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sexta-feira, 8 de julho de 2022

Ghassan Kanafani VIVE * Gercyane Oliveira & OP.BR

Ghassan Kanafani
a voz da Palestina

Em 2022 completam-se 50 anos do assassinato político de Ghassan Kanafani, cometido pelo Mossad. No dia 8 de Julho de 1972, quando vivia em Beirute, uma explosão no carro armadilhado matou-o juntamente com a sua sobrinha. Kanafani era uma das figuras mais importantes da literatura do século XX.

Era também um refugiado, um marxista revolucionário e um internacionalista. Os israelenses afirmaram que o assassinato foi uma resposta ao ataque do Aeroporto de Lod dois meses antes, embora Kanafani não tivesse desempenhado qualquer papel diretamente nisto. Ele era, de acordo com o obituário do Lebanese Daily Star, “um comandante que nunca disparou uma arma, cuja arma era uma caneta esferográfica, e a sua arena eram as páginas dos jornais”. Kanafani era na época da sua morte o porta-voz oficial da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e o editor do seu jornal Al Hadaf. A organização saudou ‘o líder, o escritor, o estrategista, e o visionário’.

Ghassan Kanafani passou os primeiros anos da sua vida na cidade portuária do Acre, onde nasceu em 1936. Na ocasião do seu nascimento, o pai de Kanafani e outros membros da sua família participaram da revolta nacional contra a ocupação britânica da Palestina e a sua promoção da colonização sionista. O Acre foi o local de uma prisão de ocupação britânica e das execuções de importantes militantes palestinos. A canção épica “From Acre Prison” (Min Sijjn Akka) protesta contra a sua morte e continua a ser um hino da luta palestina. Antes de 1948, o Acre tinha cerca de 15.000 habitantes palestinos e nenhum povoado sionista. Os ataques sionistas em Nakba levaram à expulsão de todos os palestinos, com exceção de 3.000. Ghassan, de 12 anos, e a sua família tornaram-se refugiados na cidade de Zabadiya, no centro-oeste da Síria, juntando-se às centenas de milhares de palestinos exilados das suas terras de origem.

Depois de estudar na universidade de Damasco, Kanafani tornou-se professor e jornalista, trabalhando na Síria, depois no Kuwait, antes de acabar em Beirute. Foi enquanto trabalhava nos campos de refugiados que Kanafani começou a escrever os seus romances; o seu interesse posterior pela filosofia e política marxista surgiu enquanto vivia em Beirute. Isso ficou claro para ele:

“A minha posição política resulta do fato de ser um romancista. No que me diz respeito, a política e o romance são um caso indivisível e posso afirmar categoricamente que me comprometi politicamente porque sou um romancista, não o contrário”.

Histórias curtas, romances e poemas

Os temas da escrita de Kanafani estavam inseparavelmente ligados à luta do povo palestino ao longo da sua vida. O Nakba é retratado de forma viva em obras como The Land of the Sad Oranges (1963):
“Em Al-Nakura, o nosso caminhão estava estacionado, juntamente com vários outros. Os homens começaram a entregar as suas armas aos seus oficiais, ali estacionados para esse fim em particular. Quando chegou a nossa vez, pude ver as espingardas e armas deitados sobre a mesa e a longa fila de caminhões, deixando a terra das laranjas para trás e espalhando-se sobre as estradas sinuosas do Líbano”.

“Depois desse dia, a vida passou lentamente. Fomos enganados por anúncios… ficamos espantados com a verdade amarga. A tristeza começou a invadir os rostos, era difícil conversar sobre a Palestina ou sobre os dias felizes em seus laranjais.”

Os refugiados são centrais para a sua narrativa. No conto angustiante Men in the Sun (1962), um grupo de palestinos é contrabandeado no calor abrasador através do Iraque e do Kuwait. Conseguem atravessar a fronteira mas sufocam até à morte nas costas de um petroleiro. A história é simbólica do estado de paralisia vivido pelos refugiados, onde o acesso à documentação poderia determinar a sobrevivência básica.

Mas as obras de Kanafani não eram contos de desespero e desesperança. Analisadas em conjunto, elas falam dos problemas e das soluções dos que foram expulsos das suas casas. Em Retorno à Haifa (1970), sublinha que “o maior crime que alguém pode cometer é pensar que a fraqueza e os erros dos outros lhe dão o direito de existir à sua custa”. Em outras obras, ele recorre à crescente luta armada pela libertação palestina. A figura central do pequeno romance, Umm Saad encoraja o seu filho a lutar juntamente com os guerrilheiros. Segundo Anni Kanafani, mulher de Ghassan, “Umm Saad era um símbolo das mulheres palestinas do campo e da classe operária… é a mulher analfabeta que fala e o intelectual que ouve e coloca as questões”.

Intelectual Orgânico

Nos anos em que estes clássicos literários foram escritos, Ghassan tinha-se tornado um membro ativo do Movimento Nacionalista Árabe, inspirado pelas ideias de Gamal Abdul Nasser de independência nacional e de desafio ao imperialismo. Mas, em 1961, a tentativa de unificação entre o Egito e a Síria (sob uma República Árabe Unificada Unificada) tinha falhado, e a economia ainda firmemente capitalista tinha vacilado. Na guerra de 1967, Israel deu à resistência liderada por egípcios uma derrota violenta. O declínio do nasserismo ocorreu a par da ascensão da liderança explicitamente comunista nas lutas anti-imperialistas que então se desenrolaram em todo o mundo – Cuba, Moçambique e, com crescente significado internacional, o Vietnã. Durante estes anos, Kanafani, juntamente com o seu camarada George Habash, começou a fazer um estudo mais sério do marxismo, chegando à conclusão de que a crise política no mundo árabe e a ascensão do imperialismo e do sionismo só poderiam ser resolvidas transformando a luta anti-imperialista numa revolução proletária.

Como líder da FPLP, Kanafani voltou a sua caneta para questões abertamente políticas, refletindo a urgência de desenvolver a luta de libertação nacional palestina até ao final dos anos 60. Dedicou cada vez mais o seu tempo a publicar trabalhos sobre as lutas históricas do povo palestino, demitindo-se de um emprego bem remunerado na revista Nasserist al Anwar para dirigir a redação do jornal da FPLP Al Hadaf (The Target). O documento Estratégia para a Libertação da Palestina de 1969 foi co-autoria de Kanafani e fez uma análise marxista de classe sobre as forças envolvidas no movimento revolucionário, discutindo as suas perspectivas e estratégia política. A Resistência e os seus Problemas, um panfleto escrito por Kanafani e publicado pelo PFLP em 1970, é uma discussão crítica sobre liderança, teoria e prática marxista, na luta pela libertação nacional.

Nas páginas de Al Hadaf, Kanafani apelou a “todos os fatos para as massas”. Talvez o seu trabalho abertamente político mais importante tenha sido a sua análise detalhada da revolta palestina de 1936-39. Kanafani escreveu sobre o martírio de 1935 do Sheikh Iz Al Din Al Qassam num artigo influente publicado pela primeira vez numa revista da OLP intitulada Assuntos Palestinos (Shu’un Falastiniyeh) e posteriormente distribuído como panfleto sobre a luta armada pela FPLP. Em A Revolta de 1936-39 na Palestina, concluída no ano da sua morte, Kanafani detalha a estrutura da sociedade palestina, a ascensão do sionismo, os fracassos da esquerda e, talvez o mais crucial, no período que antecedeu 1948, o enfraquecimento do movimento revolucionário pelo impiedoso regime imperialista britânico. A sua violência foi “sem precedentes”, e “foi durante os anos da revolta – 1936-1939 – que o colonialismo britânico lançou todo o seu peso no desempenho da tarefa de apoiar a presença sionista e de lhe pôr de pé”. Neste trabalho, ele não poupa nenhum dos regimes árabes reacionários das suas críticas implacáveis.

Antiimperialismo

Kanafani desempenhou um papel importante no aumento da consciência deste período na luta anti-imperialista e foi um internacionalista incondicional:

“O imperialismo colocou o seu corpo sobre o mundo, a cabeça na Ásia Oriental, o coração no Oriente Médio, as suas artérias alcançando a África e a América Latina. Onde quer que o atinja, prejudica-o, e serve a revolução mundial”.

As descrições do imperialismo de Kanafani são caracteristicamente gráficas. Ele apontou para o significado internacional da luta palestina.

“A causa palestina não é uma causa apenas para os palestinos, mas uma causa para todos os revolucionários… como uma causa das massas exploradas e oprimidas da nossa época”.

Na obra que Anni Kanafani publicou após a morte do seu marido, ela escreveu:

“A sua inspiração para escrever e trabalhar incessantemente foi a luta palestina-árabe… Ele foi um dos que lutou sinceramente pelo desenvolvimento do movimento de resistência de um movimento de libertação nacionalista palestino para um movimento socialista revolucionário pan-árabe do qual a libertação da Palestina seria uma componente vital. Sempre salientou que “o problema da Palestina não poderia ser resolvido de forma isolada de toda a situação social e política do mundo árabe”.

Não devemos esquecer, claro, que Lamees de 17 anos foi assassinada ao seu lado no atentado com um carro armadilhado. A irmã de Ghassan, Fayzeh, pensou:

“Ainda no dia anterior Lamees tinha pedido ao seu tio para reduzir as suas atividades revolucionárias e para se concentrar mais na escrita das suas histórias. Ela tinha-lhe dito: “As suas histórias são lindas”, e ele tinha respondido: “Voltar a escrever histórias? Eu escrevo bem porque acredito numa causa, em princípios. No dia em que eu deixar estes princípios, as minhas histórias ficarão vazias. Se eu deixasse para trás os meus princípios, você mesma não me respeitaria”. Conseguiu convencer a moça de que a luta e a defesa dos princípios é o que finalmente conduz ao sucesso em tudo”.

A análise de classe de Kanafani estava à frente do seu tempo no movimento palestino e apontava para os perigos que se avizinhavam se a tendência burguesa na liderança da OLP não fosse controlada. As negociações com a liderança israelense, disse ele, seriam “uma conversa entre a espada e o pescoço… Nunca vi conversações entre um processo colonialista e um movimento de libertação nacional”.

Ghassan Kanafani foi assassinado pelo seu empenho na resistência palestina. O seu legado continua vivo em todos os palestinos e internacionalistas dispostos a lutar pela causa anti-imperialista.

A necessidade de ler literatura palestina, especialmente neste momento, emana da importância de escrever uma narrativa palestina. A maior parte da literatura palestina é a literatura de resistência. A nossa familiaridade e conhecimento deste tipo de literatura, num mundo pós-apartheid e pós-guerra fria, foi infelizmente determinada pelo que o mercado nos oferece. A nossa familiaridade com a poesia de Mahmoud Darwish, Samih Al-Qasim, Tawfik Zayyad e os romances de Emil Habibi, Jabra Ibrahim Jabra, Ibrahim Nasrallah e Ghassan Kanafani- para mencionar apenas alguns- é no mínimo extremamente pobre. Se estes grandes escritores são lidos, é apenas nos Departamentos de Estudos Islâmicos e do Oriente Médio e outros departamentos acadêmicos. Edward Said tem, sem dúvida, a sorte de escrever em inglês e ser publicado nos Estados Unidos.

Mas estou também pensando em formas de combater a propaganda israelense. Por exemplo, o que o ex-Director Geral de Assuntos Culturais do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelense, Arye Mekel, tinha a dizer:

“Vamos enviar romancistas e escritores conhecidos para o estrangeiro, companhias de teatro, exibições… Desta forma mostra-se o rosto mais bonito de Israel, para que não sejamos pensados puramente no contexto da guerra”.

Deixe-me oferecer uma releitura de dois romances de um dos escritores palestinos mais populares da literatura árabe, Ghassan Kanafani. As histórias de Ghassan Kanafani sobre a luta das mulheres e homens para se libertarem de certas formas desumanas de exploração, opressão e perseguição estão sem dúvida relacionadas com as ideias, valores e sentimentos pelos quais as mulheres e os homens colonizados vivem em sociedade e a sua situação existencial, política e histórica.

Uma compreensão dos romances de Kanafani requer uma compreensão mais profunda tanto do passado dos palestinos oprimidos como do seu presente: uma compreensão que contribua para a sua libertação, e para a libertação humana em geral. Não é difícil para nenhum leitor destes dois romances (os primeiros romances de Kanafani) notar um movimento gradual, consciente e deliberado em direção a uma clara realidade dinâmica: uma nova realidade que nos faz ver o que nunca vimos antes, que nos move para uma nova ordem de percepção e experiência no seu todo. Por outras palavras, ambos os romances têm uma grande influência artística que emerge de um confronto com a realidade, em vez de uma tentativa de escapar dela.

Temas complicados e questões repetem-se ao longo destes romances: exílio, marginalização, morte e história. Tais questões estão, de fato, relacionadas com o papel de Kanafani como escritor empenhado e consciente, revelando a fraqueza de alguns palestinos (que representam o povo colonizado em geral) em preferir a busca de segurança material à luta para recuperar a sua terra (Homens ao Sol).

A responsabilidade da liderança palestina em permitir aos palestinos sufocar no mundo marginal dos campos de refugiados está espantosamente prevista neste romance. Contudo, o mundo das diferentes personagens palestinas é um composto de uma relação poética e orgânica com a terra. Estar separado da terra, e procurando soluções individualistas, leva os homens ao sol a uma morte indigna e trágica. O que o romance explora, então, é a relação dialética entre a realidade interior e a realidade exterior do refugiado palestino.

O mundo de All That Remains (ainda não traduzido no Brasil), por outro lado, é um mundo de paralisia sócio-política que precisa de abrir novas possibilidades para um futuro melhor. Isto requer uma viagem em direção à consciência histórica: um fato que assume a guerra de 1948 como o Centro Emergente e a imagem palestina paralisada. Neste romance, a consciência histórica é alcançada através da transformação individual e coletiva; e o verdadeiro e significativo tempo de liberdade é alcançado através da ação. Claro que, para se alcançar a consciência histórica, é preciso livrar-se da falsa consciência. O romance é, portanto, deixado sem fim porque se trata de começos e não de fins, ou seja, de um processo dialético sem fim. Assim, com o final otimista, aberto, embora violento, de All That Remains, e o apelo à revolução em Men in The Sun, conclui-se que, ao contrário da teorização de Francis Fukuyama, a história nunca pode ser fechada.

Hamid, o herói de All That Remains, é um palestino oprimido que procura a sua terra, história e identidade, que são restauradas através da sua luta para recuperar a sua terra. O verdadeiro cerne de All That Remains não é apenas Hamid, mas as condições reais de guerra e ocupação que são responsáveis pela perda da Palestina. Nós, leitores, somos orientados para um estudo das condições de perseguição e guerra – incluindo a limpeza étnica da Palestina pelas milícias sionistas – responsáveis por essa catástrofe; é o próprio comportamento de Hamid que somos convidados a analisar. Estes são acontecimentos que afetam o caráter de Hamid/Palestina, e o resultado é a ação revolucionária no final do romance em 1965, ou seja, a emergência da Revolução Palestina contemporânea. Com Kanafani percebe-se que um novo mundo é possível, mesmo inevitável, apesar do acordo de cessar-fogo de César do século! Mas porquê a necessidade de uma leitura de Kanafani? A inconsistência da intelligentsia de Oslo encontra-se na escala da pequena burguesia. É por isso que se mostrou, no final, conservadora, por vezes até reacionária no que diz respeito aos principais problemas, como outros intelectuais liberais tradicionalmente árabes, e porque não tolera qualquer pensamento para observações criticamente conscientes.

Não surpreendentemente, aqueles que não aprovam, por exemplo, a crítica aguçada de Edward Said aos Acordos de Oslo são os principais beneficiados. Programas alternativos, tais como os oferecidos por pessoas como Kanafani e Said, têm funcionado como um espelho refletindo a ‘Outra’ Palestina, a verdadeira face que temos tentado reprimir. Daí a intimidação, raiva e acusação de ‘idealismo’ e ‘sentimentalismo’. De certa forma, reler Kanafani, à semelhança do de Edward Said, mostra-nos como e porquê a atual estrutura ‘intelectual’ hegemônica, com a sua estrutura de dominação, não representa uma mudança radical em termos de relações com o ocupante israelense, mas uma modificação da mesma.

A consciência política deve começar por uma rejeição das condições impostas pela ocupação israelense à maioria dos palestinos e ainda mais crucialmente, uma rejeição das migalhas que são oferecidas como recompensa pelo bom comportamento a uma minoria seleta. Daí a necessidade de conhecermos as obras de Kanafani. 

OBRAS
*

sábado, 15 de maio de 2021

Palestina meu amor * Observatório Proletários / BR

 PALESTINA, MEU AMOR!

PALESTINA, MEU AMOR
é um sussurro de carinho, é um grito de reencontro e até mais, mas sobretudo, expressa nossa emoção ante os acontecimentos envolvendo a pátria de Arafat e tantos irmãos de lutas antiimperialistas e patrióticas.
No entanto o título expressa o sentimento da autora - Berenice Bento - por essa terra arrasada, devastada e bombardeada pelos interesses imperialistas.
Poderíamos falar longamente sobre a exposição e sua autora, mas preferimos convidar os amigos/leitores/internautas a conhecê-la:
https://berenicebento.com/palestina-meu-amor/ 
***

Poesia Palestina em combate * Observatório Proletários / BR

 POESIA PALESTINA  EM COMBATE 


O fim do ódio que você plantou

Autor: Yasser Jamil Fayad

Foi você!
Eu sei que foi você!

Você me evitou
Nascer em casa
Dos meus ancestrais
De pedras resistentes
Com vinha ao fundo.
Em vez disso,
Uma loja da Cruz Vermelha.

Você roubou minha infância
Eu sei...
Jogos inocentes
Nos jardins da minha casa
Avós paternos em Haifa.

Você usurpou meu café da manhã
A mesa abundante de afeto
Na casa dos meus avós maternos
Em Hebron.

Em vez disso, fome
Isso nos fez ver o sol e a lua
Como pratos de comida.

Foi você!
Eu sei que foi você!

Você matou minha adolescência
Pelas ruas de Tulkarm.

Sua
você me roubou
O direito de viver
Gratuito no meu país.

Ir para a escola como todo mundo
Crianças,
andar pelos mercados,
para conversar com meus amigos!
E quantos deles
você me impediu de saber!

Foi você!

Você destruiu meu amor
Para a mulher que ele deveria ter conhecido ...
Aquele com quem eu iria casar ...
Você roubou minha alegria
Para ter na Palestina
Para meus filhos

Em vez disso,
Você ... Sim, você!

Nas incontáveis
lugares de exílio para os quais você me jogou
de país para país,
de casa em casa,
você me negou casa.

Foi você!
Eu sei que foi você!

Você confinou meus pais
Para viver no eterno
Desejo de voltar ao passado
- doces lembranças -
Tempo livre de sua existência em nossas terras.

Você assassinou
Para meus irmãos que não nasceram
Pela miséria dos campos de refugiados.
Você matou aqueles que nasceram e lutaram contra você.

Tantas vezes você
Você queria nos destruir
Você desejou nosso fim
Nosso enfraquecimento.

Apesar de tudo,
Eu quero que você saiba...

Nossos corações vão vencer
o ódio que você plantou ...
A) Sim,
No dia seguinte
Que a Palestina esteja livre de você!
À MINHA MÃE



Tenho saudades do pão da minha mãe, Do café da minha mãe,
Do carinho da minha mãe...
Estou a crescer,
De dia para dia,
E amo a vida, porque Se morresse,
Teria vergonha das lágrimas da minha mãe!

Se um dia voltar, faz de mim
Uma sombrinha para as tuas pálpebras. Cobre os meus ossos com a erva Baptizada sob os teus pés inocentes.
Ata-me
Com uma mecha dos teus cabelos, Um fio caído da orla do teu vestido... E serei, talvez, um deus,
Talvez um deus,
Se tocar o teu coração!

Se voltar, esconde-me, Lenha, na tua lareira. E pendura-me,
Corda da roupa, no terraço da tua casa. Falta-me o ânimo
Sem a tua oração diária.
Envelheci. Faz renascer as estrelas da infância E partilharei com os filhos das aves,
O caminho do regresso... Ao ninho onde me esperas!



MURAL

(Primeiros versos)

Eis o teu nome, Diz uma mulher
Que depois desaparece na espiral do corredor.
Vejo ali o céu à mão de semear
E a asa de uma pomba branca transporta-me A uma outra infância.
Não sonho que sonho. Tudo é real.
Sei que me esqueço de mim... e que vou voar. Serei aquilo em que me vou tornar
No último céu. Tudo é branco.
O mar suspenso sobre o telhado de uma nuvem branca E o nada no céu branco do absoluto. Estive e
Não estive.
Estou só à entrada dessa eternidade branca. Chegado antes da minha hora,
Não me aparece algum anjo que me diga:
“Que fizeste, lá em baixo, na terra?”
E não oiço nem as aclamações dos bem-aventurados
Nem as lamentações dos pecadores. Estou só na brancura. Só...
Nada me faz mal à porta da eternidade, Nem os dias nem os sentimentos.
Não sinto nem a leveza das coisas Nem o peso das obsessões.
Não encontro ninguém a quem perguntar:
“Onde está o meu onde, daqui em diante?
Onde está a cidade dos mortos? Onde estou eu?” Não há nada, Aqui, no não-espaço... no não-tempo,
Não há existência.

Como se já tivesse conhecido a morte... Conheço esta visão e sei que parto Para o que não conheço. Talvez
Esteja ainda vivo em algum lado, Consciente do que quero...

Um dia serei o que quero.

Um dia serei uma ideia que nenhum gládio levará À terra desolada, nenhum livro...
Uma ideia semelhante à chuva sobre uma montanha Rasgada pelo rebento de um pé de erva.
E a força não terá ganho, Nem a justiça fugitiva.
Um dia serei o que quero.

Um dia serei pássaro e, do meu nada,
Tirarei a minha existência. Sempre que as minhas asas se consomem
Aproximo-me da verdade e renasço das cinzas. Sou o diálogo dos sonhadores.
Renunciei ao meu corpo e à minha alma
Para cumprir a minha primeira viagem ao sentido, Sou a ausência. Sou o perseguido
Celeste.

Um dia serei o que quero. Um dia serei uma vinha.
O verão que me esprema já,
Os passantes que bebam o meu vinho Sobre os lustres do espaço açucarado! Sou a mensagem e o mensageiro,
As pequenas moradas e o correio. Um dia serei o que quero.
Eis o teu nome, Diz uma mulher
Depois desaparece no corredor da sua brancura. Eis o teu nome. Guarda-o bem!
Não se descomponham por uma carta
E não te importes com as bandeiras das tribos. Sê o amigo do teu nome horizontal,
Testa-o sobre os vivos e os mortos,
Condu-lo à boa dicção na companhia dos estrangeiros, Traça-o na parede da caverna.
Ó meu nome: tu crescerás quando eu crescer, Tu me levarás e eu te levarei,
Porque o estrangeiro é um irmão para o estrangeiro. Apresaremos a fêmea com a vogal longa devolvida às flautas. Ó meu nome: onde estamos agora?
Diz! O que é hoje? O que é amanhã? O que é o tempo, o espaço,
O antigo, o novo?

Um dia seremos o que queremos.

MAHMUD DARWICH 

ESCURIDÃO


A escuridão tem um buraco.
Com espaço para uma mão,
Negra, com cinco dedos e um braço. A escuridão possui uma casa, Assombrada pelos mortos,
Que tornam a sepultar os seus segredos nos tijolos. A escuridão mata as vozes
Que clamam das pedras,
Sufocando em urtigas no fundo do poço. E um grito,
Um violento grito de protesto,
Eleva-se do coração sombrio da floresta.


UM ESPELHO

Dois rostos assomam na catástrofe –
O meu pai e o seu cavalo; uma pequena lua Cujas velas prenderemos sobre a nossa casa.
Se ao menos pudéssemos recuperar a nossa infância, Agarraríamos a lua por um tempo entre as nossas mãos.
E deixá-la-íamos fugir, quando tivéssemos os corações abertos.


UM INCIDENTE

Vi uma mão acenando do rio,
Que tremeu antes de desaparecer,

Sumida algures – um rasto luminoso de ar, Cheiro de cravo.
Os dedos continuavam a mexer, agitados, Traçando à superfície palavras desesperadas, Mas cansaram-se e afundaram-se.
Como nos alegramos sozinhos, Enquanto debaixo de água
Existem florestas submersas de desejos – O território dos vencidos.

GHASSAN ZAQTAN
*Vidas palestinas importam!*

*Aliás, todas as vidas deveriam importar.*


Por Keithe Hamid*


Diante do cruel absurdo que acontece em Jerusalém, 

não podemos ficar reféns, 

não podemos nos calar. 


Esperamos que o mundo possa mais que nos escutar. 

Não queremos apenas ser ouvidos, queremos ser mantidos vivos 

e do nosso direito gozar. 


Uma luta contra a crueldade sionista vamos travar.  

Das nossas terras eles querem se apropriar. 

Estão promovendo massacre em Gaza e em  Sheikh Jarrah. 


Não se importam de o humano nem o sagrado desrespeitar. 

Seremos resistência a tudo que ferir a nossa existência e tentar impedir o nosso livre caminhar, o nosso direito de na nossa terra ficar. 


Opressão vamos sempre combater e rejeitar.

A ocupação ilegal de Israel precisa parar. 

A resistência palestina não vai se apagar. 


Convidamos o mundo a se humanizar. 

Informe-se, reaja, 

para, diante da injustiça, 

neutro não ficar.  


Quem escolhe a justiça  

sabe que a Causa Palestina 

é uma causa para se apoiar. 


Chega de Apartheid! 

Queremos Liberdade!


Salve Sheikh Jarrah!

Palestina Livre Já!


**Keithe Hamid é professora de língua portuguesa e leciona na rede pública de Brasília-DF*

É TEMPO DO CAVALEIRO TRIUNFAR

À sombra das oliveiras Na folhagem do limoeiro Nos olhos dos pássaros Nas lágrimas das crianças Procuro-te

No cume do vulcão vermelho Sobre a terra plantada de tomilho Ó minha grande alegria
Ó minha imensa alegria
Ó pátria da tristeza, irrompe em erupção!

Se prestarmos culto a outros deuses À sombra das tuas cinzas
Seremos pendurados na forca!

Poderemos esquecer
Que pertencemos à terra em gestação? Poderemos esquecer
Que provimos de uma raiz mais profunda? Ó pátria da tristeza, irrompe em erupção! Ó pátria da tristeza, irrompe em erupção!

Guevara, aproxima-se.
O revolucionário de rosto tisnado Desencadeia a insurreição.
Guevara beija-lhe a testa
E vislumbra leões invencíveis.

Gaza, ó minha mãe Ó Gaza

Cresce a chama da saudade.
Na tenda do avô ressoa um cântico Feito de sonhos de pobreza Entoado por grãos de luz
E pelo som das foices a ceifar os campos.

Eis a minha mãe: ela possui um segredo Leva-me para a areia amarela
Para o amor perfumado do meu país natal, Numa cabana
Sobre a encosta verde da montanha.

Abril!
Proclama que o meu sangue exala o perfume Da terra dos meus antepassados.


ÚLTIMAS PALAVRAS DOS MÁRTIRES NA PALESTINA

Não estejas triste. A noite deixou cair o seu pano,
A madrugada apertou o coração exprimindo tristeza.
Quando o sol desaparecer no horizonte, não fiques triste Porque a nossa alma está a transbordar de amor E de desejo ardente.
Não chores, alegra-te pelo combatente Que procurou a glória para a sua pátria.

Ó Jerusalém, símbolo de eternidade para um povo generoso, Símbolo que perdurará até ao fim dos tempos.
Ó Jerusalém, a tua chaga é a nossa chaga, Arma-te de paciência e consola-te.
O nosso mar e as nossas areias
Ergueram-se para abater os inimigos e a tirania.
Como poderíamos viver quando sangram as nossas feridas,
Quando a nossa terra permanece sequiosa e suportamos o martírio? A morte, ou mesmo o inferno das grades das prisões,
É preferível a uma vida humilhante.

Não escrevemos poemas pela fama,
Pela riqueza ou por uma posição invejável. Mas é o hino do coração que
Se confunde com o espírito do sacrifício ilimitado.

Juro pelos revolucionários, pela chaga
Que trazemos dentro de nós, pela terra, pelo homem; Juro pelos homens livres, pelo amor que
Habita em nossos corações, pela luz e pelo fogo. Juro que defenderemos a nossa pátria
Tal como ela nos ensinou.

HANAN AWAD
MORTE POR ENTERRAMENTO

Este local não é Próprio para plantar. Aqui a terra é
Dura, seca, irritante – Agulhas de folhas mortas Arranham.
Fecho os olhos, o pó Sufoca-me a garganta, Nunca pensei que a terra Pudesse ser tão pesada, Talvez se eu
Levantar um braço Alguém venha atravessar
Um dia a minha sepultura e,
Como nas noites dos filmes de terror,
Veja uma mão sem vida, uma palma aberta. Dedos meio enrolados...
E grite.

Eu não morri nesse dia – Outra coisa sucedeu
E ainda permanece Na sepultura pútrida
Fermentando o conhecimento das trevas.

HANAN ASHRAWI
BASTA-ME

Basta-me morrer na sua terra Ser sepultada nela
Desfazer-me e desaparecer no seu solo
E depois renascer como um rebento de erva
Como uma flor na mão de uma criança que cresceu no meu país. Basta-me permanecer
No amplexo do meu país
Como terra, rebento de erva e flor.

Durante as primeiras semanas após a guerra de Junho de 1967, jornais estrangeiros e estações de rádio veicularam notícias que deixavam entrever a calamidade como se o fim do povo árabe tivesse sido decidido por esse desastre. Dessa situação nasceu o seguinte poema:

O DILÚVIO E A ÁRVORE

Quando a tempestade satânica chegou e se espalhou No dia do dilúvio negro lançado
Sobre a boa terra verdejante “Eles” contemplaram.
Os céus ocidentais ressoaram com explicações de regozijo: “A Árvore caiu!
O grande tronco está esmagado! O dilúvio deixou a Árvore sem vida!”

Caiu realmente a Árvore?
Nunca! Nem com os nossos rios vermelhos correndo para sempre, Nem enquanto o vinho dos nossos membros despedaçados
Saciar nossas raízes sequiosas

Raízes árabes vivas
Penetrando profundamente na terra.

Quando a Árvore se erguer, os ramos Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza Voltarão.

FADWA TUQAN
O impossível

Aqui estaremos
com uma parede em nosso peito,
enfrentando a fome,
lutando com fiapos,
desafiando
cantando nossas canções,
invadindo as ruas
com nossa raiva,
enchendo nossas cabanas de orgulho,
ensinando vingança às novas gerações
Como milhares de prodígios que
vagamos
por Jaffa, Lidda, Ramallah, na Galiléia.

Aqui estaremos,
lavando pratos em seus bares,
enchendo os copos dos mestres,
limpando suas cozinhas fuliginosas
para dar uma mordida em suas presas azuis
para alimentar as crianças famintas.

Aqui estaremos com o coração de gelo
ardente , o inferno nos nervos e na alma,
tiramos água da rocha para matar nossa sede
e jogar fora a fome com o pó.
Mas não vamos embora.

Aqui vamos derramar o sangue mais amado,
aqui temos um passado, um futuro,
aqui estamos nós o invencível,
então vá fundo, vá fundo
em minhas raízes.

Eu aperto suas mãos

Eu convoco
você , eu aperto suas mãos.
Beijo a terra sob seus sapatos
e digo: "Eu te resgato,
eu te dou a luz dos meus olhos
e o calor do meu coração eu te dou,
porque a tragédia que eu vivo
é parte da tua tragédia."
Eu convoco
você , eu aperto suas mãos.
Eu não era insignificante para minha nação
e não abaixei minha cabeça.
Parei diante da face dos meus opressores
- órfão, descalço, nu - Eu
carreguei meu sangue na palma da minha mão,
eu não coloquei minhas bandeiras a meio mastro
e eu protegia a grama que cresce
. Na sepultura dos meus antepassados
I convocar você ...! Eu aperto suas mãos!

Um vento do leste

Algumas lágrimas deste vento que
vem do oriente
carregadas de gritos de meus entes queridos ausentes,
gritos cortados pela saudade,
sinceros, sem gritos,
encheram a terra e os horizontes.
Eles vêm carregados com a dor do vale
e o cheiro de orvalho, sangue e escravidão. As lágrimas deste vento que ... Vem do Oriente
caem no meu rosto e nos meus olhos,
na minha alma e na minha garganta .

Tawfīq Zayyād 
TRES MUROS PARA LA SALA DE TORTURA

Al alba

Yo resistiré...
Mientras haya en el muro una página en blanco
y no se derritan los dedos de mi mano.
Aquí, alguien pulsa
un mensaje a través del muro.
Nuestros hilos se han convertido en nuestras venas,
las venas de estos muros.
Toda nuestra sangre se derrama
en las venas de estos muros...
Un mensaje a través del muro:
Ellos han cerrado una celda,
han matado a un prisionero,
han abierto otra celda
y han llevado a un prisionero...


A mediodía


Ellos me han puesto delante el papel,
me han puesto delante el lápiz,
me han puesto en la mano la llave de mi casa.
El papel que han querido manchar
ha dicho: ¡Resiste!
El lápiz cuya frente han querido mancillar en el barro
ha dicho: ¡Resiste!
La llave de la casa ha dicho:
En nombre de cada piedra
de tu humilde casa ¡Resiste!
Un golpe en el muro
es el mensaje de una mano rota
que dice: ¡Resiste!
Y la lluvia cae
golpeando el techo de la sala de tortura.
Cada gota grita: ¡Resiste!


Al ponerse el sol


Nadie está conmigo,
nadie oye la voz de este hombre,
nadie lo ve.
Cada noche, cuando los muros
y las puertas se cierran...
él sale de mis heridas sangrantes
y camina por mi celda.
Soy yo.
Es como yo.
Le veo de niño
y con veinte años.
Es mi único consuelo,
mi único amor.
Es la carta que escribo cada noche
y el sello para el amplio mundo
y el pequeño país.
Esta noche lo he visto
saliendo de mis heridas
sombrío, torturado, triste,
caminando en silencio, sin decir
nada, como si dijera:
No me volverás a ver si confiesas,
si escribes...

Muin Basisu
UN PAÍS

Traducido del árabe por: María Luis Prieto

Tomó su nombre del agua
Y comenzó a fluir.
La espuma que vimos sobre las olas
Era su gente
Y la hierba sobre las dunas
Sus costillas.
Un país
Cuyos hombres se habían marchado.
Por eso las mujeres se habían casado
Con los árboles.

Wadih Saadeh
(Del poemario: Intento de llegar a dos riberas con una voz (1997)
POEMA PARA GAZA

Un abrazo de libertad
Se deja llevar por las olas
y surca los mares eternos
hasta besar el mar silente
frente a las puertas de GAZA.

Se deja llevar por el viento
y surca los mares infinitos
hasta pintar el azul del cielo
y el blanco de las espumas
frente a las puertas de GAZA.

Una mujer del mundo
se sube a la Flotilla de la Libertad rumbo a GAZA.
En sus manos cultiva una rosa
y su pecho guarda un abrazo de LIBERTAD.

Para construir un paraíso de sueños
y alcanzar la utopía del AMOR.
Para romper los silencios del miedo
y cubrir de sonrisas el camino de una lágrima.
Para silenciar el grito desgarrador de la muerte
con la voz reverdecida de la PAZ.

Una mujer del mundo.
Un abrazo de libertad
frente a las puertas de GAZA.

Obs.: Kmagem - Iris Serrano ; Poema  Ana Herrera
*
*
OCULTO


Si pones un helecho debajo de una piedra al otro día será
casi invisible como si la piedra lo hubiera tragado.
Si escondes el nombre querido bajo tu lengua
por demasiado tiempo sin pronunciarlo
se convierte en sangre suspiro
el pequeño aliento halado al aire oculto dondequiera
en el fondo de tus palabras.
Nadie ve
el combustible que te alimenta.

Naomi Shihab Nye
*
*

"Vá e roube o último pedaço de minha terra,
deixar meu jovem corpo nas masmorras,
saqueie minha herança, queime meus livros,
alimente seus cachorros com meus peixes,
vá e espalhe sua teia de medo
nos telhados da minha aldeia,
inimigo do homem,
não haverá trégua e terei que lutar até o fim,
então você apaga seu fogo em meus olhos,
então você me enche de angústia,
então você falsifica minhas moedas,
ou a raiz corta o sorriso dos meus filhos,
então você levanta mil paredes,
e acertar meus olhos humilhados,
inimigo do homem,
não haverá trégua
e terei que lutar até o fim "

Samih Al-Qasim

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

RESISTÊNCIA DA MULHER PALESTINA: UM FEMINISMO ANTICOLONIAL? * Gilliam Mellane Ur Rehman / MA

 RESISTÊNCIA DA MULHER PALESTINA: UM FEMINISMO ANTICOLONIAL?

Por Gilliam Mellane Ur Rehman / MA

Começamos esse texto citando o dado alarmante apresentado por Soraya Misleh, sobre a privação de liberdade de mulheres palestinas, no exercício da defesa de sua terra e de sua identidade, resistência externada sob as mais variadas formas, além das torturas físicas a que são submetidas. São 48 palestinas privadas de sua liberdade nas prisões de Israel. Soraya nos traz esse dado por meio do relatório produzido pela organização palestina Addameer, um movimento em apoio aos prisioneiros palestinos. Nas constantes tentativas de apagamento de um povo, a limpeza étnica executada pelo Estado israelense não necessita de um grande ato de “rebeldia”, basta apenas nascer palestino e isso se configura em justificativa suficiente para impor castigos, demolições, prisões, bombardeio, assassinatos, terrorismos.


A luta dos palestinos para manter sua existência segue incansável há mais de setenta anos, tempo em que a perda de seu território deu espaço a blocos de terra nos quais circulam sionistas armados, praticando o terror diário em idosos, mulheres, crianças. Tendo suas casas demolidas, filhos, maridos, pai, irmãos presos ou assassinados, as mulheres palestinas são empurradas ao combate, seja ele, no enfrentamento da força militar ou desenvolvendo outros mecanismos de resistência.


É comum no cotidiano da mulher palestina, tocar a vida sem o marido, quem não raro, é morto pelos sionistas, ou se encontra em cárcere, em alguma prisão israelense. Essa realidade propicia que estas mulheres fiquem à mercê da violência dos colonos que ocupam de forma ilegal aquelas terras.


Um outro fato é que, além de toda sorte de violência e privações, as mulheres palestinas ainda tem que viver a dureza da violência obstétrica ou mesmo a falta de atendimento e acompanhamento necessário no período gestacional. Em Gaza, por exemplo, as mulheres palestinas grávidas, não tem direito ao pré-natal. As estatísticas provam que a morte de crianças no nascimento, é ocasionada pela negação de atendimento no momento de darem à luz, em postos de controle israelenses, o que não deixa de ser mais uma estratégia desenvolvida pelos sionistas, de dizimar essa população, já no ventre da mãe. Os fatores que colocam essas mulheres em grave contexto de crise humanitária, é acentuado pela falta de emprego e pelo mínimo de elementos que garantam a subsistência das mesmas.

Em 2019, os franco-atiradores sionistas alvejaram a palestina Amal al-Taramsi, e a lista segue crescente nos atentados criminosos executados por Israel.


De tantos quadros tristes e covardes, há o da paramédica Razan al Najjar, de 21 anos (mulher que escolhemos, para homenagear sua memória, batizando nosso movimento com o seu nome: Aliança Palestina Razan al Najjar -MA). Al Najjar foi assassinada, no exercício de sua profissão, quando cuidava de feridos nos protestos que ocorriam na fronteira de Gaza com Israel, no dia 1 de junho de 2018, por um soldado das forças de ocupação israelense. Os assassinatos ocorridos na Palestina, por forças da ocupação são incontáveis e contabiliza-se mais mortes de mulheres.

A política dos franco-atiradores é um braço de ação da cruel limpeza étnica imposta pelo ilegítimo Estado de Israel, que há mais de 70 anos, vem dizimando e tentado apagar do mundo, o povo palestino.


A mulher palestina, ao longo da ocupação está sob a mão de toda sorte de abuso e violência de seus corpos. Não temos apenas um espaço territorial ocupado ilegalmente, os corpos femininos tornaram-se extensão dessa ocupação violenta.

A conta de 800 mil palestinos, na condição de refugiados, os 500 vilarejos destruídos, traz em sua soma, a violação sexual de várias mulheres palestinas, como parte da extensa lista de crimes imputados nas 31 aldeias onde sionistas fizeram seus massacres.


As circunstâncias impostas pela colonização despertaram nas mulheres palestinas o sentimento de combate na luta anticolonial. Tal reação diante do imperialismo, imprime nessas mulheres uma ideia totalmente contrária daquilo que é despejado nos meios midiáticos, sobre as mulheres do Oriente. No imaginário coletivo ocidental, é alimentado a ideia de que essas mulheres são de natureza submissa, sem voz e aprisionadas em vestes que as violam em suas liberdades. O eurocentrismo não permite a reflexão de que, sinais identitários, são carregados com orgulho e que estas mulheres obedecem a um código cultural que as fazem livres, fora dos padrões do Ocidente. Entendamos que o patriarcado é um sistema que engole o mundo e está presente em todos os sistemas culturais. Em todos os lugares, há lutas e bandeiras, em que mulheres se organizam para retomar direitos e espaços.


Não existe feminismo, existem feminismos. Não podemos padronizar as lutas ao redor do mundo com uma “fôrma” ocidental.

Em muito se perde o movimento feminista, ao desconsiderar trajetórias, etnicidade, cultura e espiritualidade dessas mulheres. Construiu-se um discurso de salvação, em que o feminismo liberal, branco e europeu deve resgatar essas mulheres de sua sociedade e de seus sistemas culturais nativos. Esse discurso é instrumentalizado pela dominação colonial. O movimento feminista, que deve obedecer a uma agenda anti-opressão, acaba servindo a projetos imperialistas. O feminismo ocidental jamais terá propriedade para falar das vestes das mulheres muçulmanas, colocando-as como símbolo de opressão (no caso do hijab e outras vestimentas), pois existe uma leitura totalmente diferente do que é opressão, liberdade e escolha para essas mulheres. O feminismo liberal não entende que também existe uma apropriação política em uma escolha que deve ser puramente feminina dentro do Islã e o que de fato deve ser combatido, é o uso político compulsório. A proibição do uso do hijab, em alguns países da Europa, provoca reações de contestação, o que demonstra que essas mulheres, não carregam o sentimento de opressão por suas vestes e pelos códigos de sua religião. Ao contrário, se sentem livres e brigam pela manutenção desses elementos.


A análise que se faz de episódios como estes é que exatamente a instrumentalização do movimento feminista, citada anteriormente, endossa os projetos imperialistas, estruturados em agendas sionistas, que busca colocar o Oriente como um espaço de barbárie e atraso e que precisa da intervenção de um plano civilizado e branco. Um plano civilizado e branco significa negar a capacidade de governo desses povos, significa criar estereótipos de homens violentos por essências e determinismo geográficos e culturais e que, portanto, devem ser dominados por meio de uma projeto colonizador.


Adotando essa política de linchamento cultural, temos aí vários fenômenos na América Latina, após o advento da tomada de poder pela extrema direita em alguns países, a exemplo do Brasil. O resultado “natural”, dessa anomalia política, são discursos inflamados, preconceituosos e carregados de xenofobia. Por vários momentos, o presidente Jair Bolsonaro, adotou posturas e falas que casam com essa ideologia de anulação e discriminatória dos povos do Oriente e declaração escrachada de apoio a Israel e suas práticas sionistas.

Com um discurso mais sofisticado, temos na Europa, uma França defensora do preceito laico de Estado, mas que, no entanto, trava ferrenha perseguição ao islã, utilizando-se do mesmo discurso discriminatório de barbarização da cultura e da falsa máxima de salvação das meninas muçulmanas aprisionadas em um véu.  A política de Emmanoel Macron é uma contradição do próprio estado laico, haja vista que entendemos por laicidade, o princípio no qual todos os credos podem coexistir em um mesmo espaço, e onde não haja a interferência do Estado na religião e vice e versa.


A luta da mulher palestina reúne em seus esforços vários elementos que tornam essa resistência, em um novo feminismo. Temos aí mulheres que, diante do massacre de seu povo, e da opressão de gênero natural da absorção do patriarcado nas culturas, se insurgem em uma luta anticolonial e contra a opressão de gênero. O movimento se enriquece ao encontrar pontos de apoio com o feminismo islâmico, o feminismo seccional, o feminismo antirracial e até mesmo o feminismo marxista, se considerarmos a luta pela justa posse da terra e por se posicionar contra o imperialismo.


A história da Palestina, pós-ocupação, é repleta de ações comandadas por mulheres. Nos anos de 1936 e 1939, uma mulher liderou o armazenamento de armas aos revoltosos. Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh não só foi a guardiã das armas como chefiou um grupo de 100 mulheres, no advento da Nakba, em 1948. Em uma função mais assistencialista, e vinculada à Organização para Libertação da Palestina (OLP), em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas. A necessidade de representação e do fortalecimento da defesa da Palestina, fez com que muitas mulheres adotassem uma postura mais combatente e incisiva, diante da postura silenciosa das comissões internacionais sobre Direitos Humanos, no tocante à ocupação da Palestina e à constante violação desses direitos.


Na Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), o ícone mais expressivo da luta feminina foi a militante Leila Khaled, que desde sua adolescência se tornou um elemento extremamente ativo na luta contra a ocupação israelense. Ainda adolescente, Leila se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe. Anos depois, passa a integrar o movimento de caráter marxista-leninista, Frente Popular pela Libertação da Palestina. Sua ação mais famosa, em 6 de setembro de 1970, foi o sequestro do vôo da companhia israelense El Al, com trajeto Amsterdã-Nova Iorque, e no qual foi detida.


A mulher sempre atuou ativamente em todos os atos de resistência para garantir a autonomia de seu povo, a manutenção de sua terra, o não apagamento da memória de seu povo. Nas Intifadas, que compreenderam os anos de 1987-1993 e 2000-2004, fizeram-se presentes, principalmente as mulheres oriundas do campesinato. Diante da colonização, são as mulheres as mais atingidas, pois a grande maioria se vê em situação de total desalento, sem emprego, com famílias para chefiar, filhos para proteger da violência sionista e, ainda assim, o medo não as tira do combate. Em meio ao cenário desolador da ocupação, elas conseguem se articular politicamente em associações que possam lutar pelo mínimo à sua  sobrevivência.


Ainda muito jovens, ou mesmo na infância, essas mulheres já adquirem a consciência da luta pela manutenção dos elementos que  garantem sua existência e de seu povo. É comum ver crianças desafiando soldados, carregando orgulhosamente a bandeira da Palestina como um ato de resistência às forças israelenses. Muitas têm sua condição de crianças vilipendiadas e chegam a ser presas e julgadas como adultos.


Considerado um modelo de democracia no Oriente Médio, Israel sequer consegue esboçar uma política coerente e mostra toda sua monstruosidade, criando leis que tornam crime, a revolta de uma criança ao ver sua casa demolida, seus pais presos e sua vida destruída. Atualmente tem-se uma média de 400 crianças nos presídios de Israel.

Sobre a prisão de crianças, temos a história da jovem Ahed Tamimi, presa sob a acusação de bater em um soldado sionista. A família Tamimi traz em sua trajetória a marca da resistência contra o imperialismo israelense. Vários membros de sua família são ativos nas lutas e a jovem é o símbolo da revolta contra as violações que a Palestina sofre. Ahed foi libertada em agosto de 2018, após oito meses de prisão e ao chegar em casa suas primeiras palavras foram: “A resistência continuará até que a ocupação termine”. Ahed sempre será símbolo de que a revolta e o espírito digno e combativo do povo palestino encontra-se no DNA dessa geração, e hoje, aos vinte anos, Tamimi torna-se referência na luta de mulheres contra a opressão colonial de gênero.


A luta das mulheres na Palestina deve ser abraçada pelo feminismo anticolonial e todos os demais, pois independente das bandeiras de luta de cada movimento, a coesão se dá pelos laços de solidariedade e pela luta contra todas as formas de opressão. É preciso resguardar o lugar de fala dessas mulheres de véu ou não, e considerar os mecanismos de resistência por elas desenvolvido, seja se insurgindo militarmente; seja por meio de associações que busquem atuar na saúde, educação, trabalho e política;  seja nas artes; seja no ato de ceder o seu corpo para que o povo palestino jamais desapareça.


Na luta feminista, é preciso considerar e ressignificar qualquer ação ou mecanismo que grupos de mulheres desenvolvam para resistir às opressões do sistema. E na resistência palestina, gerar vidas é um ato de resistência.  A maternidade da mulher palestina não pode ser analisada no contexto da construção familiar, reduzindo-a ao elemento da constituição da família, como aquela que gera a prole ao lado de um homem e torna-se a célula tradicional da sociedade. A maternidade palestina,  nesse contexto, deve ser desatrelada de qualquer espectro do patriarcado. Ser mãe em território ocupado, significa manter viva a memória, a história e fortalecer as fileiras revolucionárias que darão continuidade a essa resistência. Não é à toa que política sionista boicota a gestação dessas mulheres, lhes negando acompanhamento obstétrico, fármaco, e até mesmo ajuda na hora do parto. Muitas crianças morrem ao nascer ou mesmo ainda no ventre de suas mães. Muitas nascem abaixo do peso ou desnutridas. Nascer palestino já é um ato de luta. A identidade da mulher palestina é construída em um fundo militarizado, revoltante, carregado de símbolos que preservam a memória de seu povo com a bandeira e a kefiyah.

No entanto, não se pode negar que o ventre palestino, acaba se tornando um veículo de militarização. O corpo da mulher palestina tem uma dupla ocupação. Se violado, ele é ocupado pelo colonizador. Se semeado, ele é ocupado pela necessidade de gerar a resistência.


Nos recortes feministas que temos, a luta feminina palestina encontra espaço no feminismo islâmico, sobretudo quando pensamos a maternidade como forma de resistir, quando se pensa na ressignificação ou livre interpretação da literatura alcorâmica, observando o patriarcado presente nesse código, como algo específico de um dado momento. O feminismo islâmico visibiliza a resistência do dia a dia, a luta diária pela retomada de um lugar que sempre foi garantido nas sagradas escrituras e que jamais foi invisibilidade ou submissão ao homem, mas de equidade. O que se busca com trabalhos que discutam essa luta é que os movimentos feministas possam se abrir para essa perspectiva e abraçar a trajetória dessas mulheres.


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*Gilliam Mellane Moreira Ur Rehman** é formada em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), pós-graduada em Sociologia das Interpretações do Maranhão, estudante de Fotojornalismo na faculdade Cruzeiro do Sul, presidente da Aliança Palestina Razan al Najjar -MA, ativista muçulmana, feminista, membro da juventude Árabe Palestina Sanaúd, brasileira nascida em São Luís do Maranhão.

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