Mostrando postagens com marcador barbarie. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador barbarie. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de julho de 2022

O ridículo ululante * Dalton Rosado / CE

O ridículo ululante

Dalton Rosado / CE

A política tem o condão de propiciar situações ridículas em profusão, e a mutação social decorrente da dialética do movimento social se encarrega de demonstrar aquilo que originalmente poderia parecer heroico, mas que era essencialmente ridículo, ainda que trágico.

Há coisa mais ridícula hoje do que o gestual hitlerista tão bem caricaturado por Charles Chaplin no seu antológico filme “O grande ditador”?

Ainda ontem assistimos no Brasil a um Presidente eleito pelo voto afirmar que as eleições no Brasil foram fraudadas por mecanismos eletrônicos, questionando a sua própria legitimidade governamental, e pasmem, para uma plateia de embaixadores internacionais por ele convocados e que aqui representam seus países.

À medida que as mutações sociais ocorrem elas promovem a obsolescência de determinados tabus, e é quando vemos quão ridículos eles eram.

O que dizer do apedrejamento de uma mulher acusada de adultério, criminalização ainda vigente em algumas regiões onde predomina o fundamentalismo religioso anti-civilizatório?

O que dizer de uma escritura pública de propriedade de um escravo negro recém-comprado num cais de porto brasileiro a um traficante de escravos num navio negreiro?

O que dizer da ridícula (e perigosa) adesão governamental brasileira às teses do recém-falecido Olavo de Carvalho, um misto de filósofo com astrólogo defensor de teses como existência de uma conspiração comunista mundial (ele se referia ao marxismo tradicional capitalista de estado ultrapassado), e que influenciou os bolsominions a ponto de termos um Ministro das Relações Exteriores sob tal orientação e que mais parecia um detrator dessas relações e que considerava a China, o país que pratica o mais selvagem capitalismo do

Planeta, como comunista; e sem falar em alguns que afirmavam que a terra era plana?

O que dizer do ridículo argumento de Vladimir Putin em promover uma matança indesculpável do povo ucraniano (também dos incautos soldados russos) em nome de uma hipotética contenção do avanço do nazismo na Ucrânia?

O que dizer do segmento militar das sociedades ditas modernas, que tem formação preponderantemente belicista, querer se auto atribuir funções político-econômico-sociais? Aliás já se disse que até mesmo a guerra é questão tão grave que não pode ser colocada apenas nas mãos de generais.

O que dizer de alguém que considerou que as eleições estadunidenses foram fraudadas e orientou a sua turma para um putsch no capitólio tentando dar um golpe de estado sem considerar o ridículo de tal proposição por esta forma, como o fez Donald Trump?

Mas o senso do ridículo teima sempre em vir à tona.

Como a memória social é amnésica, ressurge em muitos lugares o ridículo representado por teses neonazistas nacionalistas dos supremacistas raciais cujos músculos bombados não estão em simetria com o cérebro atrofiado.

O capitalismo está se colocando na condição de fato social apenas ridículo, se infelizmente não fosse trágico, concomitantemente.

A tecnologia moderna é incompatível com uma lógica que surgiu num momento em que a força de trabalho humana era largamente necessária e a única possível para a execução de todas as ações indispensáveis à vida.

O embrião do capital (riqueza abstrata) decorreu do sistema de trocas quantificadas de objetos transformados em mercadorias (o escambo original, mensurado pelo tempo de trabalho dedicado a cada produto produzido) que gerava a cobiça de obtenção de braços escravizados funcionando como meras máquinas capazes de promover a acumulação da riqueza imperceptivelmente transformada na forma abstrata (originalmente material, os objetos in natura que então adquiriram valor de troca na mercantilização como mercadorias) nas mãos dos senhores escravistas.

Ora, a contradição capitalista e sua inconsciência autodestrutiva, promove a obsolescência da força de trabalho humana aplicada ao sistema de produção e de trocas no mercado, e aí reside a evidência do ridículo (e contraditório) que representa a escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor no estágio atual da produção tecnológica.

Então, com a explicitação da incompatibilidade entre forma e conteúdo, ocorre a concretização prática da fábula da galinha dos ovos de ouro, na qual

a ganância promove a morte do que é fonte de riqueza predatória: o capitalismo se autodestrói!

É sábio o dito popular que afirma que o mal por si se destrói…

Mas o problema é que no seu processo ridículo de autodestruição enquanto forma de relação social, ela arrasta para o abismo todo a sociedade, aí incluindo até os seus submissos agentes beneficiários (os capitalistas).

Exemplo dessa generalização não seletiva de destruição dos seres humanos criadores do próprio capitalismo constatamos na agressão capitalista ao meio ambiente.

Na sua sanha de busca insensata do lucro capitalista emite-se gás carbônico em níveis avassaladores na atmosfera causando o aquecimento global que não atinge apenas os povos pobres que se situam na linha do Equador ou abaixo dela, mas todos os ricos capitalistas situados nos países que detêm hegemonia econômica mundial.

A crise ecológica não é totalmente seletiva, ainda que atinja os pobres com mais virulência. Ainda hoje a Europa arde num calor insuportável que promove a queima das florestas que retroalimenta a emissão de CO² na atmosfera de modo suicida.

Não é ridículo que se proponha o desenvolvimento econômico (todos propõem, direita e esquerda institucional) sob bases capitalistas que não pode dispensar os combustíveis fósseis poluentes?

Não é ridículo que todos os candidatos no Brasil defendam a expansão e a preponderância da Petrobras como suporte econômico da economia brasileira?

Todos querem democracia como objetivação da vontade coletiva; até os ditadores ou aspirante a ditadores dela se aproveitam.

Não é por ela que Boçalnaro, o ignaro, chegou ao poder estatal (com apoio do poder econômico, que hoje desconfia da sua competência em entregar um gerenciamento capitalista estatal eficiente) e agora sonha com um golpe ditatorial que lhe desse a perpetuidade nesse mesmo poder?

Foi assim que Hitler chegou ao poder e incendiou o Reichstag, o parlamento alemão, e paulatinamente se assenhoreou de modo absolutista do poder; é assim que Vladimir Putin vem se perpetuando no poder diretamente ou indiretamente há 23 anos.

Da mesma forma o parlamento brasileiro, cuja composição fisiológica do Centrão é predominante, também está por lá ridiculamente (e de modo predatoriamente fisiológico) ungido pela democracia eleitoral burguesa.

Denunciamos as ditaduras como exercício arbitrário do ridículo poder no qual se investem; mas consideramos democrática a escolha pelo voto, mesmo sabendo da manipulação do poder político-econômico que é o que define a pretensa vontade (ou falta de livre vontade) eleitoral pelo voto.

Em cada nível eleitoral tudo se processa sob circunstâncias ridículas especiais.

Nos municípios interioranos do Brasil profundo é o cabresto eleitoral municipal o que predomina;

– nas grandes cidades é a mídia local atrelada ao poder político-econômico, e as corporações defendendo cada interesse específico e excludente, quem manipula as inconsciências eleitorais;

– nas eleições Presidenciais é a economia o que comanda o efeito manada, razão pela qual ciclicamente os governantes são defenestrados do poder após repetidos fracassos, ou se eleva à santo o governante que momentaneamente entrega resultados econômicos eventualmente satisfatórios que sucumbirão logo adiante por conta da inevitável insustentabilidade governamental estatal capitalista.

As ditaduras são explicitamente ridículas; mas a democracia burguesa enquanto farsa de representação da livre vontade popular representa a ridícula manipulação dessa mesma vontade.

Há uma falsa dicotomia entre ditaduras burguesas e democracias burguesas. Mesmo que a primeira seja tiranamente ridícula, a segunda também o é, ainda que de forma socialmente consensual até certo ponto e sejam respeitados determinados cânones de civilidade.

Como temos dito repetidamente, a verdadeira antítese às duas espécies que pertencem ao gênero capitalismo é uma sociedade cuja relação social se dê por meio de uma produção voltada para a satisfação das necessidades coletivas sem a mediação pela forma valor e estruturadas a partir de organismos jurídicos de base, com poderes administrativos, legislativos e judiciários.

Mas como sempre ocorre ao longo da história, um dia, se sobrevivermos como espécie ao capitalismo, consideraremos todos os saberes e sociabilidade hoje existentes como primários e incipientes, e esta última forma social como ridículo modus vivendi em relação a esses momentos futuros.

Haverá um tempo futuro em que consideraremos inaceitáveis e claramente ridículos conceitos que hoje admitimos como seriamente válidos e aceitáveis.

Dalton Rosado / CE

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O Brasil rumo ao precipício: socialismo ou barbárie * Roberto Bergoci / SP

 O Brasil rumo ao precipício: socialismo ou barbárie

Por Roberto Bergoci


  Com uma taxa de desemprego oficial acima dos 14,6%, a subocupação ultrapassando os 30% da força de trabalho no país, desinvestimentos e fugas de capitais recordes (como no caso da multinacional Ford, mas não só) vemos agravar o desastre social que a cada dia se potencializa no Brasil de Bolsonaro-Paulo Guedes-Militares, deixando patente o verdadeiro fracasso do austericidio neoliberal que tomou conta do mundo há mais de 40 anos, como o regime de acumulação da burguesia "alternativo" ao fracasso da utopia "keynesiana". Somado às consecutivas altas exorbitantes dos preços dos alimentos, gás de cozinha e outros itens básicos de consumo popular, que segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ultrapassou os 16,41% nos últimos 12 meses (maior inflação dos preços de alimentos desde 1992), expressão da estrutura dependente, subdesenvolvida, reflexa e voltada para fora, de nossa economia, certamente entramos em tempos turbulentos do regime burguês brasileiro. O avanço do processo de queima de trilhões das reservas internacionais pelos mafiosos que dirigem a política econômica em beneficio dos grandes magnatas, aumento da divida pública em relação ao PIB e perda de dinamismo da economia, são potentes combustíveis para o alastrar da crise.  A generalização da crise estrutural do capitalismo mundial, que por aqui se expressou pelo fim do “boom de commodities”, estabeleceu um caldo de cultura caótico tanto econômico, como politico e socialmente. As políticas de arrocho neoliberais, posto em marcha por aqui pelo capital financeiro, demais frações oligopólicas  das classes dirigentes dos países imperialistas e as burguesias "brasileiras", desde os anos 1990, baseadas na valorização cambial, elevadas taxas de juros, sucateamento de estratégicas empresas estatais, privatizações, austeridade permanente, enxugamento da máquina pública, sucessivos superávits primários para privilegiar o parasitismo da divida pública, decomposição do mercado interno, etc; tem recrudescido o processo avançado de desindustrialização do país, desestruturação do parque industrial e reprimarização da economia nacional, fazendo o país caminhar para o retrocesso de quase 100 anos em suas forças produtivas e no padrão de acumulação. O Brasil já sofreu períodos históricos de grande vulto, em relação a regressão econômica e social, quando do fim dos ciclos da cana, do minério e do café, algo típico do capitalismo tardio, dependente, de via colonial e atrófico, voltado para complementar os países centrais e sem um projeto nacional autônomo próprio.

 No entanto, a gravidade do atual momento em que vivemos se baseia no fato de que, tal retrocesso em nosso nível industrial e de forças produtivas, se combina com uma sociedade altamente urbanizada, em que as contradições socioeconômicas beiram o insuportável para as massas. Uma coisa é o Brasil de economia primária-exportadora nos primórdios século XX, com uma população predominantemente rural; outra bem diferente, é um país retroceder a praticamente tal estágio econômico quando mais de 84% de seu povo habita os centros urbanos, demandando inserção no mercado de trabalho, serviços públicos, etc., num contexto de maquinização do campo, que impossibilita absorção de grandes contingentes de força de trabalho humana. O resultado disso será inevitavelmente o recrudescimento do pauperismo, decomposição social, proletarização da pequena  burguesia, "lupenização" de vastas parcelas da classe operária e demais trabalhadores, aprofundamento das políticas de repressão policial, encarceramento em massa da juventude periférica e fechamento do regime político, como forma de controle social (o atual projeto de autonomia em relação aos estados, envolvendo as Polícias Militares e Civil é expressão deste fato). 

 Em suma, vivemos no Brasil a combinação dialética de diversos elementos para uma profunda explosão social e das lutas de classes. O preço a se pagar por se manter na esteira da dependência e do subdesenvolvimento, fatores estruturais do capitalismo híper-tardio brasileiro, tem sido alto demais para as massas trabalhadoras. 

 A revolução socialista brasileira é mais do que urgente; de fato, é uma questão de sobrevivência para nosso povo envolto ao agigantamento da barbárie, produto do capitalismo senil. Superar o mero fato existencial de estar na condição de uma "classe em si", como massa bruta para a exploração, e avançar no sentido de se constituir como um sujeito revolucionário independente, com interesses históricos próprios e um programa de transformação radical de nossa sociedade, capaz de nos colocar na condição emancipatória de uma "classe para si", é a missão mais importante de nossa época.  

 Construir uma vanguarda revolucionária no país, que batalhe incansavelmente para se enraizar nas massas trabalhadoras, com um programa da revolução brasileira, manejando a guerra ideológica sem tréguas contra a burguesia; e fortalecer um movimento operário, sindical e popular de base e autenticamente classista, é tarefa para agora, da nossa geração.

 O capitalismo vive um beco sem saída e não tem mais para onde expandir suas forças e nem deslocar suas contradições como no passado. Os atuais acontecimentos que atingem em cheio o regime político em pleno coração do monstro imperialista, ou seja, os EUA, é reflexo dessa crise geral que como um tumor em metástase, se espalha pelo organismo social burguês como um todo. A regra do regime dos exploradores em franca decadência é a destruição em larga escala de massas humanas, forças produtivas, meio ambiente, etc. Diante de atual quadro, somente pode existir dois caminhos para a humanidade trabalhadora: revolução permanente ou barbárie permanente! 

...