quinta-feira, 28 de maio de 2020

A Raiz das Epidemias * Paul Sweeze & Henry Magdoff - USA

A RAIZ DAS EPIDEMIAS
Paul Sweeeze/Henry Magdoff - USA

Mais de um século atrás, o zoólogo britânico E. Ray Lankester, o protegido de Charles Darwin e Thomas Huxley e o amigo íntimo de Karl Marx, advertiram em The Kingdom of Manque as causas da propagação de doenças no mundo moderno foram em grande parte o resultado da alteração humana das relações naturais através de "atividades inquietas e ignorantes". Um crítico forte do capital, Lankester sustentou, em um capítulo intitulado "Vinganças da natureza: a doença do sono", que epidemias modernas de vários tipos (afetando organismos em geral, incluindo seres humanos) podem ser atribuídas ao fato de que "em seus esforços gananciosos para produzem grandes quantidades de animais e plantas ... o homem acumulou enxames não naturais de uma espécie em campos e fazendas e multidões não naturais de sua própria espécie nas cidades e fortalezas. ” A fonte do problema estava em um mundo dominado por "mercados" e "negociantes cosmopolitas em finanças" (Lankester, The Kingdom of Man[Nova York: Henry Holt and Company, 1911], 31-33, 184-89; John Bellamy Foster, O Retorno da Natureza [Nova York: Monthly Review Press, 2020], 61–64).

As advertências de Lankester foram amplamente ignoradas por um sistema que coloca o lucro diante das pessoas e do planeta. No entanto, há vinte anos, o ecologista Richard Levins despertou novamente o alarme em seu artigo “ O capitalismo é uma doença? ”Na Revisão mensal . Indagando por que as autoridades de saúde pública no final do século XX presumiram que as doenças infecciosas desapareceriam e, portanto, não estavam preparadas para “o surgimento de aparentemente novas doenças infecciosas: a mais ameaçadora é a AIDS, mas também a doença do legionário, o vírus Ebola ... e muitos outros ”, Levins argumentou que“ a saúde pública convencional não olhou para a história mundial, para outras espécies, para a evolução e a ecologia e, finalmente, para as ciências sociais ”(“ O capitalismo é uma doença? ”, mensalmente. Reveja52, n. 4 [setembro de 2000]: 9, 14; ver também Richard Lewontin e Richard Levins, Biology Under the Influence [Nova York: Monthly Review Press, 2007], 297-319).

Mais recentemente ainda, na grande obra Big Farms Make Big Flu (Nova York: Monthly Review Press, 2016), o biólogo evolucionista e filogeógrafo de saúde pública Rob Wallace, escrevendo da mesma maneira que Lankester e Levins, apresentou um argumento poderoso sobre o papel do agronegócio imperial na indução de degradação ecológica, doenças emergentes e possíveis pandemias globais. Em um capítulo chamado "O Grande Jogo da Culpa da Gripe das Aves", Wallace explicou que toda a estrutura do agronegócio neoliberal precisava ser confrontada para que essas pandemias emergentes fossem interrompidas. Além disso:

A capacidade global de saúde pública deve ... ser reconstruída. Essa capacidade é apenas a solução mais imediata para a pobreza, desnutrição e outras manifestações de violência estrutural que promovem o surgimento e a mortalidade de doenças infecciosas, incluindo a gripe. A gripe pandêmica e interpandêmica tem o maior impacto sobre os mais pobres. E, como em qualquer infecção, uma ameaça para uma é uma ameaça para todos.

Somente quando esses objetivos forem cumpridos, seremos capazes de nos proteger contra o H5N1 e os outros sorotipos de influenza - H5N2, H6N1, H7N2, H7N7, H9N2 - agora alinhados em fazendas industriais como depressões tropicais no oceano. ( Grandes fazendas produzem grande gripe , 29)

Nesta edição da Monthly Review, Rob Wallace, em parceria com Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace, estendeu essa análise para abordar "COVID-19 e Circuitos de Capital: Nova York à China e vice-versa". Colocando a pandemia atual em seu contexto econômico, ecológico, epidemiológico e de saúde pública mais amplo, os autores demonstram os enormes perigos da fenda metabólica na ecologia e epidemiologia humana provocada pelas relações sociais capitalistas na era do capital financeiro monopolista, do agronegócio global e intrincadas cadeias de suprimentos espalhadas pelo mundo associadas à extrema exploração e expropriação de seres humanos e da natureza. Além disso, o neoliberalismo, representando a lógica interna do capitalismo, deixou o mundo vulnerável à catástrofe, onde quer que tenha entrado em cena. No caso dos Estados Unidos, “um regime individualizado, a epidemiologia just-in-time - uma contradição absoluta -… é, por definição, incapaz de reunir os recursos necessários para buscar uma supressão da marca chinesa ”do novo coronavírus (SARS-CoV-2 ou SARS-2). No nível causal, a atual pandemia de coronavírus é o produto de apenas um dentre um número crescente de patógenos zoonóticos sendo introduzidos por uma cadeia alimentar governada pelo agronegócio global. Finalmente, as tentativas de proteger os ativos financeiros e a acumulação de capital por meio de uma extensa "alternância dentro e fora da quarentena da comunidade", embora não cumpram uma política de supressão do vírus, ameaçam as mortes projetadas de centenas de milhares e talvez mais de um milhão. pessoas nos Estados Unidos, além de milhões em todo o mundo.

Como sugerem todos esses cientistas socialistas, o próprio capitalismo é agora o principal vetor de doença em todo o mundo. As respostas para esse problema estão no que Marx e Frederick Engels uma vez chamaram de "a reconstituição revolucionária da sociedade em geral" (Marx e Engels, The Manifesto Comunista [Nova York: Monthly Review Press, 1968], 2). É mais uma vez o momento de uma mudança fundamental de um tipo que ocorreu em vários estágios históricos da história humana - ainda em uma escala maior do que nunca, desde que a crise agora é planetária.

Editorial da revista Monthly Review, de Paul Sweezy e Henry Magdoff, sobre as origens do coronavirus e das epidemias modernas. Texto baseado nas contribuições e estudos de biólogos e cientistas marxistas, onde mostram que o agronegócio da época neoliberal é o grande responsável. Uma denúncia frontal ao capitalismo.

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

NOSSOS CORAÇÕES COMO ESCULTURAS DE VALENTÍN MALAVER * Emerson Xavier - PE

NOSSOS CORAÇÕES COMO ESCULTURAS DE VALENTÍN MALAVER
Emerson Xavier - PE

Verão 1986. Entre inesquecíveis amigos do sul da França, trabalho na castração do milho, o menos fatigante de todos os trabalhos agrícolas que tive de fazer naquele país durante minha época de estudos universitários. Entre duas fileiras de plantas macho, seis fileiras de fêmeas, das quais devíamos arrancar um talo, seu sexo, para evitar toda polinização indesejada. Assim nos havia explicado o produtor agrícola.  E eu dizia a meus colegas que éramos “agentes da repressão sexual vegetal feminina”. Durante as pausas, eu devorava um livro propriamente escandaloso: “La Storia, uno scandalo che dura da diecimila anni”. No começo de cada capítulo de La Storia, a autora Elsa Morante recorda os grandes acontecimentos históricos que marcaram o ano em que evoluem os numerosos personagens, todos mortos ao final da narrativa, inclusive a adorável cadela capaz dos mais sublimes e poéticos raciocínios.
Sob a pena de Morante, nenhum personagem é descrito de maneira a inspirar-nos ódio ou nojo, mas apenas compaixão, mesmo quando praticam os gestos mais condenáveis. Como não ser tomado de piedade por aquele soldado nazista, bêbado, que estupra, quase inconscientemente, a professora primária do bairro San Lorenzo de Roma?
No mais alto das hierarquias sociais, aqueles que fazem a História; embaixo, aqueles que a sofrem. Tal é a moral, se assim podemos dizer, de La Storia. Quando de sua primeira publicação, o livro produziu um escândalo - termo oportuno- na esquerda italiana e até mesmo no conjunto da sociedade. Um tão atroz pessimismo negava todas as possibilidades aos “dias futuros alegres” – expressão então comum a várias esquerdas europeias- e proclamava a inutilidade de querer mudar a vida.
Aquele verdadeiro poema de mais de setecentas páginas pesou como chumbo em meu peito. Pra quê havia eu lido aquilo? A literatura violava minha última inocência. Não estava eu diluindo em água suja meus restos de esperança?
Na História real que então vivíamos, a esperança respondia pelo nome de Sandino. Ela havia descido as montanhas de Matagalpa e conquistado Manágua. Ela se impunha aos movimentos de placas tectônicas. Os generosos sandinistas sonhavam com uma sociedade pluralista construída a partir de suas próprias bases culturais. O perdão era a principal palavra de ordem. Os antigos guardas somozistas, que teriam enrubescido de vergonha muitos agentes da SS hitleriana, foram liberados, e não fuzilados, pelo novo poder. O cristianismo era a grande fonte espiritual de uma Revolução que alfabetizava o povo e eletrificava o campo.
As primeiras vítimas do Grande Ódio foram justamente os idealistas que lutavam então com lápis e fios de cobre. Pública e notoriamente, os antigos guardas somozistas, aproveitando-se do perdão que lhes havia sido concedido, treinavam na Flórida, financiados pelos Estados Unidos, preparando uma guerra terrorista dirigida contra todo um povo. Dois países sem real soberania serviram de base aos assassinos “criollos” financiados por assassinos “wasp” e apoiados midiaticamente por assassinos puros: a Honduras dos militares gângsteres e a Costa Rica, que era então governada pelo mais cínico dos seres humanos, “Don” Oscar Arias. Foi uma guerra total.
A mídia francesa, entre outras tantas, generosamente batizou as hordas terroristas de « guerrilha anti-sandinista ». Aqueles escrevinhadores conheceriam seu idioma ainda menos que eu, que então redigia em francês crônicas em série? Claro que não. Os grandes manipuladores são hábeis linguistas, semiólogos, literatos. Ora, para que um grupo armado mereça a designação de guerrilha, este deve lutar em minoria contra um exército regular no interior do país cujo governo pretende derrubar, ter apoio popular, recuperar armas ao inimigo e conduzir seu combate sem recurso a ações terroristas. Nenhum grupo baseado em solo estrangeiro, abertamente financiado por uma potência estrangeira e praticante de massacres de civis, inclusive de infantes e idosos, pode ser confundido com uma guerrilha. E no entanto...
Na França, um promotor de violações sistemáticas de direitos humanos, tão filósofo quanto um membro da Contra fosse guerrilheiro, pedia aos “intelectuais” que assinassem um apelo a ser enviado ao Congresso estadunidense implorando o financiamento de matadores de crianças ainda na primeira idade. O Congresso recusou-se a financiar tais massacres? Não seja por isso. O tráfico de crack e cocaína os financiaria. Uma bomba explode numa escola maternal nicaraguense. Um bispo também nicaraguense, que havia viajado a Washington para solicitar armas para a Contra, declara: «A Contra mata apenas corpos; os Sandinistas fazem pior ainda, pois eles matam os espíritos». O governo sandinista não ousa aplicar a lei e pôr o bispo criminoso atrás das grades e se contenta em expulsá-lo do país. Karol Wojtyla denuncia então uma “perseguição religiosa”. Mais tarde, ele humilharia publicamente os religiosos que se mantinham fieis à mensagem cristã e participavam de um governo assediado pelo terror. Ele os humilhou frente a milhares de pessoas, ignorando os pedidos desesperados das mães das vítimas da guerra, que lhe pediam orações por seus filhos mortos.
O jornal Le monde inverteria deliberadamente a ordem das coisas, fabricando uma narração completamente mentirosa de uma « afronta feita ao papa João Paulo II”. Anos depois, aquele jornal reincidiria no crime, lembrando aos seus leitores, os cúmplices conscientes e os ingênuos, na mesma data, a fabulosa “afronta”. Decididamente, Goebbels produziu êmulos além-Reno.
Voltemos porém ao nosso milho inicial. Depois de ter castrado milhares de inocentes senhoritas vegetais sem defesa, fui convidado por uma equipe de teólogos dominicanos para ser intérprete de um grupo de 12 pessoas em viagem de estudos à Nicarágua. Eram os mesmos dominicanos que haviam acolhido Frei Tito em seu convento na pequena cidade de L’Arbresle. Tantas vezes havia eu meditado sob a árvore que Tito usara para se enforcar. Mas a esperança se havia sediado na América Central e eu ia poder infirmar o pessimismo de Elsa Morante.
Nas ruas de Manágua, jovens estadunidenses abundavam; vinham manifestar sua solidariedade com os agredidos. Não. O mundo não estava perdido. No lago Manágua, um grupo de cooperantes dinamarqueses compõe uma mancha branca na multidão. Um dos cooperantes fala francês como um suíço de Genebra e me explica lentamente o que são as minas antipessoais. Deus meu! E eu havia imaginado ter perdido a inocência com a leitura de um romance! O dinamarquês levou-me a um centro de reabilitação em que pude ver dezenas de jovens de 18 anos com uma só perna. Ainda os vejo, aqueles jovens, mesmo de olhos fechados.
No Parlamento nicaraguense, um deputado tão gentil quanto ingênuo declararia : « Não seremos esmagados por nossos inimigos. É impossível que um Bem tão grande e tão sincero seja destruído por um Mal tão monstruoso. »
O mercenário estadunidense Eugene Hansenfuss acabava de cair em solo nicaraguense com seu helicóptero repleto de armas compradas com o dinheiro do crack introduzido pela CIA nas comunidades negras dos Estados Unidos. O presidente Daniel Ortega, que havia sido eleito com 67% do voto popular, declarou: « Nossa vingança contra o senhor Hansenfuss será libertá-lo para que ele possa se reencontrar com sua esposa e seus filhos”. » Um Bem tão grande e tão sincero...
O ministro das relações exteriores, o padre Miguel d’Escoto,  mais tarde presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, nos explica como o amor ao Cristo anima a Resistência de seu povo. Tenho dificuldade me reter as lágrimas ao interpretar seu discurso em francês.
Nosso grupo visita San Francisco – San Pancho, como dizem carinhosamente os « nicas » - o primeiro povoado atacado pela Contra, baseada a apenas 3 km dali, mas já em território hondurenho. No museu erigido em homenagem aos primeiros mártires, suas roupas, botas e objetos que portavam sobre si no momento do sacrifício. Nas paredes, suas fotos ampliadas e um poema que o padre do povoado, um estadunidense, havia escrito a mais jovem das vítimas, um adolescente de 15 anos.
Seu pai veio testemunhar uma enésima vez diante de mais um grupo vindo do estrangeiro. Ele nos contou o assassinato de seu irmão, depois de seu filho, cujo cadáver foi descarnado e depois exposto em praça pública com um cartaz no qual se podia ler: “eis o que acontece àqueles que apoiam este governo”. Em seguida, ele nos contou como a Contra o havia capturado e levado a um acampamento, torturado e depois obrigado a participar de um ataque contra seus próprios vizinhos e amigos. E enfim, como ele havia conseguido escapar de seu cativeiro e retornar a seu povoado.
E ele nos contou tudo isso com sua voz calma, como se tivesse aprendido com aquelas experiências algo de essencial, que estávamos a léguas de poder compreender. Sem dramatismo, ele tirou a camisa e nos mostrou as marcas de torturas inscritas em suas costas.
De repente, seu rosto foi ilumindo pelo brilho de seus olhos lacrimenjantes. Ele olhava, sorrindo ao mesmo tempo, a foto de seu filho sacrificado no meio da parede. Nos olhos do menino, podíamos ler tudo: seus sonhos de um novo mundo, suas cartas de amor a garotas do povoado, seus primeiros poemas, a dedicatória escrita num livro presenteado ao papai quando de seu aniversário. Esse papai nos disse: “Olha, é o meu guri” (Mira, es mi chaval).
A compostura que me havia forjado em casa do padre Miguel D’Escoto desta vez não pôde ao menos ser esboçada. Uma tempestade de sentimentos se formava dentro de mim e anunciava para breve um furacão. Pedi a uma freira francesa que me substituísse, alegando a necessidade de aguar uma árvore. Sob aquela árvore, sentei-me prometendo a mim mesmo derramar apenas algumas lágrimas, só o necessário para não explodir, para que meu pequeno coração, incapaz de abrigar todas as dores do mundo, continuasse a bater. Votos inúteis. Fiel a seu anúncio, minha tempestade interior assumiu as proporções exigidas pelo momento. Comecei a chorar convulsivamente, perdendo o controle de minha voz, de meus gestos.
O pai do menino assassinado, com uma sabedoria advinda de uma dor infinitamente maior que a minha, veio ter comigo. Não para nutrir meu desespero, tampouco para me consolar, mas para me ensinar a ser homem. Deu-me um amigável tapa nas costas e disse-me com firmeza: «As lágrimas que havia que derramar, já as derramei todas. Levante-se e vá fazer seu trabalho. » Segui só parte de seu conselho. Levantei-me, retomei meu trabalho de intérprete, mas choro até hoje aquela dor.
A primeira citação do livro da Morante diz : « Não há palabra em nenhuma língua humana capaz de consolar as cobaias que sabem porque vão morrer. » Naquela mesma época, o jornal Le MONDE publicou: «O que faz Reagan na Nicarágua é apenas diplomacia, pois regimes como o sandinista não podem evoluir de outra forma”. »
No avião de retorno, eu retomava sem fé as palavras ingênuas do deputado sandinista : « Um Bem tão grande e tão sincero... » Mas eu já sabia que o terrorismo iria ganhar aquela guerra, pois a Resistência sandinista não contava com o apoio exterior. Os países e as instituições que se proclamam democráticas deixaram que aquilo acontecesse. Os partidos da esquerda “ocidental” exageravam sobre os erros do sandinismo e o acusavam de crimes que jamais foram cometidos. O comandante Thomas Borge, estupefato, declarou: «Recusam-nos até mesmo o direito ao erro».

Esgotado por uma guerra sem fim, o povo nicaraguense fez uma aposta arriscada e se rendeu. Daniel Ortega, que havia sido eleito, reitero, com 67% dos votos na eleição anterior, foi derrotado na eleição seguinte pela candidata dos terroristas. Derrotado, mas não completamente vencido, o sandinismo tinha ao menos a honra de ter instaurado uma democracia representativa no país. Ao invés de uma ditadura de um filho da puta (Roosevelt -aquele que criou o New Deal dele excluindo os Negros- gostava de repetir: «Somoza é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta»), havia agora um jogo eleitoral.
Alguns anos mais tarde, Ortega seria de novo candidato às presidenciais. O jornal Le Monde, sem o menor pudor, publicaria então: «O ex-ditador Ortega tenta voltar ao poder através de eleições». Le Monde é um jornal que reescreve a história como lhe convém. O que conta sobretudo é sua firme decisão de apoiar criminosos de guerra sob todas as latitudes de nossa América dita latina, os milhares de Klauss Barbie, “criollos” ou importados, que espalham fogo e sangue em nossos países. O magnífico chargista Plantu, hoje fervente lacaio das piores ditaduras do mundo árabe,  emprestou suas mãos ao crime, igualando os idealistas sandisnistas e os torturadores do somozismo. Noam Chomsky concluirá que Le Monde «é o mais reaganiano dos jornais».
Entre o fim do século XIX e o começo do século XX, 400 milhões de pessoas dessa parte do mundo que se faz erroneamente chamar de “Ocidente” (que Edward Said possa perdoá-los) frequentaram os zoológicos humanos onde nós, os condenados da terra, éramos expostos como nenhum animal mereceria sê-lo.
Esse adestramento à maldade, ao desprezo do Outro, é o que explica, talvez, a crueldade quotidiana das mídias promotoras de violação em massa de direitos humanos e a estupidez magnânima dos falsos intelectuais. Isso explica talvez também a tolerância, a complacência e até a cumplicidade de tantas pessoas de bem frente aos crimes midiáticos. Pessoas que, certamente, nos amam, mas com o sentimento daquelas e daqueles que se engajam em alguma Sociedade Protetora dos Animais.
Para atingir um patamar de humanidade aceitável segundo certos paradigmas « ocidentais », seria talvez preciso esquecer nossa História, abraçar rebeliões mais fáceis de serem assumidas, já que inofensivas ao modo de produção/destruição capitalista. Seria preciso adotar um nacionalismo estreito, regido pelo egoísmo e pelas leis do interesse, comer lixo industrial e olhar a televisão, chamando tudo isso ao mesmo tempo de “qualidade de vida”; seria preciso cancerizar-se ao micro-ondas e enfim morrer abandonado num hospital privatizado. Pois bem, não! Não renuncio à minha condição humana, àquela que este “Ocidente” nos recusa.
Uma recusa absoluta, pois se as práticas monstruosas do jornal Le Monde, de El País e outras aberrações semelhantes, se a militância extremista de Bernard-Henry Lévy, Glucksman e Finkielkraut e outros escudeiros de Satanás não constituem violações sistemáticas e maciças dos direitos humanos, é que não somos considerados seres humanos. Bípedes falantes, por certo, mas menos, bem menos humanos que um alemão, um francês ou um belga. Devo ainda dizer, antes que convoquem enraivecidos à minha lapidação, que só Deus sabe o quanto eu amo a Alemanha, a França e a Bélgica, países onde vivi momentos maravilhosos com pessoas maravilhosas.
O advento da Revolução bolivariana, pondo fim a uma ditadura disfarçada de democracia sem verdadeira participação eleitoral em proveito de alguns bandos de delinquentes, reacendeu a esperança nos corações eternamente resistentes. Lucie Aubrac, ícone da Resistência Francesa, tinha razão: a Resistência compete a todas as gerações e a todos os povos.  A Revolução bolivariana é nossa grande chance de revanche sem vingança. Pacífica, porém armada, como repetia amiúde o comandante Hugo Chávez, esta Revolução é a ressurreição dos espíritos libertadores de há dois séculos. Pablo Neruda tinha razão. Bolívar volta a cada século. Sua espada avança pela América latina.
As cinzas de nossos campos de batalha se reconstituem em plantas, em animais, em mulheres e homens e dotados de memória ancestral.
Bandos de pássaros Fênix habitam a ilha de Margarida, no Caribe venezuelano. Pela magia das mãos de Valentín Malaver, eles emergem da pedra bruta e adquirem a doçura das plumagens e o olhar misterioso dos seres que conhecem «as trajetórias imperceptíveis, códigos de geometria existencial», para retomar as palavras do mestre e maestro siciliano Franco Battiato. Deixando a aspereza dos plintos, os Fênix de Valentín Malaver, de ultra velozes ascensões, mergulham nos ares para aterrissar em nossos corações, de onde voltam a alçar voo rumo a outros horizontes que só contemplaremos em toda plenitude pela graça do retorno a nossa consciência mineral. E depois nós renasceremos.



DADOS DO AUTOR
Emerson Xavier, 
jornalista, poeta e escritor brasileiro, natural do Estado de Pernambuco, com larga experiência em cobertura internacional, intérprete em vários idiomas e professor. Contato: emersonxavierster@gmail.com 
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segunda-feira, 25 de maio de 2020

La victoria de Venezuela e Irán ante las sanciones * CONAICOP . Uruguai


La victoria de Venezuela e Irán ante las sanciones




La llegada de Fortune, el primer buque iraní con petróleo y aditivos
para la producción de gasolina a Venezuela es una victoria de ambos
países sobre las sanciones criminales que impone los Estados Unidos
sobre cada uno de ellos. A Después del 11 de septiembre de 2011, la
administración Bush comprendió que para tener el poder en un mundo
globalizado debía conseguir la hegemonía de las finanzas ya que todos
los países del mundo necesitan dinero para sobrevivir y operar en el
siglo XXI crea rastros financieros difíciles de ocultar, quien tenga
esa información tendrá el poder.

Las guerras económicas fueron utilizadas para conseguir el
mantenimiento del poder de las potencias de cada momento histórico.

El uso de la guerra económica en la historia

Tal vez, el ejemplo más antiguo y más conocido de guerra financiera se
remonta a la época en la que Atenas y Esparta eran las dos
ciudades-estado más fuertes en la región, cada una liderando su propia
coalición competidora de aliados.

Atenas era una potencia económica con un sistema de comercio
desarrollado y una avanzada marina, mientras que Esparta mantenía un
ejército grande y bien entrenado.

El conflicto estalló entre los dos sobre la ciudad de Megara, que en
ese momento estaba alineada con Esparta.

Pericles sancionó el "Decreto de Megara" que excluía a los
comerciantes de esa ciudad a comerciar con la Liga de Delian, aliada a
Esparta. Algunos historiadores sostienen que este decreto aceleró la
guerra del Peloponeso.

Este tipo de accionar continuó durante siglos pero no fue sino para
después de la Primera Guerra Mundial que las principales potencias
crearon la Liga de las Naciones para regular los asuntos
internacionales.

El Pacto de la Sociedad de Naciones formalizó específicamente el uso
de sanciones económicas como una herramienta para evitar conflictos,
señalando la aprobación de la comunidad internacional de estos métodos
para cambiar el comportamiento de determinados países.

Las Sanciones selectivas

En la Carta de Naciones Unidas, capítulo VII, se encuentran las bases
legales para la imposición de las sanciones,las cuales pueden ser
económicas, culturales o políticas.

Según el Artículo 39 “El Consejo de Seguridad puede determinar la
existencia de toda amenaza a la paz, quebrantamiento o acto de
agresión y hará recomendaciones o decidirá qué medidas serán tomadas
de conformidad con los Artículos 41 y 42 para mantener o restablecer
la paz y la seguridad internacionales”.

A su vez en relación al Art. 39 debemos preguntarnos ¿Quien determina
lo justo o injusto, legal o ilegal en el ámbito internacional?
justamente estos no son valores fácilmente identificables ya que debe
buscarse la fuente de autoridad para determinar su sentido y en este
caso, los miembros del Consejo de Seguridad de Naciones Unidas corren
con ventaja sobre los demás países.

Además cabe destacar que la doctrina del Derecho Internacional cuenta
con poca claridad sobre la escala de normas, reglas, principios o
valores que deben aplicarse.

Por otra parte, lo que hace Estados Unidos con la imposición
unilateral de las sanciones es violar directamente la legislación
internacional ya que son utilizadas como una herramienta para oprimir
a aquellos países que se niegan a sus políticas imperialistas.

Aunque la mayoría de las veces se afirma que las sanciones y
especialmente las "sanciones selectivas" están dirigidas al liderazgo
político de los países sancionados, desafortunadamente las sanciones
son un instrumento contundente que daña directamente al pueblo.

Hay evidencia sustancial de que las sanciones son una especie de
castigo colectivo que causan graves problemas económicos para el
pueblo sancionado ya que devastan la infraestructura económica de los
países en diferentes secciones y especialmente en el sector de la
salud.

El impacto de las sanciones en la salud no se limita a las
dificultades con el suministro de medicamentos sino que va mucho más
allá ya que violan los derechos fundamentales, como el de vivir
dignamente, el acceso a salud o alimentación adecuada.

Esto entra en conflicto con la Carta de Naciones Unidas que plantea la
defensa de los Derechos Humanos de la población civil.

Irán y Venezuela

Estos dos países no solo tienen en común que cuentan con sanciones
unilaterales por parte de los Estados Unidos sino que además, son sus
principales enemigos por la falta de “docilidad” y por actuar
soberanamente.

Por otra parte, cuentan con recursos energéticos que son de interés
para Trump quien a pesar de que durante el discurso de la unidad
sostuvo que cuentan con reservas suficientes se encuentra en una
encrucijada por la crisis económica que tiene que transitar.

Por un lado, la fluctuación de los precios del petróleo llevaron a
negociar una serie de acuerdos entre Opep y Opep plus, para mantener
el precio bajo, pero eso no fue suficiente ya que la industria del
petróleo no convencional está en bancarrota y tuvo que subvencionar a
varias empresas con dinero del Estado.

Por otro lado, la pandemia impactó fuertemente al país norteamericano
que cuenta con un sistema de salud deficitario y privado que lo ha
llevado al primer lugar del ranking de Covid 19, además del aumento de
la desocupación histórica que ya superó los 3 millones de personas que
perciben seguro de desempleo, eso sin contar a los inmigrantes que no
califican.

La actitud de Irán con respecto a Venezuela es de solidaridad y
cooperación, a pesar de que personajes como el ex asesor de Trump,
Michael Bolton instó a que se tomen medidas contundentes por la
presencia de los barcos cisterna iraníes ya que según él constituyen
un peligro para el continente, quedó en claro, por lo menos por ahora,
que Estados Unidos debe resolver sus problemas antes de poner en
práctica una política internacional agresiva.

Fortune es el primero de los cinco barcos cisterna que llega con
combustible a Venezuela , los otros cuatro, Petunia, Clavel, Flaxon y
Forrest estarán llegando los próximos días, se abre así una nueva
etapa en las relaciones entre América Latina y Asia Occidental

Valeria Rodríguez

Secretaria asuntos islámicos y musulmanes

Rubén Suárez secretaria internacional

Alcides Martínez Secretaria general

Mayo 2020 conaicop.uy@gmail.com 

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*CARTA AOS GENERAIS DE PIJAMA* # Observatório Proletários - BR


*CARTA AOS GENERAIS DE PIJAMA*



ABSURDO!

Militares da reserva falam em Guerra Civil!
Pois que venham! Tirem o pijama e a pantufa e se levantem contra o povo brasileiro!
Velhos decreptos que chamam os ministros do STF de apadrinhados...
Ora! De onde surgiu o termo "Pistolão"?
É só ler os nomes na assinatura desta Carta Vergonhosa:
Coronel.. Coronel... Coronel... Coronel...
Quer dizer que TODOS os alunos formados em 1971 se tornaram Coronéis?!
Meritocracia com certeza né?!?!
Bando de vagabundos que nunca lutaram uma guerra e mesmo assim nunca abriram mão de gordas pensões vitalícias para filhas "solteiras".
Múmias com saudosismo da guerra fria que vivem esbravejando contra a sombra de um fantasma de comunismo vermelho que só existe em suas mentes delirantes.

Parem de defender o indefensável! Um Presidente indigno e mentiroso que só pensa em si mesmo.
O Exército NUNCA deve fazer parte de um Governo. Isso torna o Exército partidário e coloca necessariamente as Forças Armadas contra uma parcela dos brasileiros. Vocês NUNCA deveriam ter feito parte desse e de nenhum Governo. Vocês estão errados e sabem disso.
O Exército Brasileiro é uma instituição de Estado, de defesa do Brasil e de TODOS os brasileiros.

Parem de ameaçar o seu próprio povo!
Lugar de milico é no quartel.
DEIXEM O BRASIL EM PAZ!

Assinado: um brasileiro.
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domingo, 24 de maio de 2020

A SERPENTE SEM PARAÍSO * Marcus Correia - SP


A SERPENTE SEM PARAÍSO


"Ou como são  feitas as nossas cabeças
 – desde o financiamento aos partidos de ESQUERDA ATÉ ÀS ONGS QUE NOS “DEFENDEM” - 

Eu sei que é complicado pra você entender desse assunto, mas vou tentar ser o mais claro e sucinto pra ver se você entende
Primeiro um fato, jornalismo custa caro
a maior parte da dita imprensa progressista recebe financiamento empresarial, veja por exemplo o caso do The Intercept e um bilionário norte americano, veja o caso da tal "Agencia Publica" que na sua propria pagina revela patrocínio da Fundação Ford, da Open Society.
Temos o caso da tal GELEDÉS que também recebe financiamento da Fundação Ford.
Sugiro que estude um pouco antes de chamar alguém de ignorante.
Às vezes sua burrice pode lhe ser bastante nociva
para os demais, mais cauteloso no seu julgamento; saibam que existe uma ampla rede de ongs, ativistas, grupos que recebem dinheiro de fundações como a Ford, especialmente grupos pseudo progressistas;
o intuito é estimular a ideologia identitária liberal, algo que afaste o povo da luta de classes."

Discutindo a Fundação Ford (Parte 1 de 4)
Por: Marcus Correia

É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda, em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.

Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.

O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.

Cabe observar que, nesse delicado momento atual do país, é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone. E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

As origens: de 1936 a 1945
Em uma cerimônia solene ocorrida na cidade de Dearborn, em Michigan, nos Estados Unidos, no dia 30 de julho de 1938, o cônsul da Alemanha acreditado em Cleveland, Karl Krapp, e seu congênere em Detroit, Fritz Heller, presentearam o industrial estadunidense Henry Ford pelo dia do seu aniversário. A pedido do führer, ofereceram-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã (Großkreuz des Deutschen Adlerordens). Essa alta condecoração do Estado alemão havia sido criada no ano anterior por Adolf Hitler com o intuito de homenagear estrangeiros que desfrutavam da sua admiração. Outros dois indivíduos que receberam a referida medalha honorífica foram Benito Mussolini e o espanhol Francisco Franco.

Adolf Hitler há muito manifestava uma forte simpatia por Henry Ford e manteve uma foto dele em seu escritório em Munique. No início dos anos 1920, Henry Ford escreveu execráveis escritos antisemitas, os panfletos The International Jews: The World`s Problem, transformados ulteriormente em livro e que inspiraram o líder nazista na sua perseguição implacável aos judeus na Europa. Traduzidos para a língua alemã, os escritos de Ford tiveram ampla circulação nos meios nazistas antes de 1933. Por essa razão, a primeira edição de Mein Kampf Hitler, dedicou a Henry Ford.

Afora as concepções lunáticas da existência de uma conspiração judaico-comunista internacional contra a qual ambos lutavam, a admiração de Hitler por Henry Ford advinha também dos métodos de racionalização industrial. Essa racionalização serviria como exemplo tanto ao modelo industrial do Reich, como ao sistema, igualmente fabril, de extermínio bárbaro de milhões de pessoas em campos de concentração, a exemplo de Auschwitz, Sobibor e Treblinka.

Desde os anos 1920, Ford vinha contribuindo com o financiamento do Partido Nacional-Socialista na Alemanha e enviava de 10 a 20 mil marcos alemães como presente de aniversário para Adolf Hitler todos os anos, até 1944. [1]

Nos Estados Unidos, Henry Ford manteve um sistema conhecido pelos críticos como a “Gestapo de Ford”, o que também lhe rendeu o apelido dado pelo New York Times, em 1928, de “Mussolini do Highland Park” [2].

Ford, além de perseguir e reprimir sindicalistas, organizou um sistema de vigilância e controle da vida privada de seus funcionários, por meio da criação de um Departamento de Sociologia da Ford Motor Company. Tal órgão procurava intervir nos aspectos privados dos trabalhadores das fábricas, como moradia, alimentação, lazer e modo de vida. Ford até mesmo contratou um ex-pugilista que serviu como “fiscalizador” do serviço privado de repressão política e social aos trabalhadores da Ford em Dearborn e que lhes fazia visitas inesperadas em seus lares. [3]

A condecoração de Henry Ford com o maior título honorífico dado a estrangeiros pelo governo nazista nada mais foi do que um reconhecimento inter pares. Dois anos antes, no início de 1936, Edsel Ford, filho de Henry Ford e então presidente da Ford Motor Company anunciou a criação da Fundação Ford, que tinha por objetivo dispender recursos “à caridade, à educação e à ciência”. Mas, de fato, a criação da fundação filantrópica familiar servia a interesses econômicos muito claros aos contemporâneos.

Em 1934, um grupo de empresários, banqueiros e oficiais militares estadunidenses patrocinaram uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Franklin D. Roosevelt, golpe esse que visava à instauração de um regime filofascista nos Estados Unidos.[4]

Malfadada a tentativa de golpe contra Roosevelt e no contexto econômico do New Deal, em 1935, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Revenue Act, uma espécie de taxação de grandes fortunas que chegava à casa dos 70%. [5]

O maior prejudicado com a nova legislação seria justamente a multimilionária família Ford. Para dissimular do fisco a cobrança dos novos impostos foi, portanto, criada a Fundação Ford, transferindo-se, assim, 90% das ações da Ford Motor Co. pertecentes à família para a nova entidade “filantrópica”.

Desde então, diferentemente do que se pensa, a Fundação Ford tornou-se a proprietária da Ford Motor Company. [6]

Os três únicos diretores da Fundação Ford no período eram Edsel Ford, presidente da Ford Motor Co. e igualmente presidente da Fundação; Bert J. Craig, secretário e tesoureiro da Ford Motor Co; e Clifford Longley, advogado da Ford Motor Co.

Pressionada pelo governo a dar, então, início a qualquer atividade filantrópica de relevo, a Fundação Ford anunciou, em dezembro de 1937, a doação de um terreno em Dearborn, Michigan, EUA, para a construção de quatro mil “moradias modelo” para operários locais. A Ford doou o terreno e o projeto, enquanto a construção ficaria a cargo de outros empresários que tivessem interesse no empreendimento.

Originalmente anunciado como filantropia a operários, pelos baixos custos de aluguel ou venda, logo o projeto foi desconfigurado, tornando-se um empreendimento imobiliário de mais alto padrão, com centro de negócios, escolas, clínicas médicas, lojas, entre outros. De acordo com uma matéria da época, a iniciativa passou a beneficiar trabalhadores de “white collar”, conforme a expressão do jornal [7].

Essa foi a única iniciativa “filantrópica” da entidade que teve ampla repercussão antes de 1945. O real interesse por trás da criação da Fundação, i.e., dissimular a fortuna familiar adquirida ao longo dos anos de exploração da classe trabalhadora pela Ford Motor Co., fez com que ela permanecesse inexpressiva nas suas ações “humanitárias” durante os primeiros dez anos de existência.

Já na Europa, a Ford Motor Co. mantinha fortes investimentos econômicos desde os anos 1920. Em particular, na Inglaterra e na Alemanha. Neste último, encontrou certas dificuldades decorrentes da ascensão do nacionalismo de ultra-direita no país, uma vez que parte da população sabotava a compra de produtos de empresas estrangeiras. Mesmo assim, a relação com o governo nazista que ascendeu em 1933 era mais amena e a Ford fabricou um terço dos caminhões do exército nazista, por exemplo, e dobrou de tamanho na Alemanha entre 1939 e 1945 [8].

Entre 1941 e 1945, a subsidiária da Ford Motor Co. em Colônia, na Alemanha, a FordWerke, utilizou, inclusive, trabalho escravo de presos estrangeiros e judeus, oriundos da Europa Oriental, da União Soviética, da Itália e da França [9].

Esses são alguns poucos e relevantes fatos do período de origem da Fundação Ford. Frente à oposição política que a família Ford mantinha ao governo de Franklin D. Roosevelt, até o final da II Guerra, a Fundação não atuou em parceria com o governo dos Estados Unidos. E suas atividades de caridade restringiam-se a poucas iniciativas em Michigan. A relação estreita com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência estadunidenses passaria a ocorrer a partir do início da chamada Guerra Fria, objeto da próxima parte desse artigo.

NOTAS:
1 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Desordem Mundial: o espectro da total dominação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 44-46
2 – SAGER, Geshe. Henry Ford und die Nazis – Der Diktator von Detroit. Spiegel Online, 29, jul. 2008.
3 – Idem.
4 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. p. 44-46
5 – CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 26-27
6 – Idem. p. 26-27
7 – De La Crosse Tribune, La Crosse, Winconsin, EUA, 6 jul. 1939.
8 – LIMA, Cláudia de Castro. Os aliados ocultos de Hitler. Revista Super Interessante.
9- REICH, Simon. Tha Nazi Party: Ford Motor Company and the Third Reich. Jewish Virtual Library. A própria Ford Motor Co. em 1998 abriu um amplo processo de investigação interna sobre a conduta da sua subsidiária na Alemanha, provocada por processos legais de sobreviventes do Holocausto que foram movidos contra a empresa por haverem trabalhado como escravos na FordWerke.  https://esquerdaonline.com.br/2016/12/10/discutindo-a-fundacao-ford-parte-1-de-4/


"Acabei de conversar com a companheira que saiu e algo bastante preocupante eu notei nas duvidas dela:
recentemente a escumalha direitista repugnante começou a fazer "denuncias" de financiamento da esquerda por fundações como a Open Society... esta imunda direita como sempre transformou alguns fatos em uma grande teoria da conspiração racista e no processo encobriu um debate de fundamental importância para o nosso campo politico: A questão do financiamento das nossas organizações. 
Eu não sei vocês companheiros mas eu dificilmente levaria a sério uma organização que se dissesse de esquerda e aceitasse dinheiro de uma organização burguesa, por motivos obvios...  Por que diabos uma empresa capitalista financiaria quem estaria contra o seus projetos? ... se com isso ela eventualmente iria perder dinheiro?
  
Infelizmente o fato de ongs, "Ativistas", partidos, sindicatos, intelectuais ditos progressistas estarem recebendo recursos de multinacionais é verdade sim, a questão é o objetivo que bem diferente de ser uma "conspiração dos bilionários judeus comunistas" como fala a imundície direitista, trata-se de uma tática utilizada na época da guerra fria pra afastar a militância das questões de classe.

Observem como o tal "ativismo" liberal tem sido utilizado por empresas capitalistas pra fazer propaganda, observem como as organizações de esquerda estão cada dia mais desorganizadas, mais enfraquecidas, que a politica sofre uma direitização absurda;
nada disso é por acaso companheiros.

No livro de uma pesquisadora liberal estadunidense com o titulo de QUEM PAGOU A CONTA, ela vai nos detalhando como a CIA financiou diversas publicações, intelectuais, ongs e ativistas pelo mundo afora pra impedir que eles se inclinassem para o comunismo
nada disso mudou

a tática continua sendo empregada

no livro da Naomi Klein uma social democrata liberal dos EUA em que ela denuncia o neoliberalismo ela cita no livro dela que a Fundação Ford ao mesmo tempo que bancava os chicago boys também financiava os combatentes pelos direitos humanos
a burguesia pra quem não sabe trabalha dessa forma, ela paga os dois lados
se vocês não sabiam disso, já passou da hora de saberem
porque é essa a base que esta destruindo nosso campo politico
nos tornando vulneráveis
o caso da agencia publica que revela abertamente seus financiadores é um caso a parte
a maioria não revela essa informação, e ainda por cima tentam passar por bons samaritanos com aquela treta de "financiamento coletivo", pessoal não sejam ingenuos, nenhum financiamento coletivo vai manter um jornal bem produzido, isso requer recursos que a maioria dos brasileiros não acostumados a abrir as carteiras não tem e nem doaria
especialmente numa crise
questionar de onde vem os recursos que financiam essas mídias com nomes bonitinhos é crucial
elas divulgam certos pensamentos que influenciam decisivamente na qualidade da nossa luta
eu sei que a direita repugnante esta usando isso pra fazer demagogia, e esse é o modus operandis deles, veja o exemplo da tal "doutrinação esquerdistas", quem faz essa doutrinação são eles mesmos, por acaso na maioria das universidades o debate comunista não sumiu do mapa? pesquisadores ligados a esse campo politico não perderam seus empregos? ta tudo registrado na história, certos campos da faculdade como a economia é um poço de reacionários
a direita pega um fato, distorce o sentido e cria uma teoria da conspiração em cima e pufff:
adeus debate...

Bom companheiros, com o tempo pretendo esmiuçar mais esse tema, que é urgente, fundamental, precisamos mais do que nunca saber quem são de fato nossos aliados, de onde vem as noticiais que consumimos, quais as doutrinas filosóficas que embasam a fundamentação dos pensamentos políticos que nos são divulgados, porque nada disso é por acaso
na politica não existe casualidades, especialmente com tantos lobos por perto...
Uma ultima palavrinha sobre esse caso, antes de 2016 a tal inteligentisia "Esquerdista" deu um jeito de desaparecer com o debate sobre imperialismo, colonialismo, que como sabemos é a pedra angular que explica o atraso do nosso país... eles diziam na época que isso era um conceito ultrapassado... e isso não era por acaso, os grupos a quem interessava que a esquerda não discutisse imperialismo estão se beneficiando bastante disso agora, o golpe que vivenciamos em 2016 não foi por acaso, foi algo que já vinha sendo construído...
o objetivo sempre foi
evitando assim que os trabalhadores se inclinassem para o comunismo, tornando o tal progressismo da América Latina um progressismo totalmente inofensivo

A Propagação Hegemônica: como as agências globais e a mídia ocidental cobrem a geopolítica
(parte 1)

“Por isso, você sempre tem que se perguntar: por que eu estou recebendo esta informação específica, neste formato específico, neste momento específico? No fim das contas, é sempre por questões de poder.” — Konrad Hummler, executivo de mídia suíço

Este é um dos mais importantes aspectos do sistema dos nossos meios de comunicação, apesar de ainda ser praticamente desconhecido pelo público: a maioria da cobertura de notícias internacionais na mídia ocidental é fornecida por apenas três agências globais de notícias, com sedes principais em Nova Iorque, Londres e Paris.

O papel central desempenhado por essas agências faz com que a mídia ocidental frequentemente informe sobre os mesmos assuntos, utilizando até as mesmas terminologias e formulações. Além disso, governos, militares e serviços de inteligência utilizam essas agências de notícias globais como multiplicadoras para propagar suas mensagens pelo mundo.

Um estudo sobre a cobertura da guerra na Síria por nove dos principais jornais europeus ilustra claramente essas questões: 78% de todas as publicações foram baseadas, completa ou parcialmente, em notícias de agências e 0% em pesquisa investigativa. Não obstante, 82% de todos os artigos de opinião, comentários e entrevistas foram a favor da intervenção dos EUA e da OTAN, enquanto a propaganda ideológica foi atribuída exclusivamente ao lado oposto.

Introdução: “Algo estranho”
“Como um jornal sabe o que sabe?”. A resposta para essa pergunta é provavelmente surpreendente para os leitores de jornais:

“A principal fonte de informação são as notícias de agências. As agências de notícias operando quase anonimamente são, de certa forma, a chave para os eventos mundiais. Então, quais são os nomes dessas agências? Como elas funcionam? Quem as financia? Para avaliar quão bem alguém está sendo informado sobre acontecimentos no Ocidente e no Oriente, é necessário saber as respostas para essas perguntas.” (HÖHNE, 1977, p. 11)

Roger Blum, pesquisador de mídia suíço, ressalta:

“As agências de notícias são as fornecedoras de material mais importantes para os meios de comunicação em massa.  Nenhum veículo de comunicação diário consegue subsistir sem elas… De modo que as agências de notícias influenciam a nossa imagem do mundo. E, acima de tudo, somos informados sobre o que elas selecionaram.” (1995, p. 9)

Tendo em conta sua relevância, é ainda mais surpreendente que essas agências sejam pouco conhecidas pelo público:

“Uma grande parte da sociedade desconhece que as agências de notícias existem… e, na verdade, elas desempenham um papel extremamente importante no mercado dos meios de comunicação.  Todavia, apesar dessa grande importância, pouca atenção foi dada a elas no passado.” (SCHULTEN-JASPERS, 2013, p. 13)

Até mesmo o líder de uma agência de notícias observou:

“Há algo de estranho sobre as agências de notícias. Elas são pouco conhecidas pelo público. Ao contrário de um jornal, a atividade delas não está tanto no centro das atenções, embora possam sempre ser encontradas como fonte das publicações.” (SEGBERS, 2007, p.9)

“O nervo central invisível do sistema dos meios de comunicação”
Portanto, quais são os nomes dessas agências de notícias que “sempre estão na fonte das publicações”?  Atualmente, restam apenas três agências globais:

A norte-americana Associated Press (AP) com mais de 4.000 funcionários em todo o mundo.  A AP pertence a empresas de comunicação dos EUA e tem seu principal escritório editorial em Nova Iorque. As notícias da AP são utilizadas por cerca de 12.000 veículos de comunicação internacionais, alcançando mais da metade da população mundial todos os dias.
A semi-estatal francesa Agence France-Presse (AFP), sediada em Paris, possui por volta de 4.000 funcionários. A AFP envia diariamente mais de 3.000 notícias e fotos para veículos de comunicação do mundo inteiro.
A agência britânica privada Reuters, de Londres, emprega um pouco mais de 3.000 pessoas.  A Reuters foi adquirida em 2008 pelo magnata da mídia canadense Thomson –  uma das 25 pessoas mais ricas do mundo –, resultando na fusão Thomson Reuters com escritório principal em Nova Iorque.
Além disso, muitos países administram suas próprias agências de notícias. Contudo, quando se trata de notícias internacionais, estas geralmente dependem das três agências globais e basicamente copiam ou traduzem as informações passadas.

As três agências globais de notícias: Reuters, AFP e AP. E as três agências nacionais de países germanófonos: APA da Áustria, DPA da Alemanha e SDA da Suíça.
Wolfgang Vyslozil, ex-diretor administrativo da austríaca APA, descreveu o papel fundamental das agências de notícias da seguinte maneira:

“Agências de notícias raramente são percebidas pelos olhos do público.  No entanto, elas são uma das mais influentes e, ao mesmo tempo, um dos tipos de mídia menos conhecidos.  São instituições fundamentais de importância substancial para qualquer sistema de comunicação. Elas são o nervo central invisível que conecta todas as partes desse sistema.” (SEGBERS, 2007, p. 10)

Pequenas abreviações, grandes efeitos
Entretanto, há um motivo simples para as agências globais, a despeito de sua importância, serem praticamente desconhecidas do público em geral.  Como observa Blum:

“o rádio e a televisão, geralmente, não citam suas fontes, e apenas especialistas conseguem decifrar as referências em revistas.” (1995, p. 9)

O motivo para essa discrição, no entanto, deve ficar claro: os veículos de comunicação não estão particularmente interessados ​​em mostrar aos leitores que eles próprios não pesquisaram a maior parte de suas produções.

A imagem abaixo ilustra alguns exemplos de rotulação de fontes em jornais populares de língua alemã.  Ao lado das abreviações das agências, encontramos as iniciais dos editores responsáveis pela respectiva notícia da agência.

Agências de notícias como fontes em matérias de jornais.
Ocasionalmente, os jornais utilizam material de agência mas não o rotulam de fato.  Um estudo realizado em 2011, pelo Instituto Suíço de Pesquisa de Esfera Pública e Sociedade da Universidade de Zurique, chegou às seguintes conclusões (FOEG, 2011):

“As contribuições por meio de agências ou são exploradas integralmente sem que haja rotulação, ou são parcialmente reescritas para fazê-las parecerem com uma contribuição editorial. Além do mais, existe uma prática de ‘incrementar’ as notícias de agência com o mínimo de esforço: por exemplo, as que não são publicadas são enriquecidas com imagens e gráficos e apresentadas como artigos abrangentes.”

As agências desempenham um papel proeminente não apenas na imprensa escrita, mas também nas emissoras privadas e públicas. Tal aspecto é confirmado por Volker Braeutigam, que trabalhou por dez anos para a emissora estatal alemã ARD e que vê o domínio dessas agências de forma crítica:

“Um problema crucial é que a redação da ARD obtém suas informações principalmente de três fontes: as agências de notícias DPA/AP, Reuters e AFP. Uma alemã/norte-americana, uma britânica e outra francesa… O editor que trabalha em um determinado tópico de notícias só precisa selecionar algumas passagens de texto na tela que ele considere essenciais, reorganizá-las e colá-las com alguns floreios.”

A Schweizer Radio und Fernsehen (SRF, Rádio e Televisão Suíças) também se baseia amplamente em notícias dessas agências. Indagados por telespectadores pelo motivo de uma marcha da paz na Ucrânia não ter sido noticiada, os editores responderam: “Até o momento, não recebemos um único informe das agências independentes Reuters, AP e AFP sobre essa marcha”.

De fato, não apenas os textos, mas também as imagens e as gravações de som e vídeo que encontramos na nossa mídia todos os dias são, principalmente, das mesmas agências de sempre. O que o público desavisado pode considerar como produções do seu jornal local ou canal de TV, na realidade, são informações copiadas de Nova Iorque, Londres e Paris.

Alguns meios de comunicação deram um passo ainda mais além e, por falta de recursos, terceirizaram todo o seu escritório editorial estrangeiro por uma agência. Ademais, é amplamente documentado que muitos portais de notícias na internet publicam sobretudo informes de agências – ver, por exemplo, Paterson (2007), Johnston (2011) e MacGregor (2013).

No fim, essa dependência das agências globais cria uma semelhança impressionante nos noticiários internacionais. De Viena a Washington, os nossos meios de comunicação frequentemente cobrem os mesmos assuntos, usando muitas vezes as mesmas frases – um fenômeno que, em outro contexto, seria associado à “mídia controlada” em estados autoritários.

A imagem a seguir mostra alguns exemplos de publicações alemãs e internacionais. Como é possível observar, apesar da alegada objetividade, um ligeiro viés (geo)político é, muitas vezes, espraiado.

“Putin ameaça”, “Irã provoca”, “OTAN preocupada”, “fortaleza de Assad”: similaridades de conteúdo e de escrita devido às informações de agências globais de notícias.

O papel dos correspondentes
Grande parte da nossa mídia não tem correspondentes internacionais, de maneira que nossos veículos de comunicação não têm escolha a não ser depender completamente de agências globais para notícias estrangeiras. Porém, e os grandes jornais e emissoras de TV que possuem seus próprios correspondentes internacionais? Nos países de língua alemã, por exemplo, são jornais como o NZZ, o FAZ, o Süddeutsche Zeitung, o Welt e as emissoras públicas.

Em primeiro lugar, a desproporção numérica deve ser mantida em mente: enquanto as agências globais têm milhares de funcionários no mundo inteiro, até mesmo o jornal suíço NZZ, conhecido por sua cobertura internacional, mantém apenas 35 correspondentes em solo estrangeiro (incluindo representantes comerciais). Em países com dimensões continentais como a China e a Índia, o jornal possui apenas um correspondente internacional para cada. Toda a América do Sul é coberta por apenas dois jornalistas, enquanto que na ainda maior África ninguém está permanentemente alocado.

Mais do que isso, em zonas de guerra, os correspondentes raramente se aventuram a fazer a cobertura. Na guerra na Síria, por exemplo, muitos jornalistas “cobriram” de cidades como Istambul, Beirute, Cairo e até mesmo de Chipre. Para completar, muitos desses jornalistas não possuem as habilidades linguísticas para entender as pessoas e as mídias locais.

Então, como é que correspondentes em tais circunstâncias sabem quais são as “notícias” na sua região do mundo? Mais uma vez,  a resposta fundamental: por meio das agências globais. Joris Luyendijk, correspondente holandês no Oriente Médio, descreveu de maneira impressionante, em seu livro People Like Us: Misrepresenting the Middle East, como os correspondentes internacionais trabalham e como eles dependem das agências globais:

“Eu sempre pensei em correspondentes como uma espécie de historiadores em tempo real. Quando algo importante acontecia, eles iam atrás, descobriam o que estava acontecendo e relatavam o ocorrido. Mas eu não fui enviado para descobrir o que estava acontecendo, isso era feito muito antes. Eu fui para recitar uma notícia do local.

Os editores ligavam da Holanda quando algo acontecia, enviavam por fax ou por e-mail os comunicados à imprensa, e eu os recontava com minhas próprias palavras no rádio ou os transformava em alguma matéria para o jornal. Esse é o motivo pelo qual os meus editores achavam mais importante que eu estivesse no lugar em si do que realmente saber o que estava acontecendo. As agências de notícias forneciam informações suficientes para que você pudesse escrever ou falar sobre qualquer crise ou reunião de cúpula.

É por isso que você frequentemente se depara com as mesmas imagens e informações se folhear alguns jornais diferentes ou alternar entre canais de notícias.

Nossos homens e mulheres nos escritórios de Londres, Paris, Berlim e Washington… Todos pensavam que os temas errados estavam dominando os noticiários e que estávamos seguindo os padrões das agências de notícias muito servilmente…

A ideia comum sobre os correspondentes é que eles “possuem a informação”, mas a realidade é que as notícias são como uma esteira rolante em uma fábrica de pães. Os correspondentes estão no final da esteira, fingindo que nós mesmos assamos o pão, quando, na verdade, tudo o que fizemos foi colocá-lo em sua embalagem…

Certo dia um amigo me perguntou como eu conseguia responder, de hora em hora e sem hesitar, todas as perguntas durante as transmissões. Então, eu o disse que, como no noticiário da TV, você já sabe todas as perguntas com antecedência. A resposta dele por e-mail veio repleta de expletivos. Meu amigo havia percebido que, por décadas, o que ele estava assistindo e ouvindo nos noticiários era puro teatro.” (LUYENDJIK, 2009, pp. 20-22, 76, 189)

Em outras palavras, o correspondente típico, em geral, não é capaz de fazer uma investigação independente. Pelo contrário, ele trata e reforça os temas que já foram prescritos pelas agências de notícias – o notório “efeito mainstream”.

Além disso, por economia de custos, muitos veículos de comunicação compartilham seus poucos correspondentes internacionais, portanto, dentro de grupos específicos de mídia, as mesmas informações internacionais são frequentemente utilizadas por várias publicações – nenhuma delas contribuindo para a diversidade da cobertura.
“O que as agências não reportam, não aconteceu”
O papel central das agências de notícias também revela por que, em conflitos geopolíticos, a maioria das mídias utiliza as mesmas fontes. Na guerra na Síria, por exemplo, o “Observatório Sírio de Direitos Humanos” – uma organização de uma pessoa só, bastante duvidosa e com sede em Londres – se destacou. A mídia raramente indagava diretamente esse “Observatório”, já que seu operador era muito difícil de ser contatado, até mesmo pelos jornalistas.

Em vez disso, o “Observatório” entregava suas informações a agências globais que, então, as enviavam para milhares de veículos de comunicação, que, por sua vez, “informavam” centenas de milhões de leitores e espectadores em todo o mundo. Por que as agências de todos os lugares se referiram a esse estranho “Observatório” em suas notícias e quem realmente o financiava são perguntas que raramente eram feitas.

Por isso, o ex-editor-chefe da agência de notícias alemã DPA, Manfred Steffens, afirma em seu livro The Business of News:

“Uma notícia não se torna mais correta simplesmente porque é possível fornecer uma fonte para ela. É bastante questionável confiar mais em uma notícia apenas pelo fato de uma fonte ter sido citada. Por trás do escudo protetor que uma ‘fonte’ proporciona para a notícia, algumas pessoas se sentem bastante inclinadas a espalhar coisas muito suspeitas, mesmo que elas próprias tenham dúvidas legítimas sobre sua veracidade. A responsabilidade, pelo menos moralmente, sempre pode ser atribuída à fonte citada.” (1969, p. 106)

A dependência de agências globais também é uma das principais razões pelas quais a cobertura midiática dos conflitos geopolíticos é frequentemente superficial e errônea, uma vez que as relações históricas e os contextos são fragmentados ou completamente ausentes. Como apontado por Steffens:

“As agências de notícias são impulsionadas quase que exclusivamente por acontecimentos em tempo real e são, portanto, a-históricas por sua própria natureza. Elas são relutantes em contextualizar mais do que o estritamente necessário.” (1969, p. 32)

Por fim, o domínio das agências globais explica o porquê de certas questões e eventos geopolíticos – que muitas vezes não se encaixam bem na narrativa dos EUA/OTAN, ou são “pouco importantes” – não são mencionados em nossos meios de comunicação. Se as agências não cobrem algo, consequentemente, a maioria da mídia ocidental não estará a par do ocorrido. Como apontado por ocasião do 50º aniversário da alemã DPA:

“O que as agências não reportam não aconteceu.” — Wilke (2000, p.1)                https://revistaopera.com.br/2019/04/23/a-propagacao-hegemonica-como-as-agencias-globais-e-a-midia-ocidental-cobrem-a-geopolitica-parte-1/

Essa é a parte 1, depois posto a parte 2 são dois bons artigos sobre o tema tratado, vale muito a leitura"

Sobre a fonte:

Titular: Marcus Correia
Comentários: JOOHN NADA - SP)
Titulo: AntonioCabral Filho
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