segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A VITÓRIA DA ESQUERDA * Wilson Coelho / ES

 A VITÓRIA DA ESQUERDA

Wilson Coêlho/ES


Qualquer luta necessita de uma organização e, para isso, criamos instituições. E as instituições são expressões da práxis humana nas suas contradições e surgem da necessidade de organizar o real. Mas elas só se constituem dentro de um modelo de ordem institucional dada e por si só não são capazes de decidir ou garantir que a humanidade vai para um lado ou para o outro, porque a práxis choca com a realidade e precisa romper com esses princípios no momento da luta. Karl Marx, em “O 18 Brumário de Luis Bonaparte“, colocou de forma bem objetiva essa, quando afirma que “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. 


 Apesar da mídia da casa-grande apregoar que teve uma vitória sobre a senzala, ela se esquece de que também saímos vitoriosos, apesar de não termos ganhado nas urnas, o que também é um engodo levando em conta o número de prefeituras onde a esquerda se elegeu, além de diversos vereadores e vereadoras. Isso anula a pretensão da burguesia em acreditar que a esquerda está morta. Ela reagiu com força e dignidade e se fez presente diante do tabuleiro político e marcou presença no jogo do xadrez ideológico, afrontando a hegemonia do pensamento burguês, mesmo em desvantagem na questão econômica e vítima de fake news e muitas mentiras de desqualificar o adversário para não levar em conta as propostas políticas públicas. 


Assim, podemos afirmar que a esquerda saiu vitoriosa nessas eleições, considerando que ela se impôs e se fez protagonista, como dizia Torquato Neto, “desafinando o coro dos contentes”, mesmo com o projeto das classes dominantes em dizimá-la, desde o lançamento do livro “Orvil”, em 1985, logo depois que saímos do regime militar, além do evento de 2013, o golpe de 2016 e a eleição fraudada de 2018. A grande prova da vitória da esquerda é que ela retomou suas lutas e disputou as eleições no primeiro turno e conseguiu chegar ao segundo em muitas capitais e cidades importantes do país. Quer dizer que a esquerda poderia ter desaparecido do cenário político depois de tanta perseguição e opressão pela mídia a serviço das forças econômicas da burguesia, mas ela está presente e sempre se contrapondo aos projetos da dominação.


Ademais, o que não podemos é dispersar. Toda revolução é permanente. E foi por falta dessa consciência que vivemos esse retrocesso. Quando o PT estava no poder as bases relaxaram e se acomodaram por acreditarem ter ganho a guerra. Mas foi uma mera batalha e a burguesia nunca ia deixar por menos. E o fascismo é assim, por mais que depois ele seja violento, ele sempre nasce em silêncio e com jeitinho sempre que a esquerda relaxa e deixa acontecer os apagões na consciência de classes. Refiro-me às bases da sociedade em geral, não dá meia dúzia organizada setorialmente, embora mesmo essas quase sempre trabalham para dentro. Obviamente, o PT, como todos os partidos de esquerda são reféns do modelo de organização partidária da direita, ou seja, autoritário e centralizado, além de terem que cumprir com oss requisitos de organização legislados pela classe dominante. Talvez esse seja o ‘nó górdio” na dificuldade de abrangermos outros setores da classe oprimida da sociedade. Esse é um tema que precisa ser muito discutido para aprofundar e direcionar muitas de nossas práticas.


Por essas questões, a esquerda precisa entender que uma luta ainda maior começa agora e que já estava na hora de uma reorganização. Parece que até aqui, nessa eleição, foi apenas um ensaio. Não podemos nos dispersar e precisamos buscar formas de manter essas atrizes e esses atores que estiveram até agora que continuem em cena. Não em busca de espectadores, mas por um grande espetáculo capaz de romper as fronteiras entre palco e plateia. Tentar mudar a frase de Lima Barreto quando disse que "o Brasil não tem povo, tem público".


Para rompermos com a ideia de que o processo eleitoral seja suficiente para reverter os quadros de dominação, devemos levar em conta e reavaliar nossas formas de organização porque diversos movimentos sociais emergem no Brasil. Nessas eleições, além de alguns prefeitos, foram mais de 50 quilombolas que chegam ao cargo de vereadores em diversas câmaras, líderes indígenas, mulheres, inclusive, negras. Nesse sentido, faz-se necessário rever as lógicas institucionais dos partidos de esquerda para entender e incluir as lógicas dos movimentos sociais. Não podemos viver a ilusão de que podemos instaurar uma democracia a partir do voto, quando as eleições são controladas pelo poder econômico.

Temos que combater a política do ressentimento que coloca brasileiros contra brasileiros, oprimidos contra oprimidos, vítimas contra vítimas por serem iludidos com uma realidade apresentada pela classe dominante dos grandes negócios e com orientações racistas e sexistas. Precisamos entender que o povo brasileiro não é um povo de direita e muito menos de extrema direita ou fascista, mas diagnosticar em que momento e em que circunstância esse povo é manipulado por forças de extrema direita. Trata-se de entender que o pensamento de uma sociedade dividida em classes é o pensamento da classe dominante que tem sobre a dominada todos os mecanismos de formação e informação.


Wilson Coelho - Es

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Nasce preocupado com os caminhos do proletariado em geral, porém, especialmente, com o brasileiro