gigantesco tributo pago com o sangue sagrado de seus mártires, a resistência militar palestina impõe duríssimo revés ao sionismo, causando mesmo a desmoralização histórica mundial do Estado sionista e uma crise existencial de Israel.
Na África negra, seu valente povo derrotou o colonialismo francês, causando uma séria desmoralização e crise política profunda no interior dessa pátria imperialista decadente.
Os exemplos de brava resistência dos povos trabalhadores iemanita e haitiano, que nas mais desfavoráveis condições resistem e lutam bravamente contra seus exploradores e opressores internos e o imperialismo, deixa valiosa lição para o proletariado mundial.
Fortalecer um pólo revolucionario e antiimperialista internacional
A condição mais essencial do momento, é estabelecer uma frente internacional de lutas dos trabalhadores contra as forças do imperialismo. O atual período histórico se caracteriza pela ofensiva da burguesia e pela contra-revolução no mundo.
É imprescindível para as organizações de vanguarda dos explorados ter bem claro as forças que se batem, a correlação entre as classes antagônicas, para daí tirar as conclusões estratégicas e táticas do atual período. Uma das principais constatações a se considerar no momento é o fato de que as forças revolucionárias e de vanguarda da classe se encontrarem numa grave situação de fragmentação, divisão e sem protagonismo no interior das massas. E isso em todo o mundo.
Fortalecer as organizações dirigentes no interior de cada país é psso essencial para a retomada de uma agenda revolucionária e socialista que volte a hegemonizar as parcelas mais esclarecidas dos trabalhadores. Por outro lado, fortalecer um bloco revolucionário e antiimperialista internacional é sem dúvida uma das tarefas mais importantes do momento.
Em sua fase de deslocamento permante pelo mundo, o capital cada vez mais internacionalizado põem na defensiva qualquer estratégia ou tática puramente nacional dos trabalhadores. Daí ser imprescindível mais do nunca, organizar o combate internacional sistemático contra a burguesia, que tem no imperialismo seu chefe de fila no mundo.
Portanto, fortalecer uma frente internacional antiimperialista deve ser no momento uma das questões táticas centrais do proletariado mundial e seus aliados.
O grave impasse em que vive a humanidade, deixa bem claro que o capitalismo entrou em uma fase de potêncial destrutivo sem precedentes. As saídas reformistas que buscam reformar ou mesmo humanizar o regime do capital, estão barradas. A contra-revolução neoliberal, a atual escalada de guerras e golpes de Estado em todo o mundo, são as provas dessa verdade histórica. A revolução socialista é neste caso não só de uma atualidade indiscutível, como também, e mais importante, a garantia de sobrevivência da própria humanidade.
FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES/FRT
PARTIDO COMUNISTA DOS TRABALHADORES BRASILEIROS/PCTB
quinta-feira, 14 de março de 2024
Conversaciones de alcoba * Carmen Domingo/Espanha
Conversaciones de alcoba
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Publicado: 2014 | 207 páginas
Novela Histórico
La novela de las tres mujeres más influyentes del falangismo
En la antesala de la guerra civil española, tres mujeres se afanan por situar a los hombres que tienen a su lado en lo más alto del poder: Pilar, hermana de José Antonio Primo de Rivera; Mercedes, mujer de Onésimo Redondo; y Carmen, esposa de Francisco Franco.
Con la intención de preservar los ?valores fundamentales que toda nación debe poseer? y que, a su criterio, España estaba perdiendo, las tres actúan desde la sombra, en el nido de sus hogares, como compañeras de los hombres que conspiran y luchan para derrocar la República e instaurar un nuevo régimen.
Esta novela es un reflejo de lo que pudo ser su intervención perseverante y ambiciosa desde la intimidad que compartieron con los protagonistas de esa época.
OBSERVAÇÃO
Este livro é um documento literário sobre o franquismo e suas raízes no universo feminino. Daí a publicação dele aqui, para que nossos leitores, amigos e militantes revolucionários não se esqueçam da capacidade da MULHER.
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domingo, 16 de abril de 2023
PLAZA DE MAYO-ATAQUE-ANIVERSÁRIO * Observatório Proletários - BR
PLAZA DE MAYO-ATAQUE-ANIVERSÁRIO
70 anos se passaram desde o ataque na Plaza de Mayo contra a CGT enquanto Perón fazia um discurso
A Associação Sindical dos Trabalhadores do Metrô e Pré-Metrô (Agtsyp) colocou hoje uma placa comemorativa em memória dos metroviários mortos na Estação Plaza de Mayo, quando uma bomba explodiu em 15 de abril de 1953, durante um discurso na Casa Rosada, então presidente Juan Domingo Perón..
“70 anos depois do atentado a bomba na estação Plaza de Mayo, descobrimos uma placa comemorativa dos trabalhadores do metrô assassinados”, relataram os delegados em sua conta no Twitter.
O aniversário também foi lembrado pela Secretaria de Direitos Humanos, chefiada por Horacio Pietragalla Corti.
"Setenta anos se passaram desde o ataque na Plaza de Mayo em 1953, quando um comando de oposição ao governo de JD Perón detonou bombas contra os civis reunidos em um ato sindical organizado pela CGT. As explosões causaram a morte de 6 pessoas e mais mais de 90 ficaram feridos", lembrou a agência.
Em 15 de abril de 1953, um grupo antiperonista com militantes da União Cívica Radical (UCR) detonou duas bombas durante um ato sindical organizado pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) na Praça de Maio e em sintonia com uma mensagem que deu o então presidente Juan Domingo Perón, da Casa Rosada.
Como resultado, seis pessoas morreram e mais de 90 ficaram feridas, incluindo 19 mutiladas.
Após o massacre, alguns grupos peronistas queimaram instalações identificadas com a oposição antiperonista.
O grupo terrorista era formado por Roque Carranza, Carlos Alberto González Dogliotti e os irmãos Alberto e Ernesto Lanusse, apoiados pelo capitão Eduardo Thölke, que forneceu os explosivos.
O chefe da operação terrorista, Arturo Mathov, teve alguma notoriedade pública quando se tornou deputado nacional pelo radicalismo em 1960. (Télam News Agency)
DOMINGOS PERON ANTIMPERIALISMO
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sábado, 21 de janeiro de 2023
PROHIBIDO OLVIDAR Francisco Felipe Ojeda Negretti * Coordinadora Simón Bolívar / Venezuela
PROHIBIDO OLVIDAR
Francisco Ojeda Negretti, seudónimo “Víctor”, miembro del Frente Guerrillero Ezequiel Zamora, en los llanos, estados de Apure y Barinas.
Hijo de Magdalena Negretti, revolucionaria y comunista comprometida con el proceso de lucha armada, por ende miembro de una familia de comunistas y combatientes guerrilleros, Fedor y Baltazar Ojeda Negretti, Cmte. “Elias”.
Francisco Ojeda Negretti es detenido el 15 de enero en una alcabala militar.
El SIFA lo lleva a Barinas, se presume por información que a la Marqueseña, y luego trasladado al Teatro de el Tocuyo, TO3, en el estado Lara, de donde lo desaparecen.
En homenaje se funda el Destacamento Guerrillero Felipe Ojeda Negretti.
Rescatando la Memoria Histórica.
Arriba los que luchan ! ! !
La única lucha que se pierde es la que se abandona ! ! !
Solo la lucha nos hará libres ! ! !
Desde Venezuela Tierra de Libertadores a 531 años del inicio de la Resistencia Antiimperialista en América y a 212 años del inicio de nuestra Independencia.
Coordinadora Simón Bolívar
Caracas - Venezuela
Enero 2023.
sábado, 24 de dezembro de 2022
O poder das greves clássicas * Kim Kelly / NUSO
O poder das greves clássicas

Kim Kelly
Greves não são algo do passado, e isso vale particularmente para o setor de transporte (trens, ônibus e aviões). Nessas áreas, os trabalhadores ainda têm a capacidade de influenciar o poder constituído em defesa de seus próprios direitos – afetados pela precarização – e, em muitos países, até mesmo apoiar trabalhadores de outros setores por meio de greves de solidariedade.
A Ação de Graças é provavelmente o pior feriado dos Estados Unidos. Mesmo deixando de lado a terrível história genocida que ele encobre, os dias em torno de nosso antigo consumo ritualizado de grandes aves secas e acompanhamentos pesados – geralmente na presença de nossos entes menos queridos – são um dos períodos de viagem mais frenéticos do ano, e 2019 não foi uma exceção. A Associação Automobilística Americana (aaa) estimou que 49 milhões de estadunidenses viajariam pelo menos 80 quilômetros de carro para o feriado de Ação de Graças, e a associação Airlines for America1 previó que 31 milhões voariam entre 22 de novembro e 3 de dezembro. O impacto ambiental será brutal, e o estresse de lidar com todos esses passageiros enfurecidos é uma pesada carga para os trabalhadores aeroportuários. Espera-se um certo nível de caos, mas, graças ao trabalho dos sempre sobrecarregados e frequentemente mal remunerados trabalhadores de transporte, a maioria dos viajantes chegará a seu destino antes que o peru seja servido.
Neste ano [2019], no entanto, essa viagem deve ser um pouco mais complicada. Ontem, trabalhadores de catering de companhias áreas em 17 importantes aeroportos do país – entre eles, o jfk de Nova York, o O’Hare de Chicago, o lax de Los Angeles e o dca de Washington – encenaram o que seu sindicato unite here chamou de a maior demonstração de trabalhadores aeroportuários dos eua em muitos anos. Os protestos fizeram parte de uma crescente campanha que busca chamar a atenção para a condição dos trabalhadores de catering, muitos dos quais «vivem na pobreza», enquanto a American Airlines, que adquire seus serviços por meio de firmas subcontratadas como lsg Sky Chefs e Gate Gourmet, relatou um lucro líquido de 1,4 bilhão de dólares em 2018. Como observa o unite here, uma pesquisa recente realizada com centenas de funcionários da lsg Sky Chefs mostrou que «30% dos trabalhadores não possuíam seguro, e 35% dependiam de assistência à saúde subsidiada pelo governo para seu tratamento ou o de seus filhos».
O período de negociação dos contratos dos trabalhadores de catering se iniciou em 31 de dezembro de 2018; a Gate Gourmet começou a mediação em 26 de setembro do mesmo ano, e a Sky Chefs, em 21 de maio de 2019. Salário, plano de saúde e condições de trabalho inseguras são os principais temas levados à mesa de negociação por ambos os grupos de trabalhadores. «Eu trabalho no dfw, o principal aeroporto da American Airlines. Ele se localiza na cidade em que a companhia aérea foi fundada e onde construiu uma nova e luxuosa sede», observa Stephanie Kopnang, integrante do unite here. «Ainda assim, estamos entre os serviços de catering com pior remuneração do país. Se eu não fizer horas extras, não posso pagar o aluguel e as contas do mês», acrescenta.
Os membros do unite here questionam há meses as condições de exploração insustentáveis a que estão submetidos em ações que envolveram desde a simulação de morte na Filadélfia, em outubro de 2019, até protestos realizados em diversos aeroportos durante o verão boreal. Em julho, trabalhadores de catering de 33 aeroportos votaram majoritariamente pela greve quando o Conselho Nacional de Mediação os liberou da negociação. O tempo está se esgotando para que as companhias aéreas comecem a levar esses trabalhadores a sério e atendam às suas reivindicações, pois – como já deixaram bastante claro – estão dispostos a fazer todo o possível para obter o contrato que eles e suas famílias merecem. «Estou nesta luta por minha filha Ariana de 12 anos. Eu pago 400 dólares por mês de plano de saúde só para poder levar minha filha ao médico e tratar de sua asma crônica», explica Shandolyn Lewis, trabalhadora de catering de Detroit. «Trabalhamos para uma empresa subcontratada, a lsg Sky Chefs, mas nosso trabalho gera lucro para as companhias aéreas. Sem nós, elas não teriam comida nem água para oferecer aos passageiros. Não podemos esperar mais pelo que merecemos».
Além dos trabalhadores de catering, os comissários de bordo, que já estão se preparando para um grande fluxo de passageiros ansiosos e antipáticos durante o feriado de Ação de Graças (haja controle emocional!), têm travado suas próprias batalhas. Os comissários da Hawaiian Airlines votaram a favor da convocação de uma greve – a primeira decisão nesse sentido nos 90 anos da companhia aérea – após o fracasso das negociações contratuais iniciadas em janeiro de 2017. Esses trabalhadores recebem menos que colegas de profissão de outros estados, apesar do alto custo de vida das cidades onde moram. Há seis meses organizam piquetes informativos no aeroporto internacional de Honolulu com o apoio de seu sindicato, a Associação de Comissários de Bordo (afa-cwa), e de Sara Nelson, presidenta da mesma associação que passou a participar dos protestos em junho. Assim como os trabalhadores do unite here, os comissários da Hawaiian Airlines não podem entrar legalmente em greve até que o Conselho Nacional de Mediação os libere das negociações e transcorra um «período de esfriamento» de 30 dias. Depois disso, contudo, o céu é o limite.
Os funcionários de companhias aéreas não são os únicos do setor de transporte nessa luta. Os motoristas de ônibus da Autoridade de Trânsito da Área Metropolitana de Washington (wmata, na sigla em inglês) que trabalham na estação Cinder Bed Road, na Virgínia, já estão em greve há meses. Eles integram o sindicato Amalgamated Transit Union (atu), filial 689, e a estação Cinder Bed Road é operada pela multinacional francesa Transdev. Trata-se da primeira estação da wmata administrada por uma empresa privada em quatro décadas. Os trabalhadores iniciaram a greve em 24 de outubro de 2019 por preocupações relacionadas a segurança, práticas de trabalho injustas e problemas de serviço, além da evidente disparidade salarial: de acordo com o sindicato, os condutores da Transdev desempenham exatamente o mesmo trabalho daqueles empregados diretamente pela wmata, mas ganham 12 dólares a menos por hora. Também precisam pagar 6.000 dólares para o plano de saúde, enquanto seus pares da wmata não pagam nada. Esse duplo sistema de salários e benefícios, no qual os trabalhadores são classificados e pagos de modo diferente para desempenharem a mesma atividade, assemelha-se às condições que levaram à greve geral na General Motors, no início de 2019, e quase fizeram o mesmo com a ups em 2018. As patronais adoram salários diferenciados porque podem economizar em indenizações e, em alguns casos, até mesmo gerar discórdia entre os membros do sindicato. Mas a injustiça inerente ao sistema irrita os trabalhadores, e os esforços da gestão para dividi-los estão começando a se voltar contra ela. Graças ao espírito de grupo da filial 689 do sindicato atu, eles conseguiram chegar a esse ponto, e não vão desistir agora; como cantaram em um videoclipe recente realizado pelo grevista Otis Price: «Não brinquem com o meu dinheiro, não brinquem com a minha família».
A greve da Cinder Bed Road contou com o apoio de outros membros do sindicato, inclusive dos que trabalham no Fairfax Connector, o maior sistema de ônibus da Virgínia e o terceiro maior da área da capital estadunidense. Os trabalhadores sindicalizados do Fairfax Connector, cujo contrato já expirou, autorizaram uma greve em 9 de novembro de 2019, e sua rede será operada – adivinhe só – pela Transdev2. E essa não é a primeira vez que a empresa francesa protagoniza um conflito trabalhista com o Departamento de Veículos Automotores (dmv, na sigla em inglês); em 2018, a Transdev chegou a um acordo para evitar um processo aberto por cinco motoristas do Paratransit3 de Baltimore que afirmavam receber «4 ou 5 dólares por hora», de acordo com um dos demandantes. No início daquele mesmo ano, a cidade de Baltimore processou a Transdev por um suposto superfaturamento de 20 milhões de dólares para operar o serviço de ônibus Charm City Circulator.
É difícil imaginar a Transdev tentando realizar esse tipo de conduta abusiva em sua sede de Paris. Os trabalhadores franceses são conhecidos por sua eterna predisposição à greve. Os profissionais do transporte já realizaram diversas grandes paralisações neste ano e planejam outras para o mês que vem. No Canadá, cerca de 3.000 trabalhadores da Canadian National Railway fizeram sua primeira greve em uma década em 19 de novembro de 2019. No entanto, foi anunciado em 26 de novembro de 2019 que a empresa e o sindicato Teamsters Canada chegaram a um acordo preliminar. A greve representou grandes problemas para o frágil governo do primeiro-ministro, Justin Trudeau, porque paralisava o transporte de petróleo e produtos agrícolas em todo o país.
Enquanto isso, a Lufthansa enfrenta uma possível greve no período de Natal. Em 25 de novembro do ano passado, os controladores de tráfego aéreo italianos interromperam bruscamente suas operações e impediram a decolagem de mais de 100 voos da Alitalia; e trabalhadores da South African Airlines acabam de encerrar uma greve complicada. Além disso, a Finnair, companhia aérea nacional da Finlândia, precisou cancelar quase 300 voos no 24 e 25 de novembro devido à greve de solidariedade iniciada por seus trabalhadores em resposta a um conflito trabalhista que afeta mais de 9.000 trabalhadores do serviço postal do país. A greve também envolveu os condutores de ônibus de Helsinque, e o Sindicato dos Marinheiros da Finlândia interrompeu a navegação de todas as embarcações de cargas e passageiros com bandeira finlandesa até novo aviso, provocando um duro golpe para o turismo e a economia do país.
Em sua maioria, essas greves de solidariedade são ilegais nos eua por conta da odiada Lei Taft-Hartley de 1947, que impôs restrições a boicotes secundários, greves jurisdicionais e as chamadas greves «selvagens» (ou seja, que violam cláusulas de proibição ou ocorrem sem a aprovação dos líderes sindicais). Os professores da Virgínia Ocidental, que lançaram a corrente #RedforEd [Vermelhos pela Educação], declararam uma greve selvagem, e o mesmo ocorreu em Kentucky e Oklahoma. Os caminhoneiros do Teamsters, que se recusaram a entregar veículos da General Motors às concessionárias durante a recente greve da empresa, também se envolveram possivelmente no tipo de boicote secundário proibido pela Lei Taft-Hartley. Algumas regras foram feitas para serem quebradas. Ainda assim, a existência da lei torna mais difícil para os trabalhadores estadunidenses organizar o tipo de paralisação em grande escala que os de outros países podem praticar com impressionante regularidade. O Chile e a Colômbia presenciaram greves nacionais em novembro de 2019; as ruas de Roma foram tomadas por grevistas em outubro; Sudão, Índia e Catalunha passaram por convocações de greve geral em 2019; manifestantes em Hong Kong declararam uma em agosto; e, no início do ano passado, centenas de milhares de mulheres na Espanha realizaram uma greve coordenada que durou todo o Dia Internacional da Mulher.
Embora as restrições da Lei Taft-Hartley dificultem nos eua revoltas em grande escala da classe trabalhadora semelhantes às realizadas em outros países, sua própria existência revela a importância de ações contínuas dos trabalhadores do transporte: nossa infraestrutura de transporte é vulnerável, e os trabalhadores sindicalizados têm a capacidade de provocar um verdadeiro caos.
Isso é algo que sindicatos como o Teamsters e o Sindicado Internacional de Estivadores e Trabalhadores Portuários (ilwu, na sigla em inglês) sempre compreenderam. Motoristas de entrega e trabalhadores do transporte se encontram em uma posição perfeita para mover (com vigor) as alavancas do poder. Alguns meses atrás, mais de 300 membros da filial 455 do Teamsters de Denver, Colorado, entraram em greve na unidade de distribuição de alimentos da Sysco por problemas de segurança. O destacado histórico de militância do ilwu não pode ser subestimado: o sindicato está atualmente ameaçado com uma decisão judicial que o condena a pagar 93,6 milhões de dólares por lentidão de trabalho e paralisações em Portland que, segundo seus advogados, foram realizadas em resposta a práticas trabalhistas injustas.
Como esses e outros trabalhadores do transporte mencionados deixam bem claro, uma forma infalível de atrair a atenção para um problema é interferir nos planos de viagem das pessoas, no envio de seus produtos, na entrega de suas encomendas ou em seu deslocamento. Durante o Workers Revival Fest, evento artístico e de mobilização realizado em Kansas City em 2018 e planejado pelo grupo Missouri Jobs With Justice [Empregos com Justiça no Missouri], conversei com um senhor grisalho que trabalhou durante décadas no transporte ferroviário. Segundo ele, as pessoas não percebem o grande poder que sua categoria ainda possui e como a infraestrutura de transporte é essencial para manter o país em funcionamento. «Nós podemos parar este país em três dias», afirmou.
Depois que aeroportos foram palco de protestos em 2017 como resposta ao repugnante veto de Donald Trump à entrada de cidadãos de países muçulmanos (que continua vigente e pode se intensificar), a Justiça suspendeu e depois suavizou a restrição. Quando mineiros da Blackjewel bloquearam um trem de carvão no Kentucky até receberem seus salários, eles atraíram a atenção de todo o país e receberam o que lhes deviam. Menos de uma semana após Sara Nelson, presidenta do afa-cwa, pedir aos líderes de seu sindicato que considerassem a ideia de uma greve geral para derrubar a paralisação governamental (shutdown) cruel e mesquinha imposta por Trump, voos dos principais aeroportos deixaram de ser realizados por motivos de segurança, já que vários controladores aéreos da costa leste se declararam doentes para não trabalhar. Como consequência, o governo voltou atrás no dia seguinte. Há um motivo para que a simples ideia de uma greve dos trabalhadores do metrô seja suficiente para provocar pânico em todo nova-iorquino ou para que a mera possibilidade de cancelamentos de voos em cascata faça um tirano retroceder de sua decisão. Os trabalhadores do transporte têm a chave da economia e de nossa sociedade como um todo. Sem eles, nada ou ninguém pode chegar aonde precisa, por mais importante que acredite ser.
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
O ultraimperialismo estadunidense e A Divina Comédia de Dante Alighieri * Luis Eustáquio Soares - Pátria Latina
O ultraimperialismo estadunidense e A Divina Comédia de Dante Alighieri.
“O homem, em realidade, não é, como afirma a lírica aparência da sociedade capitalista, um ser isolado, mas um ser social, cuja vida está ligada por milhares de fios aos outros homens e ao conjunto do processo social.” György Lukács, Crítica, p.361.
Onde o sol não luz
Qual é a lei geral da história? Marx a formulou assim: “O ser social determina a consciência humana” (MARX, 2008, p. 58). E o que é o ser social hoje? É o modo de produção capitalista mundialmente estabelecido como imagem e semelhança do Pentágono, espelhado em cada ato de compra e venda dolarizado, que amalgama e molda o mundo realmente existente, entrelaçando instituições, crenças, modos de ser, estar e viver, com base na militarização geral das relações sociais.
Em relação ao planeta do dólar nas alturas, o poema-livro, clássico da literatura mundial, A Divina Comédia de Dante Alighieri, se atualizado, pode ser bastante sugestivo para o entendimento do sistema cultural, político e econômico do ser social contemporâneo, agitado por guerras, golpes, divisões e alienações dolarizadas – um verdadeiro inferno planetarizado. Refiro-me ao seguinte verso do Canto I, de “O Inferno”, que assim se diz: “tal que aconteceu que a fera inquieta, /vindo contra mim a pouco e pouco,/ me empurrava para onde o sol não luz” (ALIGHIERI, 1979, p.11).
A voz lírica, nos versos citados, alude a uma loba faminta, insaciável, que impulsiona o poeta para onde “o sol não luz”, isto é, para o inferno. Mais adiante, no mesmo Canto I, o poeta Virgílio, guia de Alighieri, assim descreveu a loba faminta: “porque essa loba por cuja causa tu gritas/não deixa passar pessoa alguma por seu caminho,/ mas a impede, a fim de a devorar;/ e tem natureza tão má e cruel,/ que nunca sacia a fome que a abrasa,/ e depois de ter comido tem mais fome que antes./ Muitos são os animais com quem se ajunta,/ e mais seriam ainda, até que venha o Veltro, / que fará morrer a loba com dor” (ALIGHIERI, 1979, p. 15).
Comparo a loba faminta de Dante ao ultraimperialismo estadunidense, porque, como este, além da natureza má e cruel, se alia a outras feras, vale dizer: a oligarcas de todas as estirpes, latifundiários, juízes, procuradores, fundamentalistas das diversas religiões, fascistas, nazistas, lúmpens, pastores, influencers, identitaristas e ,ao fim e ao cabo, a todos e todas que acatam conscientes ou inscientes seu veredito: o inferno para a humanidade genérica, condenada a um mundo onde “o sol não luz”.
E esse mundo “onde o sol não luz” deve ser analisado em conformidade ao método do materialismo histórico, que deve assumir a seguinte perspectiva (desde que os EUA lançaram duas bombas atômicas em duas cidades japonesas, impondo-se como o soberano que passou a decidir o estado de exceção do capital em escala planetária): o mundo realmente existente, seu ser social, é o do capitalismo à imagem e semelhança do ultraimperialismo estadunidense.
Ora, isso diz tudo e não diz nada, criticarão, porque não explica a situação da América Latina, da África, da Ásia e tampouco questões mais imediatas e nem por isso menos importantes como a violência de gênero, o racismo. Trata-se de uma crítica procedente, sendo por isso que o método do materialismo histórico primeiro deve objetivar a totalidade do ser social realmente existente, porque estamos todos dentro dela e todos somos determinados por ela, uma vez que somos seres de relações sociais e estas são sim as do modo de produção capitalista dolarizado e militarizado.
Entretanto, é preciso ao mesmo tempo investigar as particularidades regionais, assim como as que dizem respeito à violência de gênero e persistência estrutural do racismo; e, para tal, é necessário dialeticamente analisar cada formação econômico-social, considerando sua história específica, a fim de entender, por exemplo, como a América Latina, a África, a Ásia ocupam a posição que ocupam em um mundo sobredeterminado pelo faroeste ianque.
De qualquer forma, uma coisa é certa: a escrita cuneiforme encontrada em placas no Iraque tem mais a dizer sobre a nossa realidade específica que a programação da TV Globo, quintessência da alienação.
As três formas inseparáveis de alienação do capitalismo.
Se o ser social é o que precede a consciência, então não há nada a fazer? A consciência humana estará sempre refém da realidade que a determina? É evidente que não, embora outra premissa se imponha de modo irrecusável, qual seja: para mudar o mundo é preciso objetivá-lo, conhecê-lo em seus múltiplos aspectos, econômicos, políticos, militares, culturais, tendo em vista a realidade tal como é e não como se suponha que seja; a realidade do modo de produção capitalista, na era do complexo industrial-militar-cultural dolarizado do ultraimperialismo estadunidense.
Antes de analisá-lo, o ultraimperialismo ianque, é preciso fazer a pergunta básica: o que é o capitalismo? É o modo de produção mundial de alienação, em tempo real, também chamado de sistema integrado de fetichismo da mercadoria. E o que é a alienação? É sempre, em qualquer caso, o aviltamento do trabalho e não existe nada mais aviltado e humilhado que o trabalho alienado, porque confirma a sua própria condição de extorquido, desumanizado.
Existem três formas inseparáveis e objetivas de alienação no modo de produção capitalista: a alienação que diz respeito à relação estrutural e antagônica entre o capital e o trabalho, a alienação mercantil e a alienação relativa à divisão social desigual do trabalho.
São alienações intercambiáveis e imanentes à civilização burguesa, pois, como evidenciou Marx na segunda edição alemã de O capital, o capitalismo é um sistema que funciona de cabeça para baixo porque nele o capital, que não produz nada, é o dono de tudo; e o trabalho, que produz tudo, não é dono de nada.
A primeira forma de alienação do capitalismo é a que diz respeito, assim, às relações sociais antagônicas e interdependentes entre os donos dos meios de produção, os burgueses; e aqueles que só têm a sua força de trabalho, as suas vidas, para sobreviver, entregando-as aos donos do mundo – a classe operária.
A alienado em primeiro grau no sistema do capital é a do trabalho, da classe operária, por estar ao mesmo tempo alienada dos produtos de seu trabalho, das mercadorias que produz, e de si mesma, por gastar o tempo de seu trabalho para outrem – para os burgueses, que também são alienados, mas de uma forma distinta, de segundo grau, por não serem efetivamente os produtores de suas riquezas, o que os transforma em alienados em relação aos trabalhadores que os enriquecem.
A primeira forma de alienação da civilização burguesa evidencia, como salientaram Marx e Engels em A sagrada família, que no capitalismo a alienação é a regra, embora essa regra sempre beneficie os burgueses, sendo a condição objetiva da desumanização da classe operária.
Os primeiros se enriquecem com a alienação, tornando-se semideuses; e os segundos, diferentemente, tornam-se miseráveis no interior de um sistema que os extorque, condenando-os a serem os produtores de um mundo que sempre se voltará contra eles, inexoravelmente.
Esse é o motivo pelo qual fundamentalmente são os trabalhadores que estão na obrigação de se desalienarem, razão por que não existe nada mais importante na vida, sob qualquer ponto de vista, que o trabalho desalienado, chamado por Marx e Engels de trabalho revolucionário, no Manifesto comunista.
Se o capitalismo é um sistema de dupla alienação, a do burguês e do operário, tudo o mais que advém nele e dele é alienação. Uma delas, a segunda forma, diz respeito às relações mercantis, cuja fórmula, projetada por Marx em O capital, é esta: M-D-M (D, dinheiro; M, mercadoria) e, ato contínuo, D-M-D, dinheiro, mercadoria, dinheiro. A civilização burguesa é um sistema universal de relações entre mercadorias e dinheiro, essa mercadoria das mercadorias, razão por que se constitui antes de tudo como uma civilização em que tudo tende a se tornar mercadoria – e tudo é tudo mesmo!
Ora, se a relação entre capital e trabalho, como primeira e dupla forma de alienação do modo de produção capitalista, está na base de um sistema de relações alienadas, a mercantil, essa segunda forma, consagra no cotidiano a primeira, universalizando relações alienadas entre mercadorias e ao mesmo tempo impulsionando e ratificando a terceira, qual seja: a da divisão desigual internacional do trabalho – vale dizer, para ser redundante, do trabalho alienado atomizado em nome da produtividade do capital.
Como demonstraram Marx e Engels em A ideologia alemã, a divisão do trabalho pôs em campos desiguais e muitas vezes opostos a cidade em relação ao do campo, assim como o trabalho intelectual e o manual, separando indústria, comércio e agricultura, ao mesmo tempo em que conformou formas de pensar, valores e estilos de vida coextensivos aos pontos de vista separados alienadamente um do outro; e desigualmente posicionados no que diz respeito aos ramos da indústria, do comércio e da agricultura.
O patriarcalismo inaugurou a divisão entre trabalho masculino e feminino, ao mesmo tempo em que substituiu uma formação econômico-social matrilinear por outra, patrilinear. O modo de produção escravista impôs a divisão entre trabalho livre e o trabalho escravizado, assim como o modelo medieval ratificou relações sociais de produção divididas por estamentos piramidais, separando nobres de plebeus. O mercantilismo, no período de expansão colonial europeia, dividiu o mundo entre colonizadores e colonizados, assim como o modo de produção capitalista se estruturou e se estrutura pela divisão antagônica entre as classes, a burguesa e a operária.
A divisão social do trabalho é um efeito do desenvolvimento das forças produtivas. No interior do modo de produção capitalista, Marx, sempre Marx, identificou a sua lei, ao mesmo tempo o seu calcanhar de Aquiles: a tendência de queda da taxa de lucro, tornando a civilização burguesa historicamente condenada a se findar. Por quê? Porque a formação orgânica do capital, sob a forma de capital constante ( meios de produção e matérias-primas) torna os custos da produção cada vez mais caros, diminuindo tendencialmente os custos do trabalho.
O burguês e o trabalhador são classes antagônicas. Entretanto, em um sistema em que a alienação é a regra, são também classes alienadamente interdependentes. Ao acumular riquezas, o capital lança cada vez mais o mundo do trabalho para a miséria, esse inferno dantesco. Isso torna os custos do capital cada vez mais altos, acirrando a concorrência entre capitalistas e gerando a superprodução de mercadorias.
Tudo funciona como se a segunda forma de alienação, a das relações mercantis, entrasse em curto-circuito porque o capitalista não produz mais-valor por geração espontânea e tampouco pelo avanço da tecnologia e, assim, do plus-valor ou mais-valor relativo. A interdependência alienada entre o capital e o trabalho está fadada à crise por culpa da própria alienação do capitalista que, como dono dos meios de produção, só conhece a lógica da acumulação de capital.
E, é bom que se diga, essa não é uma questão moral. Não depende de o capitalista frear sua voracidade de acumular. É uma questão de alienação. A consciência de classe do capitalista é necessariamente alienada porque, de outro modo, deixará de ser capitalista e assumirá, como fez Engels, um filho de capitalista, a posição do trabalho contra o próprio capital.
A consciência de classe para os donos dos meios de produção é inevitavelmente alienada porque o capital é a quintessência da alienação e não existe sem esta. Somente a classe trabalhadora está na obrigação de adquirir consciência de classe, o que significa necessariamente deixar de ser alienada e tomar para si o mundo que efetivamente é seu.
O sistema burocrático integrado do ultraimperialismo estadunidense.
E então por que o capitalismo ainda não acabou? Precisamente por causa da emergência de uma burocracia que se desenvolveu com o objetivo de salvar o capitalismo de si mesmo, gerenciando-o por meio da manipulação da terceira forma de alienação da civilização burguesa, a da divisão social internacional do trabalho alienado. Lênin, em Imperialismo: etapa final do capitalismo, analisou de forma consequente o perfil dessa burocracia, associando-a à emergência do capital monopólico – é a burocracia imperialista.
E o que é o capital monopólico? Antes de tudo, antes de ser o capital privado dos grandes trustes, antes de ser o capital bancário inseparável do capital industrial, é o capital do Estado monopólico imperialista ou do Estado, com sua superestrutura jurídica, militar, administrativa, dedicado a salvar o capitalismo de si mesmo, explorando a divisão internacional desigual do trabalho, a fim de saquear as matérias-primas e o trabalho dos povos.
Entretanto, na era do capitalismo liberal, dominado pela Inglaterra, o Estado pré-monopólio britânico tinha como parâmetro a Companha Britânica das Índias Orientais, fundada em 1600, tendo persistido até 1874, data que inaugurou não apenas o começo do surgimento do capital monopólico e assim a emergência do imperialismo, mas também a crise do sistema colonial capitalista e liberal inglês, que teve como grande êxito a derrota da China entre 1839 e 1860, usando como subterfúgio, para derrotar e humilhar o Império Celeste, duas guerras do ópio e a guerra religiosa, a de Taiping.
A partir de 1874, duas burocracias monopólicas, disciplinadas para manipular a divisão internacional do trabalho em escala planetária, iniciaram não apenas uma colaboração nos bastidores, mas também uma concorrência sem tréguas. Refiro-me à burocracia monopólica alemã e à norte-americana, vanguardas, no período, da administração de seus respectivos Estados monopólicos, com a vantagem da burocracia do Estado monopólico estadunidense.
E por quê? A primeira vantagem está relacionada, em diálogo com Michel Foucault de Nascimento da biopolítica, com fato de que a burocracia do Estado monopólico alemã ser ordoliberal e a estadunidense ser anarcoliberal. No primeiro caso, existia uma separação entre o Estado monopólico e os monopólios privados em formação. No segundo, por sua vez, já não há diferença alguma entre as duas instâncias, porque tudo se torna uma porta-giratória, não fazendo mais sentido sequer falar em capitalismo, em termos clássicos, com o protagonismo dos donos dos meios de produção, porque tudo é ao mesmo tempo superestrutura estatal e iniciativa privada.
A figura do filantropo, a começar pelas gerações dos Rockfeller, é exemplar nesse contexto. Afinal de contas, o que são um Bill Gates, um Jeff Bezos, Zuckerberg, Elon Musk? São empresários, donos de meios de produção? Sem a chuva de dólares do Federal Reserve, existiriam? Que função ocupam esses burocratas como agentes do ultraimperialismo estadunidense? E o que é afinal este último? É a prova cabal de que a lei do fim histórico e estrutural do capitalismo, o da tendência da queda da taxa de lucro, simplesmente é cientificamente verdadeira.
O capitalismo não funciona sem um Estado racista, de perspectiva colonial ou imperialista.. Rosa Luxemburgo deu um passo adiante de Marx, a propósito. Em A acumulação do capital retomou o tema da crise estrutural do capital, esse alienado ao quadrado, para argumentar acertadamente que a civilização burguesa não duraria um dia sequer, se tivesse que depender apenas da extorsão do tempo de trabalho do operário para extrair o mais-valor e, por tabela, o lucro.
Para a espartaquista, a acumulação primitiva do capital não o antecede apenas, como asseverou Marx, porque a rigor é sua regra geral, transversalmente. Sem o sangue dos povos e o saqueio da natureza o capitalismo simplesmente, alienadamente sólido, desmancharia no ar. É por isso que a civilização burguesa, em seu período de dominação europeia, nunca dependeu apenas de si, tendo conseguido desenvolver suas forças produtivas à custa do sistema colonial europeu e, portanto, da África, da América Latina, da Ásia, Oceania.
As duas guerras mundiais do passado século foram o resultado trágico do último suspiro do capitalismo, gerenciado pela burocracia europeia, inapta para garantir a acumulação ampliada do capital porque se concentrou em gastar energia para conter as lutas de classe que ocorreram no interior da Europa. EUA, por sua vez, não conheceram lutas de classes internas ( a não ser episodicamente), pois a anteciparam, controlando-as com antecedência.
Para analisar esse último argumento, o diálogo com o filósofo das modernidades europeia, estadunidense e latino-americana, Bolívar Echeverría, é imprescindível. Em seu livro Crítica de la modernidad capitalista, o teórico equatoriano descreveu a modernidade estadunidense como uma espécie de metamodernidade ou modernidade da modernidade europeia, pois se desenvolveu ocupando sempre uma posição de observadora privilegiada de tudo que ocorria na Europa, com dois objetivos entrelaçados: 1. Evitar que a agitação das lutas de classe europeias, como a Revolução Francesa de 1789, as revoltas populares de 1848, a Comuna de Paris de 1871, dentre outras, ocorressem ou influenciassem a classe operária norte-americana; 2. Manipular as contradições e conflitos interclasses da Europa para superá-la no âmbito da concorrência capitalista, assumindo, assim, a hegemonia da gestão anarcoliberal do capital mundialmente estabelecido, o que efetivamente tornou-se possível após o fim da Segunda Guerra Mundial.
O ultraimperialismo estadunidense, sendo a metamodernidade, é também o metaimperialismo europeu. Emergiu e se tornou hegemônico salvando o capitalismo de si mesmo, ao se transformar em metacapitalismo, posição alcançada por meio de superestrutura burocrática, ao mesmo tempo militar, econômica, política, cultural, acadêmica.
As duas guerras do ópio, assim como a guerra religiosa de Taiping, por meio das quais a Inglaterra conseguiu submeter a milenar China, no século XIX, são as duas inspirações fundamentais de EUA para submeter a humanidade, expandindo-as de tal modo que tudo, qualquer coisa, tenda a se transformar em cavalo de Troia de ópio (logo, de alienação) e de guerra santa, manipulando e editando sem cessar religiões, seitas, crenças, valores, identidades.
As duas guerras mundiais do passado século foram um grande negócio para os EUA, garantindo-lhes a reprodução ampliada de seu Estado monopólico, para, antes do final da Segunda, com o Acordo de Bretton Woods de junho de 1944, tornarem-se de fato o centro do sistema financeiro mundial, tendo o dólar como moeda de referência, ao mesmo tempo de troca e de reserva.
Com isso, apenas com isso, com o dólar como moeda de troca e de reserva, puderam finalmente comprar o trabalho dos povos, impondo o seu próprio modelo de capitalismo, à sua imagem e semelhança: o capitalismo estilo Pentágono, devotado a impor a reprodução ampliada de seu capital por meio de golpes, guerras, saqueios, acumulação por despossessâo, sempre sorrindo para a foto, como se fora o justo, o civilizado, o democrático, o correto, o ético, o herói de seu sistema integral de publicidade e, assim, de mentiras.
E não bastasse isso, moldou instituições ditas internacionais como cavalos de Troia de sua hegemonia, como tem sido o cavalo de Troia ONU, OMC, FMI, BM, OEA, OMS, União Europeia, OTAN, Tribunal de Haia, FEM, Bancos Centrais, espelhando-as nos fluxos sem fim e sem teto do dólar nas alturas, ao mesmo tempo opiáceo e religião da humanidade, ancorado no “I am” de sua indústria cultural, igualmente “sem teto” para mentir, tergiversar, editar, reeditar, transformando-se no centro mundial de produção de fetichismos e, assim, de alienações.
Se nem tudo que reluz é ouro, por outro lado, tudo que a superestrutura burocrática do anarcoliberalismo ianque toca torna-se inevitavelmente cavalos de Troia, como são seus cavalos de Troia identitários, esses novos marines fetichizados como militantes negros, homoafeticos, femininos. Sem contar os cavalos de Troia teóricos, como multiculturalismo, estudos culturais, pós-colonialismo, decolonialismo, ancestralidadade, usados como referências inclusive e até sobretudo para estabelecer intercâmbios acadêmicos de sul para o sul.
Por exemplo, não é incomum, no contemporâneo, que o campo teórico designado como ancestralidade seja a referência epistemológica para o intercâmbio acadêmico entre o Brasil e a África, sem, supostamente, a presença estadunidense. Afinal, a função dessa superestrutura mundial do ultraimperialismo, estilo cavalo de Troia, inclusive teórica, não é outra senão esta: sugerir que tudo parta da gente, como ato de vontade própria, como se não fosse made in Usa, embora, em um campo teórico como o citado domine as seguintes palavras de ordem do sistema de alienação estadunidense: fuga da história e, assim, da luta de classes, sobretudo a da soberania nacional, a soberania dos povos, em nome de uma fetichista terra prometida romantizada, ancorada em um passado remoto anterior ao sistema colonial europeu.
E o sistema colonial, capitalista e ultraimperialista estadunidense, não vem ao caso? Sim, vem, empurrando-nos, de modo sub-reptício, para a terra prometida ancestral, no contexto em que o inimigo passa a ser a China, por trazer consigo um processo de industrialização que deve ser combatido em nome do respeito à natureza. Conveniente, não? Stay-behind– e nessa posição tudo se torna conveniente!
Esse sistema cavalo de Troia integral do ultraimperialismo ianque funciona como uma sociedade cavalo de Troia ocupando lugar da sociedade real, historicamente situada, dos povos. Se o que está em jogo, com a emergência do imperialismo, é a manipulação da divisão social desigual e internacional do trabalho, para empurrar a reprodução ampliada do capital para frente, como funciona a tecnologia de poder do ultraimperialismo ianque no interior dessa terceira forma de alienação do capitalismo?
Funciona retomando a divisão do trabalho que separou as cidades dos campos. Há no sistema de cavalo de Troia integral ianque os cavalos de Troia do tipo urbano, criados no interior do Partido Democrata e das instituições globalistas, como a Comissão Europeia e o Fórum Econômico Mundial; e os cavalos de Troia do Partido Republicano, de reedição sem teto do faroeste como cavalo de Troia dos neonazistas ucranianos, dos bolsonaristas no Brasil, do Estado Islâmico na Eurásia, da extrema direita e do fundamentalismo religioso por todo o planeta, incluindo o neopentacostalismo, em que cada Igreja funciona igualmente como cavalo de Troia dedicada à guerra santa de expulsar o demônio da soberania nacional plena.
E como a divisão social do trabalho está relacionada com as forças produtivas e, assim, também, com o avanço da ciência e das tecnologias, na época da automação, da digitalização, da nanotecnologia, da biotecnologia novos cavalos de Troia estão se conformando, no front de batalha contra a humanidade, inaugurando a era da colonização genética de todos os seres vivos do planeta.
Não podemos subestimar esse novo cenário. A atual pandemia é também o seu atual teatro de guerra e, se o mundo realmente existente é este do ultraimperialismo ianque, o da produção planetária de fetichismos urbanos e camponeses, respectivamente opiáceos bélicos e guerras santas, não nos resta outra alternativa, retomando Dante Alighieri, agora do Canto III de “Inferno”, senão esta: “Deixai toda a esperança vós que entrais” (ALIGHIERI, 1979, p. 27).
Parece que nesse quesito Rússia novamente é a vanguarda, mais que a China, razão por que a seguinte frase de Putin significa o começo do fim de toda e qualquer esperança nos cavalos de Troia do Ocidente: “O barco já partiu e não há mais retorno”.
Como líder do mundo multipolar, que é e deve ser cada vez mais, aprenda isso, Lula: abandone toda a esperança no Ocidente, estendendo esse abandono total da esperança aos líderes europeus, pois são os “pecadores” do oitavo círculo de A divina Comédia de Dante; os dos falsários, hipócritas e corrompidos, estando a serviço do sistema burocrático do nono círculo: o do ultraimperialismo estadunidense, o mesmo que acaba de condenar Cristina Kirchner a 6 anos de cadeia, tornando-a inelegível para sempre, assim como o mesmo que acaba de destituir Pedro Castillo no Peru, mantendo-o no cárcere.
E tudo funciona em tempo real, com a Internet como cavalo de Troia, não sendo por acaso que assim Wikipédia descreva o líder popular peruano: “José Pedro Castillo é um professor, líder sindical e político peruano que serviu como presidente do Peru de 2021 a 2022”.
Sim, “tudo escrito e prescrito”, para lembrar uns versos de Drummond, “em nebuloso estatuto” de um mundo regido por regras.
Quais?
Referências:
ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1979.
ECHEVERRÍA, Bolívar. Crítica de la modernidad capitalista. La Paz, 2011.
ENGELS, Friedric; MARX, Karl. A ideologia alemã. Trad. Rubens Enderle, Nelio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007.
_____. A sagrada família. Trad. Marcelo Backes. São Paulo: Boitempo, 2003;
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
LENIN, Vladimir Ilytch. Imperialismo, etapa superior do capitalismo. São Paulo: Global, 1979.
LUXEMBURO, Rosa. La acumulación del capital, Ciudad del Mexico: Editorial Grijalbo, 1967.
MARX, Karl. KARL, Marx. O 18 de Brumário e Cartas a Kugelmann. Trad. Leandro Konder e Renato Guimarães. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
______. Contribuição à crítica da economia política. Trad. Florestan Fernandes. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
———. Pósfácio à 2º Edidição. In.: O capital. Livro I. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017, p.91.
______. O capital. Livro III. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017.
SOARES, Luis Eustáquio. A sociedade do controle integrado: Franz Kafka e Guimarães Rosa. Vitória: Edufes, 2014.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. Tradução Álvaro Pina e Ivana Jinkings. São Paulo: Boitempo, 2010.
[1] Um operário da educação brasileira.
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