domingo, 2 de março de 2025

AS FARCs SEGUNDO RAÚL REYES * Observatório Proletários

AS FARCs SEGUNDO RAÚL REYES
-Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-
PROIBIDO ESQUECER
Luis Edgar Devia Silva.

Luis Édgar Devia Silva, pseudônimo Raúl Reyes, nasceu em La Plata, Huila, Colômbia, em 30 de setembro de 1948, e foi assassinado em Santa Rosa de Yanamaru, Equador, em 1º de março de 2008. Foi um político, revolucionário, guerrilheiro, comandante e membro do Secretariado, porta-voz e assessor do Bloco Sul das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP).

Ele se juntou à Juventude Comunista Colombiana (JUCO) aos 16 anos.
Ele começou sua carreira no movimento sindical enquanto trabalhava em uma fábrica de leite da Nestlé na província de Caquetá.
Ele foi vereador em sua cidade natal representando o Partido Comunista Colombiano, tornando-se membro de seu Comitê Central, antes de ingressar nas FARC-EP.

Reyes ganhou notoriedade pública ao participar como porta-voz das FARC-EP nas negociações de paz com o governo de Andrés Pastrana.
Ele foi morto na Operação Fênix, realizada pela Força Pública Colombiana em 1º de março de 2008, violando o espaço aéreo e o território do Equador.

*Coordenador Simón Bolívar*
Resgatando a Memória Histórica.
Levante-se com aqueles que lutam! ! !
A única luta perdida é aquela que é abandonada! ! !
Só a luta nos libertará! ! !

Da Venezuela Terra dos Libertadores, 533 anos do início da Resistência Anti-Imperialista na América e 215 anos do início da nossa Independência.

Simón Bolívar Coordenador
Caracas - Venezuela
Março de 2025.
Em 1º de março de 2008, a Força Aérea Colombiana bombardeou um acampamento temporário em território equatoriano, matando o comandante Raúl Reyes, outros 16 guerrilheiros e um grupo de estudantes mexicanos.
Após o bombardeio, os militares colombianos acabaram com os guerrilheiros feridos e executaram extrajudicialmente os estudantes da UNAM Juan, Verónica, Fernando e Sorén. Foi um crime de guerra contra combatentes e civis indefesos.
Aqueles que morreram em Sucumbíos permanecem vivos em nossas memórias. Nós, os lutadores da Segunda Marquetalia, prestamos homenagem a esses mártires. O Comandante Raúl, sua simplicidade, sua integridade revolucionária, seu espírito internacionalista e seu entusiasmo continuam sendo exemplos a seguir.
*
FARC-EP: Meio século de resistência

Há 50 anos, um grupo de 46 homens e duas mulheres resistiram às vagas sucessivas de ataques de um exército formado por milhares de soldados apoiados por carros de combate, bombardeiros da força aérea e forças norte-americanas de elite. A operação militar ordenada pelo governo conservador de Guillermo León Valencia deu lugar à épica resistência de um punhado de camponeses cuja luta é hoje acompanhada por milhares de guerrilheiros em prol do progresso e da justiça social. O primeiro combate dá-se no dia que marca a criação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia: 27 de Maio de 1964. Sob o comando de Manuel Marulanda, Isaías Pardo e Jaime Guaracas, os combatentes conseguem superar o assédio militar e organizar em Julho desse mesmo ano uma conferência que produz um dos textos políticos fundamentais da resistência colombiana. No Programa Agrário, dirigido aos camponeses, operários, estudantes, artesãos e intelectuais revolucionários, dá-se conta da existência de um movimento insurgente, em quatro diferentes regiões, que, desde 1948, sofre a brutal repressão estatal e latifundiária.

Nesse ano, a oligarquia abriu uma profunda ferida na tensa situação que o país vivia assassinando o candidato presidencial que acalentava as esperanças das classes populares colombianas. Dado como provável vencedor, Jorge Eliécer Gaitán foi abatido e o país explodiu de raiva. Nas cidades e nos campos, as populações pegaram em armas e rebentou a guerra entre liberais, comunistas e conservadores. Só em Bogotá morreram mais de 500 pessoas nos dias que sucederam o assassinato. Durante mais de dez anos, a violência vitimou cerca de 300 mil e levou à migração forçada de dois milhões de colombianos num país que não tinha então mais do que 11 milhões. Sobre esse período, um dos históricos fundadores das FARC, Jaime Guaracas, destacou que “foram as circunstâncias, a necessidade de defender a vida” que os obrigou a ser guerrilheiros. No sul da região de Tolima ficaram zonas inteiras desoladas “porque todas as famílias fugiram e as que não o fizeram foram assassinadas”. Com a radicalização do discurso político à esquerda, o governo militar de Rojas Pinilla declara que “o comunismo soviético procura apoderar-se da pátria”. Aprovam legislação copiada das medidas que aplicam nos Estados Unidos, em plena Caça às Bruxas, contra a esquerda norte-americana. Nesse âmbito, proíbem a entrada de Pablo Neruda na Colômbia. Em 1958, um acordo – que acabou por durar até 1977 – entre os partidos conservador e liberal para acabar com a contenda conduz à formação de um governo de unidade entre as duas organizações. Uma amnistia geral levou à desmobilização e ao desarmamento dos principais grupos em confronto mas em várias regiões, sob a direcção dos comunistas e de liberais dissidentes, o campesinato acossado pelas consecutivas agressões dos latifundiários decide não entregar as armas.

Em 1965, já um ano depois da fundação das FARC, o número de guerrilheiros triplica. Hoje, são a maior força popular comunista em armas da América Latina. Combatem um dos mais importantes exércitos do mundo com cerca de meio milhão de soldados e com o apoio directo dos Estados Unidos. O investimento norte-americano na guerra colombiana é superado apenas pelo apoio que Washington oferece a Israel. Para além das tropas oficialistas, as FARC-EP e o povo colombiano sofrem ainda o acosso militar das forças paramilitares carniceiras financiadas pela oligarquia e pelos cartéis da droga que controlam o poder político. Este conflito que dura há mais de 50 anos é o tema central das negociações de paz que decorrem em Havana entre as forças beligerantes e dominou a campanha para a segunda volta das eleições presidenciais que se realizaram em Junho. De um lado, estava o reeleito Juan Manuel Santos, ao qual a esquerda decidiu dar o seu apoio para manter acesa a chama do processo de paz. Do outro , estava Óscar Zuluaga.

O único sangue não derramado é o da oligarquia

«Se ganhar as eleições, suspendo os diálogos», foi assim que o candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe reagiu aos resultados que o colocaram na dianteira da primeira volta das eleições presidenciais. Mas para lá da retórica sanguinária de quem prefere o país mergulhado em violência, há quem se questione por que são sempre os filhos dos trabalhadores a empunhar as armas da oligarquia. A guerra que se trava na Colômbia há mais de meio século é entre classes distintas. Contudo, nas montanhas, selvas, campo e cidade, enfrentam-se mulheres e homens com o mesmo historial de miséria. Apesar da mesma condição social, a adesão à guerrilha e ao exército faz-se por diferentes razões. Nos bairros mais pobres das principais cidades colombianas, as forças armadas são muitas vezes uma das poucas opções que restam para a fuga à tragédia social do país mais desigual da América Latina. Por outro lado, quem adere às FARC-EP fá-lo por convicção política e pela necessidade material de conquistar um futuro colectivo de dignidade.

Há quadros que multiplicados por mil revelam a dureza das condições de vida de milhões de colombianos. Num dos seus últimos livros, o jornalista Jorge Enrique Botero revelava a vida de uma jovem cuja experiência atesta a violência sobre quem vive nas traseiras dos Estados Unidos. Filha de uma prostituta e de um comerciante de coca, Solangie era maltratada pela família. Em pequena, os irmãos atiraram-lhe ácido sobre a barriga e, aos 12 anos, ela própria esfaqueou um padrasto que a tentara violar. Habituada a ver passar colunas de guerrilheiros pela sua aldeia, nas profundezas da Colômbia, facilmente se sentiu fascinada pela forma organizada e educada com que tratavam a população. Ali, junto ao rio Guaviare, não havia Estado. Era a própria guerrilha que patrulhava as ruas e ajudava a resolver os diferendos locais. Foi assim que Solangie começou a colaborar com as FARC. Primeiro dando-lhes informações sobre quem havia começado determinada rixa e, posteriormente, sobre quem eram os homens mais ricos da região. «Sabia trabalhar no campo, sabia andar de bicicleta e a cavalo, sabia ler, escrever e pintar. Adorava pintar. O melhor que desenhava eram os mapas e foi pelos mapas que vim parar à guerrilha», descreveu Solangie.

Pelas características da guerra que trava e por óbvias razões históricas de uma organização construída por camponeses, as FARC-EP subsistem, principalmente, no campo. Mas é falsa a ideia de que a organização guerrilheira está arredada das cidades e que resiste apenas circunscrita nas zonas mais inóspitas do país. Há uma semana, centenas de jovens estudantes encapuzados comemoraram o 50º aniversário das FARC-EP dentro da Universidade Nacional, em Bogotá. Cá fora, impedidos de violar a autonomia universitária, tanques militares disparavam jactos de água para o interior do edifício ao mesmo tempo que recebiam o impacto de pedras e cocktails molotov. Há décadas que muitas gerações perseguidas de jovens universitários, sindicalistas e comunistas abandonam as comodidades próprias da vida na cidade e dão o difícil salto para uma realidade que lhes é alheia. Aprender a viver nas montanhas é como aprender a andar de novo dizem muitos dos que o fizeram. Mas isto não significa que as FARC-EP não operem nas grandes cidades. Seja através do Partido Comunista Colombiano Clandestino (PCCC), seja através das Redes Urbanas Antonio Nariño (RUAN), a actividade nos principais centros populacionais da Colômbia é reconhecida pelas próprias forças policiais e militares.

As FARC lutam pelo fim do narcotráfico

Forjada pelo Pentágono, a grande mentira veiculada pela imprensa é a de que os guerrilheiros comunistas se dedicam à produção e tráfico de cocaína. De facto, as FARC-EP controlam territórios em que os camponeses não têm outra forma de subsistir senão através do cultivo das folhas de coca e da sua venda. Sucessivamente, os comandantes farianos têm proposto a erradicação da produção e tráfico de droga através de um programa de substituição de cultivos que dignifique o campesinato e lhe dê condições para viver da produção agrícola. É esse um dos temas centrais que está em cima da mesa nos diálogos de paz e o programa apresentado pelas FARC-EP é claro nos seus objectivos: «Gerar condições materiais e imateriais para o bem-estar das comunidades agrícolas e dos núcleos familiares que as conformam – que, na actualidade, conseguem a sua precária subsistência através do cultivo da coca, amapola e marijuana – num contexto de transformações estruturais da sociedade rural, próprias do processo de reforma rural e agrária integral, socio-ambiental, democrática e participativa que o país e os despojados do campo reclamam».

A justiça social é o caminho para a paz

A oportunidade para a paz, fortalecida pela mobilização das organizações de trabalhadores, camponeses e indígenas, só tem um caminho segundo as organizações guerrilheiras. Como as FARC, também o Exército de Libertação Nacional (ELN) defende que não é possível o fim do conflito sem a erradicação das razões que conduziram à violência: a injustiça social e a perseguição e criminalização das organizações de esquerda. Desde que os combates começaram, há mais de 50 anos, foram várias as ocasiões perdidas para um cessar-fogo definitivo. Em 1984, durante a governação conservadora de Belisario Betancur, as negociações conduziram à formação do partido União Patriótica (UP) composto não só por alguns membros da própria organização mas também do ELN e activistas de importantes movimentos sociais, sindicalistas e militantes do Partido Comunista Colombiano. O processo de paz rompeu-se com a tragédia genocida que se abateu sobre a UP e com o ataque militar ao acampamento onde estavam instalados os comandantes do secretariado das FARC. Nos dolorosos anos em que os guerrilheiros e as organizações de esquerda tentaram abrir caminho à paz, foram assassinados mais de 5 mil militantes da UP e, entre eles, dois candidatos presidenciais, oito deputados, 13 deputados regionais, 70 vereadores e 11 presidentes de câmara. Muitos dos candidatos e dos eleitos encontraram na selva e nas montanhas, abraçando a luta armada, a única forma de sobreviver.

Só uma década depois é que as FARC-EP se voltaram a sentar à mesa das negociações. Em 1998, as imagens do presidente Andrés Pastrana à espera do comandante Manuel Marulanda, em San Vicente del Caguán, abriram telejornais em todo o mundo. Nesse processo, o governo aceitou desmilitarizar um pedaço de território do tamanho da Suíça para facilitar os diálogos de paz. O conturbado processo terminou em 2002 com a posterior eleição de Álvaro Uribe, ex-autarca e suspeito de ligações ao narcotráfico, para presidente da República com a instauração da política de «Segurança Democrática» que levantou duras críticas de organizações de Direitos Humanos e se traduziu em milhares de mortos. A modernização das forças armadas colombianas e o envolvimento cada vez maior dos Estados Unidos e da sua tecnologia na guerra traduziram-se em perdas importantes para a organização guerrilheira. Durante os dois mandatos de Álvaro Uribe, faleceu por razões naturais Manuel Marulanda, líder histórico, e caíram em combate vários comandantes do secretariado do Estado-Maior Central das FARC: Ivan Ríos, Raul Reyes, Jorge Briceño e Alfonso Cano.

Apesar dos duros golpes, as FARC-EP adaptaram a sua actividade à nova realidade militar. Depois do extraordinário desenvolvimento da sua estrutura, entre os anos 80 e 90, e de assumir uma linha táctica que lhe permitia suster, em alguns casos, uma guerra de posições, as FARC-EP regressaram à mobilidade necessária para atacar e retroceder sem que isso represente importantes custos para a organização guerrilheira. A verdade é que nos últimos anos têm conseguido manter uma estrutura estável e chegaram aos diálogos de paz com o necessário poder negocial para arrancar importantes vitórias nos acordos que já foram assinados com o governo.

A Colômbia lidera anualmente muitos dos rankings mundiais de sindicalistas e jornalistas assassinados. É também o país com o maior número de deslocados internos do mundo. A luta pela paz não está, por isso, confinada a quem luta também através dos canos das metralhadoras. Partidos, sindicatos e movimentos representativos de importantes sectores sociais da Colômbia têm batalhado para conquistar a paz. Porque a guerra não é apenas entre as organizações guerrilheiras, o exército e os grupos paramilitares. É também contra os trabalhadores, os estudantes e os indígenas, privados da liberdade política de se poderem expressar e lutar num contexto legal por um mundo melhor.

Mas é também injusto dizer que as FARC apenas se dedicam à guerra. Muitos camponeses recorrem aos médicos guerrilheiros para cuidar da saúde. Entre a folhagem da selva e das montanhas, erguem-se verdadeiras cidades. Em muitos casos, é a fronteira da dignidade. Os guerrilheiros estudam, levantam hospitais nos sítios mais improváveis, erguem as suas emissoras clandestinas de rádio, jogam futebol em campos improvisados e organizam peças de teatro. Acordam todos os dias às quatro da madrugada e adormecem às oito da noite. Sonham com o dia em que Bogotá esteja nas mãos dos trabalhadores. Inspirados pelos princípios de Marx e Lénine, e pelo exemplo de Simón Bolívar, as FARC-EP mantêm-se fiéis às razões que levaram aqueles 48 camponeses a levantar-se em armas em 1964. Ao contrário do que dizem as agências internacionais de notícias, as FARC seguem uma trajectória própria que deve ser entendida dentro das circunstâncias da difícil realidade que tentam transformar. Esta organização guerrilheira que em meio século não se vergou ante a oligarquia colombiana e o imperialismo mantém-se firme no objectivo de conquistar a paz e o socialismo. Mas não a paz dos cemitérios em que jazem milhares de revolucionários e progressistas colombianos assassinados. É a paz com justiça social por uma democracia em que os trabalhadores e o povo sejam protagonistas.
*
CAMARADA RAUL REYES.

30 de setembro de 1948 - 1 de março de 2008.

ATÉ A VITÓRIA SEMPRE.
"Diante da desigualdade global e da injustiça social, você só tem duas opções: ou comete suicídio ou luta. Eu decidi lutar."
Tânia Niejmeyer. Guerrilha holandesa das FARC - EP

SEM PERDÃO NEM ESQUECIMENTO PARA CADA CAÍDO
FSP - 24/08/2003 - 05h46
''As Farc têm todo o tempo do mundo'', diz comandante
FABIANO MAISONNAVE
da Folha de S.Paulo, Enviado especial à Colômbia

Leia a seguir entrevista concedida à Folha de S.Paulo na última terça-feira pelo comandante das Farc Raúl Reyes em algum ponto da Amazônia colombiana.

Folha de S.Paulo - A Fundação Segurança e Democracia divulgou dados comparativos entre o primeiro semestre do governo Uribe, em 2003, e o primeiro semestre de 2002, ainda sob o governo Pastrana, que mostram uma intensificação das ações militares do governo e um recuo das Farc. Por que isso ocorreu?

Raúl Reyes - Não sei, não tenho idéia, mas lhe digo: de onde eles tiram essa informação? Da inteligência militar, que fala de milhares de guerrilheiros mortos, de guerrilheiros desertores, feridos, o que não é verdadeiro. Mas as Farc não estão competindo para ver quantas ações fazem, temos um plano próprio que não pode ser submetido à avaliação das autoridades colombianas. As Farc realizam suas ações quando consideram necessárias.

O grave problema para Uribe é que só faltam três aninhos para governar, e as Farc têm todo o tempo do mundo, são 39 anos de luta. Levaremos todo o tempo necessário para alcançar nossos objetivos. A pressa é do sr. Uribe. Não é da competência das Farc ver quem mata mais.

Folha de S.Paulo - No mês passado, o sr. anunciou o envio de uma proposta de negociação à ONU. Qual foi o teor dessa proposta?

Raul Reyes - O que temos pedido é uma negociação de paz com o Estado colombiano. Com um governo que esteja interessado em investir na paz, e não em continuar a guerra, não em continuar a eliminação dos colombianos como está fazendo Uribe. As Farc propõem iniciar um diálogo, mas depois que o governo desmilitarizar dois Departamentos [Estados], Caquetá e Putumayo.

O que solicitamos à ONU é que, assim como tem ouvido várias vezes o governo colombiano e o próprio Uribe, que também nos receba como uma nação política, revolucionária e de oposição ao governo colombiano para explicarmos o nosso ponto de vista.

Folha de S.Paulo - As Farc já receberam alguma resposta da ONU?

Reyes - Sim, recebemos do próprio secretário-geral [Kofi Annan] uma resposta muito positiva, dizendo que tem o maior interesse em estabelecer um diálogo conosco e insinuou que poderia ser no Brasil. Gostaria muito que fosse no Brasil, um país irmão da Colômbia. Mas não há nenhuma definição até agora, nem por parte da ONU nem por parte das Farc.

Folha de S.Paulo - Essa proposta de negociação não é um recuo das Farc?

Reyes - Não, de forma alguma, as Farc não erraram porque foi Pastrana quem interrompeu o diálogo. A comunidade internacional sabe que as Farc até a última hora enviaram propostas viáveis para a continuidade do diálogo, mas o governo já tinha decidido liquidar o processo de paz.

Folha de S.Paulo - A ruptura ocorreu após as Farc terem sequestrado o senador Jorge Gechem Tubay. Uma ação dessas não é um convite à interrupção das negociações?

Reyes - Não, porque os diálogos ocorriam em meio à guerra. Não havíamos assinado nenhum cessar-fogo bilateral.

Folha de S.Paulo - Mas o senador não era um alvo militar.

Reyes - Na Colômbia os senadores legislam contra o povo, pressionam os trabalhadores com mais impostos, aprovam leis contra a insurgência, aprovam todas as leis repressivas.

Folha de S.Paulo - Como as Farc definem uma ação militar legítima?

Reyes - O objetivo é a captura desses senadores e deputados para conseguir a liberação dos guerrilheiros e guerrilheiras que estão nas prisões colombianas. O governo tem se negado a assinar um acordo de troca humanitária.

Folha de S.Paulo - As Farc são acusadas de executar atos terroristas em cidades, como o ocorrido em fevereiro, em Bogotá, com 36 mortos.

Reyes - As Farc não têm nenhuma responsabilidade sobre essa ação em Bogotá. Mas, logo depois que os EUA decidiram classificar como terroristas todas as organizações contrárias à sua política, na Colômbia, Uribe também chama de terroristas todas as ações que interessam ao povo.

Folha de S.Paulo - Como tem sido o contato entre as Farc e o governo do Brasil?

Reyes - Agora, nenhum. Estamos muito interessados em um contato direto, porque as Farc têm como política estabelecer relações políticas com governos, para explicar a eles que temos uma política que consiste em não realizar operações militares fora do território colombiano.

Folha de S.Paulo - Qual é a sua avaliação do governo Lula?

Reyes - Tenho muita esperança em que o governo Lula se transforme num governo que tire o povo brasileiro da crise. Lula é um homem que vem do povo, nos alegramos muito quando ele ganhou. As Farc enviaram uma carta de felicitações. Até agora não recebemos resposta.

Folha de S.Paulo - Vocês têm buscado contato com o governo Lula?

Reyes - Estamos tentando estabelecer --ou restabelecer-- as mesmas relações que tínhamos antes, quando ele era apenas o candidato do PT à Presidência.

Folha de S.Paulo - O sr. conheceu Lula?

Reyes - Sim, não me recordo exatamente em que ano, foi em San Salvador, em um dos Foros de São Paulo.

Folha de S.Paulo - Houve uma conversa?

Reyes - Sim, ficamos encarregados de presidir o encontro. Desde então, nos encontramos em locais diferentes e mantivemos contato até recentemente. Quando ele se tornou presidente, não pudemos mais falar com ele.

Folha de S.Paulo - Qual foi a última vez que o sr. falou com ele?

Reyes - Não me lembro exatamente. Faz uns três anos.

Folha de S.Paulo - Fora do governo, quais são os contatos das Farc no Brasil?

Reyes - As Farc têm contatos não apenas no Brasil com distintas forças políticas e governos, partidos e movimentos sociais. Na época do presidente [Fernando Henrique] Cardoso, tínhamos uma delegação no Brasil.

Folha de S.Paulo - O sr. pode nomear as mais importantes?

Reyes - Bem, o PT, e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas...

Folha de S.Paulo - Quais intelectuais?

Reyes - [O sociólogo] Emir Sader, frei Betto [assessor especial de Lula] e muitos outros.

Folha de S.Paulo - No Brasil, as Farc têm a imagem associada ao narcotráfico, em especial com o traficante Fernandinho Beira-Mar. A Polícia Federal concluiu que ele esteve na área das Farc junto com Leonardo Dias Mendonça. O sr. confirma?

Reyes - Não sou um policial, sou um revolucionário. A Colômbia não é tão grande como o Brasil, mas tem 1.142.000 km2, e as Farc estão presentes em todo o país. Qualquer um que chegue do Brasil, da Europa ou dos EUA a qualquer um dos Departamentos da Colômbia, pode vir a ter contato com a guerrilha.

Folha de S.Paulo - A PF afirma que as Farc forneceram cocaína a Fernandinho em troca de armas.

Reyes - A polícia diz qualquer coisa, porque recebe ordens para dizer e inventar coisas.

Folha de S.Paulo - As Farc mantêm relação com traficantes brasileiros?

Reyes - Que eu saiba, nenhuma. Isso faz parte da campanha para justificar o que os EUA estão fazendo na Colômbia, intervindo nos assuntos internos do país. Mas os EUA não combatem o narcotráfico em seu próprio território. Os camponeses colombianos produzem coca e papoula, são trabalhadores da terra. Quem compra? Os narcotraficantes do mundo. E quem consome? Os gringos.

Folha de S.Paulo - Qual é a relação entre as Farc e os traficantes que compram droga dos camponeses?

Reyes - As Farc cobram imposto desses comerciantes, que compram dos camponeses. Não apenas dos que vendem coca, mas também dos que produzem grandes quantidades de soja, arroz, milho. Não se cobra dos camponeses, mas dos comerciantes.

Folha de S.Paulo - As Farc têm sido acusadas de produzir sua própria coca.

Reyes - Absolutamente falso, as Farc são uma organização revolucionária, que luta pelo poder. Produzimos alimentos para nossos guerrilheiros. A cocaína é um veneno.

Folha de S.Paulo - Recentemente, houve um grande problema diplomático entre Brasil e França por causa de uma suposta negociação daquele país com as Farc para libertar a ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt. As Farc negociaram com o governo francês?

Reyes - Nenhuma negociação. Tudo o que nós sabemos foi o que saiu na imprensa. A notícia nos surpreendeu. Ela está muito bem de saúde e de ânimo, mas está triste, como estão todos os que não recuperaram sua liberdade, alguns nos presídios do Estado colombiano, tristes porque não podem sair de lá. Os que estão na selva também estão tristes. Por isso, estão muito interessados na troca de prisioneiros para que todos recuperem sua liberdade.

Folha de S.Paulo - Que relação as Farc mantêm com o governo venezuelano?

Reyes - Estamos propondo ao governo de Hugo Chávez uma explicação sobre a política das Farc em relação aos países vizinhos.

Folha de S.Paulo - Existe contato ou não?

Reyes - Temos informações muito positivas sobre Chávez, um bolivariano patriota que luta pela dignidade do seu povo. Nós o admiramos muitíssimo.

Folha de S.Paulo - O sr. acredita numa intensificação da ajuda militar americana à Colômbia?

Reyes - É possível que aumente, é o que tem feito o sr. Bush e é o que Uribe está pedindo aos gritos. Ele está desesperado porque não pode alcançar nenhum resultado contra a guerrilha. Uribe é um fantoche norte-americano. Funcionários americanos vêm à Colômbia em romaria para ver se Uribe está realizando as tarefas direito.
*
Bases militares dos EUA: neocolonialismo e impunidade
Por Renan Vega*

Alguns autores dizem que as bases militares substituem o clássico ou antigo poder colonial,
os antigos territórios coloniais. Porque, de fato, os EUA estão espalhados por todo o mundo.
mundo, nas bases, a tal ponto que nem os pesquisadores mais exaustivos sabem,
Rigorosamente, quantas bases os EUA têm, porque isso é coberto por segredo. Mas o
Pesquisadores, digamos mais sérios, mais sistemáticos, dizem que essas bases podem chegar
para serem 1.250 bases militares.

Os EUA reconhecem oficialmente 700, mas pesquisadores dizem que pode haver até 1.000.
1.250 bases militares. Por que essa lacuna de quase 500? Por muitas razões. Em primeiro lugar
lugar, porque a questão das bases também está mudando.

Às vezes, habituámo-nos a pensar que quando falamos de bases norte-americanas,
Estamos falando das bases mais visíveis, maiores e mais permanentes, onde
Sempre há militares que estão lá há, digamos, décadas. Como as bases no Japão, para
exemplo, Okinawa, Japão. As bases de Guam, as bases de Diego Garcia, no Pacífico,
A base de Guantánamo, que está lá há um século, mais de um século: 120 anos, certo? Então,
assumimos que todas as bases são assim: não. As bases militares também estão mudando. E
estão mudando em que medida: na medida em que o imperialismo também se adapta às
situações. Então, nos lugares onde há menos resistência, estão as bases.
visível, as mesmas bases de sempre.

Mas, nos lugares onde há alguma oposição, resistência, denúncia, os EUA
estabelece outro tipo de bases, bases, digamos, mais circunstanciais. Por exemplo, em
Existem muitos lugares no mundo onde as bases dos EUA só os atendem,
o que é importante, é claro, para reabastecer aviões. Digamos que eles são
bases de trânsito, por exemplo, que é muito importante: por causa da autonomia de voo do
navios, para controle, para informação, para muitas circunstâncias. Existem muitas bases que
elas funcionam assim.

Existem outras bases que são de média instância, ou seja, de média duração; são muito diversas.
Então, essas bases estão espalhadas por todo o mundo. E um lugar privilegiado onde
Essas bases estão espalhadas por todo o território latino-americano e foram precisamente
Um dos mapas que eu queria mostrar para vocês, para verem como existem bases militares na América
dos EUA, incluindo o próprio território dos EUA. Ou seja, os EUA têm bases
militares em seu próprio território, e isso parece uma piada, certo? Os EUA têm lugares que são
praticamente cidades, existem bases militares dos EUA que têm 130 mil habitantes,
exemplo.

São cidades isoladas onde ninguém dos EUA pode ir, muito menos
menos, e lá eles preparam seu pessoal, treinam, usam armas, e dali para baixo, do Rio
Bravo abaixo, as bases estão espalhadas por todo o continente e, principalmente,
concentrada na América Central e no Caribe; Principalmente, eles estão concentrados lá desde
há muito tempo atrás.

Mas isso tem se acentuado, nos últimos 15-20 anos, e está relacionado à emergência
do governo bolivariano da Venezuela. E então é bom ver nesses mapas como é
estava cercando a Venezuela Bolivariana.
É uma cerca geoestratégica do Caribe, da Amazônia, da zona andina, de todo o território
Venezuelano e que foi reforçado, e aí é preciso dizer que a Colômbia desempenha um papel
papel fundamental; Infelizmente, fundamental, muito importante para os EUA,
porque na Colômbia o estabelecimento de bases militares formais foi organizado e
informal, reconhecido e não reconhecido, marítimo e terrestre para completar a cerca
contra a Venezuela.

E nesse sentido, então, eu tenho que dizer o seguinte: as pessoas sempre falam sobre os sete
Bases militares dos EUA na Colômbia. Devo dizer que essa informação é falsa. É
falso porque não são sete. Existem entre 40 e 50 bases militares. Ou seja, a informação é falsa,
por defeito, não por excesso; padrão.
Entendendo “bases” de que forma: alguns autores, até aqui, chamam de “quase bases”,
bases e quase-bases. Então, do que estamos falando? Existe um domínio de
espectro completo que é militar, que é mídia, que é cultural, que é informativo, que
É comunicativo.

E o que é importante hoje, é activar, por exemplo, a criação de radares, e a
O território colombiano está cheio de radares. Do Caribe colombiano até Letícia, é
Ou seja, atravessam todo o território colombiano a partir da zona insular do Caribe colombiano.
Existem radares até na selva amazônica deste país, e existem radares que circundam toda a fronteira.
com a Venezuela, a fronteira com o Equador, a fronteira com o Panamá.
Então estamos falando de localizações geoestratégicas gerenciadas diretamente
por pessoal dos EUA. Então aqui é bom levantar uma coisa: acontece que quando você
Ele estava falando sobre as famosas sete bases, que levaram à assinatura de um acordo vergonhoso,
30 de outubro de 2009, entre a Colômbia e os EUA. Acontece que isso foi jogado de volta
depois, em termos legais pelos tribunais colombianos e daí em diante, então, aqui
Na Colômbia dizem que não há bases militares dos EUA.

Isso é um sofisma, porque a Colômbia é um país que cultiva formas e formas legais.
Então, presume-se que o que não existe legalmente, não existe na realidade.
Acabámos de ver, ontem o Ministério Público declarou que Uribe deveria ser exonerado das acusações
este julgamento prolongado que já dura 10 anos. Estas são as formas legais. Isso não significa
que o cara não é um criminoso. Isso não significa que o cara não seja um criminoso. Bem, é isso
A mesma coisa acontece com as bases, com as bases estabelecidas.

Formalmente, os tribunais anularam-nas, mas as bases continuaram a funcionar e
Mesmo com acordos secretos nos quais os próprios EUA e o governo colombiano dizem não.
Devem ser estabelecidos acordos formais que passem pelo parlamento, muito menos,
acordos secretos que permitem que os militares dos EUA e seus mercenários
entrar na Colômbia, como Pedro em casa, sem passaporte, sem nenhum tipo de exigência. E
essa é a situação em que nos encontramos.

Mas o outro elemento que quero destacar é que há também uma militarização interna.
da sociedade colombiana ligada à militarização externa. E aqui eu tive outros também
mapas, sobre algo chamado “batalhões de mineração-energia e infraestrutura”
que fica na Colômbia. E acontece que nesses mapas é isso que podemos ver.
Agora, os mapas são falados, vou fazê-los falar. Em território colombiano, de
De norte a sul, existem os que aqui se chamam “batalhões de mineração-energia e infraestruturas”.
que eles ocupam, e esses são dados de 2015, estão desatualizados, porque aqui é difícil conseguir
informações atualizadas sobre o que isso significa.

Em 2015, 82.000 soldados foram empregados. 82.000 soldados: um terço das Forças Armadas
do exército colombiano estavam engajados nos batalhões de mineração e energia do sul ao norte.
E o que esses batalhões de mineração-energia estão fazendo? Bem, eles estão na entrada de uma refinaria.
na entrada de uma mina de carvão, na entrada de uma mina de ouro, de uma mina de cobre, numa
ponto fundamental da infraestrutura rodoviária, numa ponte, e na maioria dos locais que
Meu parceiro está nos mostrando lá no mapa.

Em muitos desses lugares há uma presença direta ou indireta dos EUA. Porque eles são
conselheiros, porque são mercenários. Para esse tipo de, digamos, fatos reais, porque
eles lidam com as informações. Então, aqui você pode ver, precisamente, o mapa da presença
Militares dos EUA em território colombiano. Neste mapa devemos sobrepor o mapa de
os batalhões de mineração-energia; e o que nos daria como resultado: que a Colômbia é um dos
os países mais militarizados do mundo, os mais terrivelmente militarizados do mundo.
Recordemos que, nos últimos 20 anos, o exército colombiano é um dos 5 exércitos
que mais cresceu no mundo. E pelo pessoal que tem, porque o total da
As Forças Armadas, neste país, somando o exército, a marinha, a aviação, a polícia, que é uma força
militares, serviços secretos e outros: temos 500 mil pessoas. Ou seja, é um exército que
É quase do mesmo tamanho que o Brasil, com a diferença de que o Brasil é 4-5 vezes maior.
população do que a Colômbia.

É uma sociedade terrivelmente militarizada. E é por isso que não é de estranhar que neste país
cometeu o que hoje é chamado de "o pior genocídio do século XX", que é o que é chamado,
eufemisticamente, como falsos positivos. Ontem, quando Uribe estava parcialmente
exonerado, ele postou um post no Twitter dizendo: “Graças a Deus por este passo positivo”. Deveria ser
digamos, na verdade, graças a Deus por esse falso positivo, que é de pelo menos 10 mil
Os colombianos mortos pelo exército e pelos batalhões que organizaram o assassinato foram
preparado na Escola das Américas.

Dessa forma, temos como se fecha o círculo de militarização de uma sociedade.
Não só para dentro, mas para fora, porque desde a Colômbia se fazem os preparativos
agressões ao resto do território e, no dia 1º de março, uma
outro aniversário fatídico do massacre de Sucumbios de 1 de março de 2008, quando
26 pessoas foram massacradas por um bombardeiro pilotado por pilotos americanos:
partiu de uma base militar, com aconselhamento israelo-americano, em território
Colombianos, quando foram massacrados, entre eles, Raúl Reyes, e 4 estudantes mexicanos
que nunca haviam entrado em território colombiano.


Então, mais ou menos, era isso que eu queria passar para vocês. Eu não vou mais abusar de você
Era uma questão de tempo e sou grato pelo convite de Chema. É uma pena não poder comparecer.
apresentar todos os mapas.

*Renán Vega é pesquisador independente e professor da Universidade Pedagógica Nacional de Bogotá.
Autor de livros sobre a influência do imperialismo na vida colombiana e latino-americana. F
Membro da Comissão Histórica sobre o Conflito Armado e suas Vítimas, nomeado em Havana
Vencedor do Prêmio Libertador de Pensamento Crítico, versão 2007-2008, com o livro Um mundo
incerto.

Este é um trecho de sua apresentação que foi realizada em 7 de março de 2021 no Canal do Youtube
“TeCs Tertulias en Cuarentena” promovido por Txema Sánchez no contexto da Conferência de Quarentena
Fala sobre a OTAN.
Transcrição: Pablo Ruiz
SOAWatch - www.soaw.org 
*
FARC-EP EXIGE DEVOLUÇÃO DOS RESTOS MORTAIS DE RAÚL REYES

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP) exigiram hoje nesta capital a devolução dos restos mortais do Comandante Raúl Reyes, que perdeu a vida em um atentado a bomba em um dia como hoje em 2008.

Ivan Márquez, chefe da delegação das FARC-EP nas negociações de paz com representantes do governo colombiano — que nesta sexta-feira chega ao seu sexto ciclo — descreveu como paranoica e degradante a atitude do governo colombiano em manter os restos mortais de Reyes apreendidos.

Denunciamos – enfatizou Márquez – a perfídia que representa este ato desumano e cruel do Estado, e apontamos o General Rodolfo Palomino, da Polícia Nacional, como responsável.

Solicitamos oficialmente ao governo do Equador, com base nas normas do Direito Internacional Humanitário, que repatrie os restos mortais de nossos combatentes para que seus familiares e amigos possam sepultá-los em sua terra natal, explicou.

Em suas palavras de homenagem, Márquez lembrou que em 1º de março de 2008, violando o direito internacional e a soberania de um país, forças do governo colombiano bombardearam um acampamento das FARC-EP em território equatoriano, muito próximo à linha de fronteira.

O uso desproporcional da força - lamentou o líder guerrilheiro - resultou na morte de Reyes, 20 combatentes de seu grupo, quatro estudantes mexicanos e um cidadão equatoriano.

As FARC-EP e o governo colombiano estão imersos em um diálogo de paz, iniciado em Havana em 19 de novembro, que está estruturado com três dias de conversas e um dia de retirada, e com a questão da terra no centro da reaproximação, para pôr fim a décadas de conflito no país sul-americano.

Além do tema agrícola, a pauta inclui a participação política, o fim do conflito, o problema do narcotráfico, a atenção às vítimas e os mecanismos de validação e verificação do que foi acordado na mesa de diálogo.
Fonte:
Imprensa Latina
Data:
01/03/2013
Uribe será lembrado como mafioso, para-militar, bufão....
Artigo enviado por Raúl Reyes à ANNCOL, 
traduzido por Inverta

Quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O Presidente Álvaro Uribe será lembrado, na Colômbia e no Mundo, como mafioso, paramilitar, bufão, grosseiro, caluniador e mentiroso a qualquer prova.

O pior governo dos últimos tempos não pode ser lembrado de outra maneira. Trata-se do engendro criminoso das máfias do narcotráfico com paramilitares, latifundiários, grandes pecuaristas, os militaristas e os remanescentes da ultra-direita cavernosa do bipartidarismo liberal-conservador. Os mesmos responsáveis pela pobreza, pela miséria, pela exploração, saque, corrupção, indignidade e repressão estatal sobre os trabalhadores, os camponeses e o povo colombiano nos últimos 50 anos.

É tanta palhaçada e grosseria do governo da para-política, que o mesmo se acha no direito de impor sua cartilha de infâmias contra a oposição política revolucionaria colombiana aos demais governos, esses sim legítimos, com prestígio, disposição e futuro luminoso, enquanto que seu governo é de minorias, fraudulento e, portanto, ilegal e ilegítimo. Não é casual que a imensa maioria de congressistas e políticos convocados para os inquéritos sobre a para-política, os massacres e as migrações forçadas seja parte substancial da coalizão governamental.

Além de amigos, sócios e cupinchas seus, que com seus votos durante as duas eleições presidenciais o levaram ao poder. Por ser Uribe o primeiro responsável e beneficiário direto da narco-para-política, deveria renunciar a seu espúrio mandato.

A renúncia imediata de Uribe junto a todo seu governo garantiria a libertação com vida dos prisioneiros, mediante a assinatura do acordo humanitário sem mais travas – que negam o acordo em troca de persistir em dementes posições inamovíveis e na arriscada política de recuperação forçada.

Os governos povos amigos do acordo humanitário e da paz da Colômbia voltarão a ser respeitados e reconhecidos por suas boas gestões, sempre que as mesmas partam da solicitação expressa das partes enfrentadas. As saídas políticas acordadas com as organizações guerrilheiras, revolucionárias do povo, com os operários, camponeses, estudantes, indígenas e afro-descendentes, que sofrem com a obstrução obstinada imposta pela vergonhosa administração fascista atual, voltariam a recuperar seus espaços, em proveito da paz com justiça social, da democracia real e das liberdades.

As palhaçadas, as grosserias, as calúnias e as mentiras deste governo nunca mais poderão se repetir, por respeito a nós mesmos e à comunidade internacional, visando assim a encerrar este vergonhoso e escuro trecho de nossa turbulenta história de guerras, ineqüidades sociais, políticas e econômicas.

Montanhas da Colômbia, dezembro de 2007
ÚLTIMAS ENTREVISTAS COM O COMANDANTE RAÚL REYÉS
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O FALSO CONCEITO DE POPULISMO * A TRICONTINENTAL

 O FALSO CONCEITO DE POPULISMO

O falso conceito de populismo e os desafios da esquerda: Uma análise da situação política no Atlântico Norte.

Nos últimos 15 anos, o termo populismo tem sido amplamente utilizado para se referir a forças políticas que parecem desafiar o consenso neoliberal, mas será que estas forças representam realmente uma ruptura com o neoliberalismo?

Nos últimos 15 anos, o conceito de “populismo” ressurgiu fortemente. O termo é utilizado na Europa e na América do Norte para descrever forças políticas aparentemente fora do consenso neoliberal da vida política. Durante quase 50 anos, as forças políticas neoliberais fomentaram a ideia de que seriam os administradores do sistema capitalista e que, mesmo quando ocorresse uma mudança de governo, não haveria nenhuma mudança real no consenso neoliberal, conhecido na década de 1990 como o Consenso de Washington. Consenso. Na altura, referia-se a um conjunto de prescrições políticas de mercado livre consideradas o pacote de reformas “padrão” promovido para os “países em desenvolvimento”. Hoje, o termo deve ser expandido para incluir alguns aspectos-chave, como a necessidade de aceitar o capitalismo como eterno, reduzir os aspectos do Estado que proporcionam bem-estar social e regulam os negócios, expandir o aparato repressivo do Estado para evitar qualquer desafio ao status quo e reconhecer a centralidade dos Estados Unidos como líder do sistema mundial.

Nas décadas de 1970 e 1980, os partidos que costumavam ser social-democratas (a esquerda) e os partidos tradicionalmente conservadores (a direita) começaram a migrar para o pacto neoliberal, e a defesa deste novo consenso turvou as divisões tradicionais e criou a possibilidade de uma democracia tecnocrática. futuro. Por outras palavras, estas forças neoliberais não estavam enraizadas num partido, mas em vários, e cada um destes partidos estava comprometido, apesar das suas origens, com os termos do pacto neoliberal. Por exemplo, nos Estados Unidos, os partidos Democrata e Republicano aderiram plenamente a este consenso neoliberal na década de 1990, após o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Na Europa, as diferenças entre os social-democratas e os democratas-cristãos foram silenciadas quando estes também adoptaram o consenso neoliberal como seu.

Durante a Terceira Grande Depressão, desencadeada pela crise hipotecária nos Estados Unidos em 2006, e actualmente ainda em curso, começaram a aparecer novas formações que desafiaram o consenso neoliberal e se posicionaram à margem do seu centro. Estas forças políticas, tanto da atual extrema direita como da esquerda eleitoral do Atlântico Norte, começam a autodenominar-se “populistas” (Prashad, 2024) 1 . Embora o termo populista tenha sido geralmente usado de forma confusa e vaga desde o século XIX, na ciência política geralmente refere-se a políticas anti- establishment . Por esta definição, se o establishment actual é o centro neoliberal, então qualquer desafio que lhe seja feito será certamente populista. Este dossiê tentará oferecer uma definição mais precisa do termo, além de estabelecer linhas claras entre o pacto neoliberal, a atual extrema direita e a esquerda eleitoral do Atlântico Norte (as lições para a esquerda têm sua origem na experiência do Atlântico Norte, mas pode ser significativo em outros lugares).

A “atual extrema direita”

A primeira aparição do termo populismo no nosso tempo ocorreu quando as actuais forças de extrema-direita surgiram em toda a Europa, principalmente na Europa Oriental. Um primeiro exemplo deste tipo de tendência política apareceu na Polónia com o Partido Lei e Justiça (Prawo i Sprawiedliwość, PiS), fundado em 2001 pelos irmãos gémeos Jarosław e Lech Kaczyński e que posteriormente se tornou o principal partido nas eleições gerais de 2005. O PiS estava orientado para a Igreja Católica e para a intervenção económica do Estado, um movimento em ambos os sentidos, social e económico, contrário ao tipo de consenso o neoliberalismo da União Europeia (que estava enraizado no liberalismo social, na desregulamentação económica e nos mercados abertos). Eventualmente, os gémeos Kaczyński ocuparam cargos públicos importantes, com Lech como presidente da Câmara de Varsóvia (2002-2005) e depois presidente da Polónia (2005-2010), e o seu irmão Jarosław como primeiro-ministro (2006-2007). O fenómeno polaco espalhou-se rapidamente pela Hungria, com o partido Fidesz de Viktor Orbán inicialmente formado em 1988 como uma força de centro-esquerda antes de se desviar para o centro neoliberal e, eventualmente, para um nacionalismo húngaro socialmente conservador. Também na Áustria, entre 1986 e 2000, onde Jörg Haider transformou o Partido da Liberdade Austríaco (Freiheitliche Partei Österreichs, FPÖ), conduzindo-o de uma postura centrista para um nacionalismo anti-imigração e socialmente conservador.

Eventualmente, este novo fenómeno espalhou-se pelo resto da Europa, desde a Lega per Salvini Premier (LSP) de Matteo Salvini em Itália até ao Rassemblement national (RN) de Marine Le Pen em França. Estes partidos uniram-se no Parlamento Europeu e posteriormente separaram-se em diferentes entidades políticas, como o Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (desde 2009), Europa das Nações e da Liberdade (2015-2019), Identidade e Democracia (2019-2024). e Patriotas pela Europa (desde 2024), além do grupo Europa das Nações Soberanas (desde 2024). Esta união e a subsequente dissolução sugerem tanto uma unanimidade geral de opinião entre estes actuais partidos de extrema-direita como diferenças significativas. O que os diferenciou do pacto neoliberal foi principalmente o seu conservadorismo social aberto, o seu compromisso com algumas formas de nacionalismo económico e o seu cepticismo retórico sobre o projecto europeu.

Contudo, estes partidos políticos não romperam fundamentalmente com o consenso neoliberal quando chegaram ao poder. A maior parte deles continuou a adoptar políticas de desregulamentação empresarial, de austeridade social e de compromisso com o mercado europeu. Nenhum destes partidos adoptou, no Parlamento Europeu ou nos seus próprios parlamentos nacionais, políticas fortes de proteccionismo económico e de bem-estar social, nem seguiram os eurocépticos britânicos com a sua própria versão do Brexit. Quando os burocratas europeus introduziram novas leis destinadas à integração do mercado europeu ou à resposta à necessidade de políticas orçamentais mais equilibradas, os actuais partidos de extrema-direita aderiram de bom grado. Embora afirmassem não seguir o consenso económico neoliberal, certamente não romperam com os acordos de segurança atlânticos que subordinavam a Europa à agenda política geral estabelecida pelos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Apesar das suas dúvidas ocasionais sobre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a maioria dos países governados pela actual extrema-direita desempenhou confortavelmente o seu papel na aliança. O primeiro-ministro italiano, Giorgia Meloni, dos Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália, FDL), é um exemplo disso.

Em 2024, a insistência de Washington para que os países europeus gastassem pelo menos 2% do seu Produto Interno Bruto (PIB) nas suas forças armadas e contribuíssem mais para a OTAN, fez com que 23 dos 32 membros da OTAN se comprometessem a alcançar ou exceder esse objectivo (em comparação com apenas três membros em 2014) (McGerty, 2024). Quando os Estados Unidos quiseram que os países europeus reduzissem os seus laços económicos com a China em 2019 e os países europeus condenassem a Rússia após a invasão da Ucrânia em 2022, os estados europeus liderados pela extrema-direita aceitaram amplamente estas ordens. Na verdade, em muitos países europeus, a extrema direita de hoje aliou-se às forças neoliberais para formar governos ou absorveu antigos políticos neoliberais nas suas fileiras. Evidentemente, não houve nenhuma diferença real entre estas forças, pelo menos no que diz respeito à política económica e de segurança. A principal exceção é Victor Orbán, da Hungria, cuja presidência do Conselho da União Europeia em 2024 foi marcada por uma tentativa de travar o conflito na Ucrânia e impedir a expansão da NATO. No entanto, esta excepção não afectou grupos como a FDL de Meloni ou a Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD) de Alice Weidel, cujo compromisso com a NATO e as suas políticas é quase total.

Se a atual extrema direita não rompeu com o consenso neoliberal, por que foram chamados de “populistas”? O principal eixo de diferenciação utilizado pelo consenso neoliberal foi que a atual extrema direita era “iliberal”, enquanto eles próprios emergiram do liberalismo e estavam comprometidos com ele. É verdade que a actual extrema-direita afastou-se do liberalismo social e das formas tradicionais do libertarianismo dominante, através da sua religiosidade fortemente conservadora (anti-aborto, anti-feminismo, homofobia e transfobia) e do seu tradicionalismo geral (enraizado na família nuclear patriarcal e na Igreja, o que se traduz em acreditar numa liderança masculina forte na sociedade). Contudo, noutros aspectos não liberais (como as tentativas de restringir a liberdade de expressão e de capacitar as forças de segurança), havia pouco que os distinguisse do consenso neoliberal. O termo “populista” foi utilizado para diferenciá-los dos liberais, cujo liberalismo já não era do tipo clássico (liberdade de expressão e associação), mas sim um liberalismo de estilo de vida, centrado nas opções sociais da classe média. Portanto, o termo “populista” era mais um slogan eleitoral do que uma categoria séria de diferenciação política.

O exemplo mais claro desta forma de slogan eleitoral pode ser visto nos Estados Unidos. Uma análise detalhada da trajetória política do Partido Democrata e do Partido Republicano sugere uma semelhança muito maior em objetivos e ações do que se poderia supor. Há uma diferença de estilo entre os dois partidos, bem como distinções significativas no que diz respeito ao liberalismo das opções sociais. Mas há muito pouco no consenso neoliberal que os divida, apesar da retórica do nacionalismo económico que passou a definir o Partido Republicano, especialmente sob a liderança de Donald Trump. Com os termos “liberal” e “fascista” muito carregados em ambos os lados, é benéfico que os republicanos chamem os democratas de “liberais” (o que o tornou sinónimo de comunista) e que os democratas chamem os republicanos de “fascistas”, especialmente Trump. Esta terminologia permite que cada lado promova uma agenda eleitoral, mas nenhum dos dois termos, usados desta forma carregada, explica cientificamente o campo político a que se referem.

A palavra “fascista” adquiriu uma carga moral, que é útil no sentido diretamente eleitoral, mas não é útil para compreender adequadamente a atual extrema direita. Esta extrema direita não apareceu, como fez o fascismo há cem anos, para derrotar as lutas da classe trabalhadora e do movimento comunista, nem tem qualquer problema com as instituições formais da democracia. Os fascistas italianos e alemães queriam suprimir os sistemas democráticos e eleitorais e usar todo o aparelho repressivo do Estado para aniquilar o movimento da classe trabalhadora e as instituições comunistas. Hoje, o capitalismo não enfrenta tal ameaça no seu núcleo atlântico. A actual extrema-direita, em vez de aparecer como um baluarte do capitalismo contra as forças do socialismo, apresenta-se como um defensor do capitalismo contra a sua canibalização pelo pacto neoliberal, e como uma garantia de que as instituições capitalistas têm uma base de massas numa população desorientada pela o impacto da Terceira Grande Depressão. Ameaça “agarrar a economia pela garganta”, forçando-a a produzir empregos, mas não pode realmente forçar isto a acontecer. Basta que os actuais partidos de extrema-direita mencionem a crise e não a neguem, como fazem os partidos do consenso neoliberal, para que pelo menos as pessoas vejam a sua dor reflectida nos discursos dos políticos de extrema-direita. O facto de não agirem para mudar as condições reais da vida quotidiana acabará por ser um fardo para esta tendência política, mas ainda não.

Dado que o pacto neoliberal tem o aparelho repressivo do Estado tão desenvolvido para disciplinar a população indignada, a actual extrema-direita só tem de usar o aparelho repressivo legal e não criar uma força ilegal para fazer o seu trabalho (é verdade que a actual extrema-direita continua a usar doses homeopáticas de violência para desmoralizar a esquerda e o movimento operário, mas também sabe que se desencadear demasiada violência, isso colocará a classe média contra ele e poderá levar alguns sectores da classe média aos braços à esquerda). Esta extrema direita atual fala em nome do povo, mas não constrói políticas que o ajudem.  

A Terceira Grande Depressão e a esquerda eleitoral do Atlântico Norte

Nos anos que se seguiram ao início da Terceira Grande Depressão, um novo tipo de processo esquerdista começou a consolidar-se em ambos os lados do Atlântico (Tricontinental, 2023). Em 2015, Jeremy Corbyn (nascido em 1949), deputado de longa data por Islington North, Reino Unido, disputou e conquistou a liderança do Partido Trabalhista. Por sua vez, o senador Bernie Sanders (nascido em 1941), um socialista democrata de Vermont, tentou ganhar a nomeação presidencial do Partido Democrata para as eleições de 2016 nos EUA. Ambos os partidos, Trabalhistas e Democratas, tornaram-se ilustrações da marcha forçada da política social-democrata em direção ao. pacto neoliberal.

A insistência de Tony Blair para que o Partido Trabalhista cortasse a Cláusula IV da sua constituição (para a nacionalização em massa, ou "propriedade comum" da indústria privada) e a sua determinação em enfraquecer o poder sindical dentro do partido, foram um reflexo da chegada de Bill Clinton à liderança do Partido Democrata, através do Conselho de Liderança Democrática neoliberal, que eliminou qualquer influência exercida pelos sindicatos e movimentos sociais dentro da estrutura partidária até então. Quando a Terceira Grande Depressão começou, os Trabalhistas e o Partido Democrata não tinham o espaço institucional necessário para debater adequadamente uma saída do pacto neoliberal. A campanha de Sanders levou o debate a um partido que se recusou a levá-lo a sério. A liderança de Corbyn foi constantemente sabotada pela aliança neoliberal dentro do Partido Trabalhista, que não só fez com que ele perdesse a liderança, mas também foi expulso do partido por motivos espúrios. As experiências de Sanders e Corbyn demonstraram que ambos os partidos, e qualquer um dos seus instrumentos internos de debate, foram completamente absorvidos pelo pacto neoliberal e que nenhum desvio desse consenso seria permitido. Após a derrota de Sanders nas primárias presidenciais e a remoção de Corbyn como líder do Partido Trabalhista, não restou nenhuma organização de massas duradoura, excepto como um resíduo (os Socialistas Democráticos da América nos Estados Unidos e o Momentum no Reino Unido).

Noutras partes da Europa, os políticos anteriormente parte de partidos do establishment criaram grandes aparatos eleitorais à esquerda do consenso neoliberal: Syriza na Grécia (2012), Podemos em Espanha (2014) e La France Insoumise em França (2016). Estas tentativas de alcançar o poder eleitoral rapidamente ficaram conhecidas como “populismo de esquerda”, especialmente em 2015, quando o Syriza venceu as eleições gregas e o Podemos venceu as eleições regionais e federais em Espanha. Cada uma destas formações foi construída em torno de líderes únicos: Alexis Tsipras (nascido em 1974), que liderou o Synaspismos ou “Coligação” para a aliança Syriza [Das Raízes]. Pablo Iglesias (nascido em 1978), que liderou o Podemos e Jean-Luc Mélenchon (nascido em 1951), que deixou o Partido Socialista e mais tarde formou o La France Insoumise, a partir de uma coligação de forças verdes e de esquerda.

O Syriza e o Podemos, ao contrário do La France Insoumise, irromperam no firmamento político como um meteoro e depois desapareceram como alternativa credível ao neoliberalismo. Mais do que devido à sua falta de clareza ideológica, mas devido à oportunidade eleitoral oferecida pela rápida deterioração dos padrões de vida na Grécia e em Espanha durante os primeiros anos da Terceira Grande Depressão, as duas formações ruíram perante as poderosas certezas do centro neoliberal. . da União Europeia (UE). Nem o Syriza nem o Podemos conseguiram produzir uma linha política firme que se opusesse ao regime de austeridade do Banco Central Europeu (BCE). La France Insoumise não chegou ao governo, por isso não sofreu o mesmo destino. No entanto, é provável que se Mélenchon tivesse vencido as eleições presidenciais de 2017 (ficou em quarto lugar com 19,6% dos votos), o seu governo teria fracassado perante os burocratas da UE em Bruxelas e os financiadores do BCE em Frankfurt (Departamento de Pesquisa Statista, 2024).

Cada uma destas frentes políticas emergiu de movimentos de protesto em massa: a campanha nacional contra taxas e cortes no Reino Unido em 2010; Ocupar Wall Street nos Estados Unidos em 2011; o Movimento de Cidadãos Indignados na Grécia em 2011; o Movimento 15-M e os Indignados em Espanha em 2011 e as greves dos trabalhadores contra a austeridade em França em 2011, que se transformaram no NuitDebout [Night Standing] em 2016. Até certo ponto, a energia destes movimentos foi capturada devido a o eleitoralismo das frentes que surgiram, mas não foram capazes de promover as reivindicações políticas de movimentos tão díspares e estes por sua vez não se dissolveram em estas alianças eleitorais. Por exemplo, o forte sentimento anti-UE dos Indignados não foi transferido para o Syriza ou o Podemos, muito pelo contrário. La France Insoumise não foi o iniciador do Mouvement des gilets jaunes [Movimento dos Coletes Amarelos] em 2018, um movimento de protesto que quebrou a divisão esquerda-direita em França (estudos sobre quem se juntou aos protestos dos coletes amarelos mostraram que cerca de um quinto estava perto de a atual extrema direita, pouco menos de um quinto, estava próxima de La France Insoumise, mas apenas uma parte insignificante confiava no centro neoliberal representado pelo Partido Comunista; Presidente Emmanuel Macron) (Institut Montaigne, 2019). O aspecto chave destes movimentos de protesto popular é que queriam uma ruptura decisiva com a política do centro neoliberal, que impunha austeridade à classe trabalhadora e a sectores da classe média profissional nestes países. Mas as formações políticas que surgiram não tinham a clareza ideológica nem a força política para romper com o consenso neoliberal.

Parte da desconfiança eleitoral vem da tendência da democracia liberal burguesa de favorecer a classe média no formato dos seus sistemas eleitorais. O dia das eleições na maioria dos países do Atlântico Norte não é feriado e, na maioria, o voto não é obrigatório. Há também uma divisão religiosa interessante em relação ao dia da votação. A maioria dos países de tradição católica vota no domingo, o que não acontece nos países de tradição protestante. Além disso, em quase nenhum país o transporte público é gratuito no dia das eleições. A falta de férias e de transporte gratuito, bem como outras barreiras, dificultam o voto massivo da classe trabalhadora.

O resultado é uma grande abstenção da classe trabalhadora, a base natural dos socialistas. Nas eleições nacionais, ao longo das últimas décadas, a taxa de abstenção na Europa tem rondado os 30% e cerca de 40% nos EUA (Maruta, 2024; Electproject, 2024). No entanto, dados detalhados mostram algo significativo: a participação eleitoral diminui em países com elevadas taxas de desigualdade e com maior percentagem de mão-de-obra nos sectores pesqueiro e agrícola. Pelo contrário, em países com menor taxa de desigualdade e mais trabalhadores no setor dos serviços, registam-se taxas de votação mais elevadas (Maruta, 2024). Com taxas de abstenção mais elevadas entre a classe trabalhadora, há uma tendência para considerar qualquer frente política, especialmente uma que seja contra a austeridade, mas não necessariamente a favor de uma agenda da classe trabalhadora, para construir um programa dirigido à classe trabalhadora sofredora, média e baixa. classes médias que enfrentam sérios desafios de precariedade e colidem com as tradições da sua sociedade. Estes aspectos começaram a definir as frentes de esquerda do Atlântico Norte, que estavam mais enraizadas no eleitoralismo do que numa cultura de longo prazo de construção do poder da classe trabalhadora.

A categoria de “populismo”

O pacto neoliberal criou diversas condições para a ascensão da atual extrema direita e da esquerda do Atlântico Norte na sua manifestação eleitoral. Uma breve avaliação destas condições permitir-nos-á compreender melhor a íntima relação entre a atual extrema direita e o pacto neoliberal, bem como a fraqueza da esquerda do Atlântico Norte para romper com o neoliberalismo:A Terceira Grande Depressão. Devido às políticas económicas que favoreceram o capital financeiro e impuseram a privatização, a mercantilização e a desregulamentação da economia, não houve saída para a crise de crédito de 2006-2007 e nenhuma capacidade para fazer crescer as economias do mundo do Atlântico Norte. A incapacidade do pacto neoliberal de se opor ao poder oligopolista das finanças e ao controlo da sociedade pelos bilionários da tecnologia impôs uma situação permanente de austeridade à classe trabalhadora e à classe média mais baixa. Os empregos precários, sem futuro ou possibilidade de ascensão profissional, generalizaram-se e a uberização dos empregos da classe trabalhadora tornou-se comum (especialmente no setor de serviços). Estas condições de trabalho enfraqueceram os sindicatos, o que fez com que os pilares da classe trabalhadora como classe começassem a desaparecer (como as salas sindicais, os centros comunitários e as instituições públicas de estudo e de saúde). A insegurança dos horários e turnos de trabalho, bem como o desaparecimento das antigas instituições da classe trabalhadora, somado à chegada do mundo digital para o entretenimento, produziram uma profunda atomização da população. Uma classe trabalhadora sem meios para construir as suas próprias instituições tem grande dificuldade em articular as suas opiniões numa sociedade complexa e moderna. Se, além disso, os meios de comunicação social são cada vez mais monopolizados e dominados pelo consenso neoliberal, as opiniões da classe trabalhadora que foram articuladas não encontraram espaço nesse panorama mediático.A tecnocracia . O consenso neoliberal, livre do desafio de uma autêntica política da classe trabalhadora, começou a construir a ideia de tecnocracia como forma ideal de governo. Independentemente dos resultados eleitorais, o pacto neoliberal encontrou uma forma de manter os seus governos no poder, apesar do número decrescente de votos e dos mandatos fragmentados. Em alguns casos, como na Itália, onde existe um termo amplamente utilizado para este tipo de governo, governo dei tecnici [governo dos tecnocratas], isto aconteceu muitas vezes nas últimas décadas. Mais recentemente aconteceu com o governo de Mario Draghi de 2021-2022, como em França, a partir de 2024, com o governo do primeiro-ministro Michel Barnier. As ameaças aos sociais-democratas tradicionais, que não apoiam a austeridade, levaram-nos muitas vezes a formar coligações com tecnocratas do pacto neoliberal para manter a extrema direita afastada. Na verdade, estes governos tecnocratas preparam o terreno para a ascensão da extrema direita de hoje, à medida que deslegitimam as instituições governamentais e os processos democráticos aos olhos da classe trabalhadora e da extremidade inferior da classe média. Os especialistas que ingressam no governo são inteiramente profissionais de classe média alta fiéis à ideologia neoliberal. A jornada da direita tradicional e dos social-democratas para formar o pacto neoliberal significou uma viagem de uma política de massas para uma política de elitismo. Uma tecnocracia que é o oposto de uma democracia, mas que utiliza a democracia liberal para exercer o poder. Foi isso que levou em grande parte à defenestração do espírito democrático.A solução tecnocrática . Os governos do pacto neoliberal recusaram-se durante pelo menos uma geração, desde o início da década de 1990 até ao início da Terceira Grande Depressão em 2006-2007, a permitir qualquer debate político que se desviasse do seu consenso. A participação das massas na resolução dos problemas da sociedade simplesmente não foi apreciada. Durante o pior da crise financeira e de crédito e durante o pior da pandemia da COVID-19, não se viam em parte alguma no mundo do Atlântico Norte ações públicas massivas para aliviar os efeitos de ambos os eventos. A mensagem à população foi para se isolarem em casa até que os tecnocratas encontrassem uma solução na forma de uma vacina, opção quase exclusivamente disponível para a classe média e alta, cujo perfil profissional em muitos casos lhes permitia trabalhar remotamente. Em locais do Sul Global, como Kerala (Índia), Vietname, Cuba, Venezuela e China, milhões de voluntários, na sua maioria membros dos respetivos partidos comunistas, foram de casa em casa para garantir que as pessoas que não podiam sair tivessem tudo. necessário. E quando o slogan “distanciamento social” se tornou comum durante a pandemia da COVID-19, o ministro-chefe comunista de Kerala, Pinarayi Vijayan, decidiu desafiá-lo com um melhor: distância física, unidade social (Raghavan, 2020). Este tecido social não existe na maior parte do mundo do Atlântico Norte, onde a população passou a depender do Estado ou do sector privado para obter bens e serviços. A desmobilização da população, que é outra forma de apelar à desintegração das comunidades mais antigas que estavam enraizadas na classe trabalhadora, ficou evidente durante a pandemia da COVID-19. Parte da razão pela qual há menos exemplos de voluntariado e serviço público na Europa e nos Estados Unidos é que a população – que enfrenta condições de trabalho precárias e dificuldades na gestão da vida quotidiana impulsionada pela austeridade – tende a acreditar na ideia de que o Estado, liderada por tecnocratas e pelo sector privado, fornecerá bens e serviços.Ausência de palavras para a classe trabalhadora. Na década de 1990, a linguagem de classe desapareceu lentamente do discurso público no Atlântico Norte. Em vez de uma política de classe aberta nos espaços social-democratas – e em muitos casos mesmo em espaços localizados mais à esquerda – estabeleceu-se uma oposição binária entre a linguagem de classe (considerada anacrónica) e a linguagem da identidade (que se tornou o principal impulso de muitos movimentos sociais). Esta foi uma distinção falsa, porque a maioria das formações políticas que surgiram a partir do século XIX adoptaram ambas as formas de classe e de identidade (que se manifestaram, por exemplo, através da questão da autodeterminação nacional ou dos direitos humanos das minorias). , e através da questão da emancipação das mulheres). Mas o estabelecimento destas línguas como oposições binárias operou para marginalizar a linguagem de classe (que foi substituída no legado social-democrata por uma preocupação com a desigualdade). A política de identidade ou a política de reconhecimento tornou-se a principal abordagem neste ambiente neoliberal. A emergência da extrema-direita de hoje, há vinte anos, parece ter perturbado esta oposição binária. A política de identidade foi uma parte fundamental da extrema direita, que pretendia provocar uma série de mudanças através de uma guerra cultural (sobre a família e sobre os direitos das mulheres). Contudo, agora esta extrema direita vangloriava-se de falar à classe trabalhadora e à classe média baixa, afirmando que estes sectores tinham sido ignorados pelos “globalistas”. A extrema direita construiu novas coligações que incluíam secções que não tinham votado em vários ciclos eleitorais, mas cujos números eram consideráveis e poderiam influenciar qualquer eleição (Bozonnet et al., 2024). Isto ficou claro com a rápida ascensão de Donald Trump dentro do Partido Republicano, que ele transformou, através desta base recém-adquirida, num partido da extrema direita de hoje. É por causa deste pivô retórico em direcção à classe trabalhadora e à classe média baixa que os observadores começaram a rotular estas forças políticas como “populistas”.Pseudo ruptura com o neoliberalismo . A devastação do cenário neoliberal proporcionou aos actuais partidos de extrema-direita a oportunidade de argumentar que o pacto neoliberal de austeridade permanente tinha falhado e que eles seriam o instrumento das populações abandonadas. A extrema direita fez uma pseudo-ruptura com o consenso neoliberal, pelo menos retoricamente, revivendo uma velha linguagem de nacionalismo económico e aliando-se ao “povo” e contra as “elites” (Prashad, 2024). Contrariamente a todos os factos, a extrema direita utilizou uma linguagem anti-austeridade para criar uma narrativa de que a política neoliberal pró-imigração estava a gerar austeridade e que uma linha firme contra a imigração colocaria a economia nacional de volta no caminho certo. Este foi um uso malicioso do argumento anti-austeridade, mas atraiu um novo eleitorado empobrecido da classe trabalhadora e propôs um afastament o do tipo de programa de globalização impulsionado pelos neoliberais. Na prática, porém, o tipo especial de extrema-direita não estava disposto a provocar qualquer ruptura real com o consenso neoliberal.

O termo “populista”, tal como é usado para descrever a actual extrema-direita, é suficiente se apenas se referir a uma possível política pós-neoliberal que possa servir o “povo”. Mas o conceito é insuficiente se implica a possibilidade de uma ruptura necessária com o consenso neoliberal. A actual extrema-direita é dramática com o seu anti-neoliberalismo, mas não está disposta a pôr em prática os seus gestos teatrais.
O historicismo da esquerda

A esquerda é composta por uma variedade de forças históricas reais que estão em movimento dentro de cada contexto diferente para promover certos princípios importantes. Os elementos centrais dos princípios da esquerda são dois:Que o capitalismo é incapaz de resolver os problemas que criou e reproduziu.
Que o socialismo é o antídoto necessário para o bloqueio da história pelo capitalismo.

As variedades da esquerda não se sobrepõem às actuais forças de extrema-direita, profundamente anticomunistas e enraizadas no sistema capitalista, que emergem dos sectores mais horrendos da direita. Usar a mesma categoria de populismo para descrever a esquerda e a extrema-direita de hoje é uma tática política maliciosa usada para deslegitimar a esquerda. A situação específica em que a esquerda do Atlântico Norte teve de operar necessita de alguma clareza empírica e teórica.

A esquerda do Atlântico Norte, tanto eleitoral como não eleitoral, herdou desafios importantes:A esquerda em crise. Após a queda da URSS, a esquerda eleitoral no Atlântico Norte entrou numa grave crise que teve diversas consequências. Entre eles, o desaparecimento de um dos maiores partidos comunistas da região, o Partido Comunista Italiano, em fevereiro de 1991. Esta crise não afetou apenas a esquerda comunista, mas também atingiu os vários grupos sectários inspirados em Leon Trotsky e no anarquismo. Poucos partidos conseguiram resistir à pressão do triunfalismo anticomunista ou à rendição e desintegração do movimento sindical. As fontes de fraqueza incluem: falta de clareza ideológica sobre o seu papel nas suas próprias sociedades; hábitos de sectarismo que não faziam sentido num contexto sem a União Soviética; e a fuga de um grande número de quadros que já não sentiam uma razão convincente para participar num movimento pelo socialismo, quando parecia que o socialismo já não estava no horizonte. Resistiram à tempestade do período pós-1991, como o Partido Comunista Francês (PCF), o Partido Comunista Grego (KKE), o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCB). Em 2007, sectores dos comunistas alemães e dos social-democratas de esquerda uniram-se para criar a Die Linke [A Esquerda], que se distanciou da luta de classes e em 2024 fundou a Bündnis Sahra Wagenknecht [Aliança Sahra Wagenknecht]], enquanto a Aliança Alemã O Partido Comunista (DKP) e a sua ala jovem continuam a ser uma força pequena mas eficaz. O Partido dos Trabalhadores Belga (PTB) registou progressos significativos depois de 2008 graças a um processo de “renovação” que lhe permitiu ser simultaneamente um partido eleitoral de massas e um partido de quadros. Na Itália, o colapso do grande Partido Comunista (PCI) legou fragmentos de memória à Rete dei Comunisti [Rede de Comunistas], criada em 1988, e ao partido emergente Potere al Popolo! [Poder ao Povo!], ambos reduzidos face ao desafio da atual extrema-direita. Em muitos destes países, a esquerda manteve presença nos parlamentos dos seus países, mas não conseguiu, por si só, quebrar o consenso neoliberal.Defenda o sistema. Durante o período de consenso neoliberal, a social-democracia do Atlântico Norte afastou-se ainda mais do seu compromisso liberal com o bem-estar e a ajuda social. Não só abandonaram a sua missão histórica, mas aceitaram novos cortes a favor dos ricos e contra a classe trabalhadora e a classe média baixa. Devido a este abandono social-democrata, a esquerda teve que assumir a missão de defender o bem-estar social e lutar para construir o poder independente da classe trabalhadora para transcender o sistema. A esquerda teve de desempenhar um papel complicado e confuso na defesa dos aspectos de bem-estar do sistema e na luta para o transformar. Contudo, a defesa do bem-estar social foi essencial para proporcionar alívio a uma classe trabalhadora que estava a ser prejudicada pelo regime de austeridade neoliberal. Contudo, isto significou que as energias da esquerda, em geral, tiveram de passar de uma agenda de transformação para uma agenda de defesa do aspecto assistencial do sistema capitalista. A esquerda eleitoral do Atlântico Norte partiu de uma posição política genuinamente anti-austeridade, mas só conseguiu ir ao ponto de promover políticas de bem-estar social para salvaguardar as instituições estatais destruídas que prestavam serviços à classe trabalhadora e à classe média baixa.Os obstáculos das coalizões. As antigas divisões entre os diferentes tipos de esquerda começaram a desaparecer cada vez mais e observa-se uma nova tendência para a unidade nas lutas e nos blocos eleitorais. Isto ficou evidente em França quando La France Insoumise e o Partido Comunista Francês (PCF) se aliaram para as eleições parlamentares de 2024, e quando o Partido Comunista Espanhol (PCE) se juntou ao Podemos e mais tarde ao Sumar, formado em 2022. Estas histórias de construção de alianças vêm de de longe, como demonstra a presença do Partido Comunista Português (PCP) em plataformas eleitorais como a Aliança dos Povos Unidos (1978-1987) e a Coligação Democrática Unitária desde 1987. O obstáculo nestas coligações tem sido a tendência de vários movimentos sociais (desde grupos ambientalistas a grupos de justiça social) para impulsionar a agenda da coligação e para a esquerda ser incapaz de afirmar a importância de lutar para transcender o sistema atual. O papel dos movimentos sociais, vital na mobilização de um grande número de pessoas em diferentes plataformas e para diferentes reivindicações, foi moldado, no entanto, por uma lógica organizacional não governamental de política parcial e não por um quadro anticapitalista. Da mesma forma, o peso das políticas identitárias que não incluem uma política socialista atrai as plataformas destas unidades para o liberalismo. Estes sindicatos em ação são importantes, mas em muitos casos baseiam-se na necessidade de a esquerda renunciar aos seus princípios.O renascimento do anticomunismo. As raízes profundas do anticomunismo da Guerra Fria ainda estão vivas em ambos os lados do Atlântico Norte e estão a ser reactivadas como uma arma para reprimir qualquer um que tente reavivar um debate mesmo dentro de linhas social-democratas, como a expansão do bem-estar social. Além disso, uma das áreas centrais em que o centro neoliberal e a actual extrema direita estão unidos é o seu compromisso com a consolidação militar da era da Guerra Fria e as guerras contra as lutas de libertação nacional. Por exemplo, à medida que a esquerda do Atlântico Norte ganhava terreno na sociedade com o seu compromisso de acabar com o genocídio americano-israelense contra a população palestina, as formas de ataque anticomunistas da Guerra Fria foram reavivadas para disciplinar qualquer um que defendesse a paz e se opusesse à guerra, colocando todos o peso à esquerda. O facto de a extrema direita de hoje estar intimamente ligada ao consenso neoliberal sobre o uso da força militar ocidental é indicativo da sua proximidade com sistemas de poder estabelecidos. A ruptura da esquerda com a mentalidade da NATO coloca-a numa posição única no que diz respeito ao campo político dos estados ocidentais.

O historicismo da esquerda

A esquerda é composta por uma variedade de forças históricas reais que estão em movimento dentro de cada contexto diferente para promover certos princípios importantes. Os elementos centrais dos princípios da esquerda são dois:Que o capitalismo é incapaz de resolver os problemas que criou e reproduziu.
Que o socialismo é o antídoto necessário para o bloqueio da história pelo capitalismo.

As variedades da esquerda não se sobrepõem às actuais forças de extrema-direita, profundamente anticomunistas e enraizadas no sistema capitalista, que emergem dos sectores mais horrendos da direita. Usar a mesma categoria de populismo para descrever a esquerda e a extrema-direita de hoje é uma tática política maliciosa usada para deslegitimar a esquerda. A situação específica em que a esquerda do Atlântico Norte teve de operar necessita de alguma clareza empírica e teórica.

A esquerda do Atlântico Norte, tanto eleitoral como não eleitoral, herdou desafios importantes:A esquerda em crise. Após a queda da URSS, a esquerda eleitoral no Atlântico Norte entrou numa grave crise que teve diversas consequências. Entre eles, o desaparecimento de um dos maiores partidos comunistas da região, o Partido Comunista Italiano, em fevereiro de 1991. Esta crise não afetou apenas a esquerda comunista, mas também atingiu os vários grupos sectários inspirados em Leon Trotsky e no anarquismo. Poucos partidos conseguiram resistir à pressão do triunfalismo anticomunista ou à rendição e desintegração do movimento sindical. As fontes de fraqueza incluem: falta de clareza ideológica sobre o seu papel nas suas próprias sociedades; hábitos de sectarismo que não faziam sentido num contexto sem a União Soviética; e a fuga de um grande número de quadros que já não sentiam uma razão convincente para participar num movimento pelo socialismo, quando parecia que o socialismo já não estava no horizonte. Resistiram à tempestade do período pós-1991, como o Partido Comunista Francês (PCF), o Partido Comunista Grego (KKE), o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCB). Em 2007, sectores dos comunistas alemães e dos social-democratas de esquerda uniram-se para criar a Die Linke [A Esquerda], que se distanciou da luta de classes e em 2024 fundou a Bündnis Sahra Wagenknecht [Aliança Sahra Wagenknecht]], enquanto a Aliança Alemã O Partido Comunista (DKP) e a sua ala jovem continuam a ser uma força pequena mas eficaz. O Partido dos Trabalhadores Belga (PTB) registou progressos significativos depois de 2008 graças a um processo de “renovação” que lhe permitiu ser simultaneamente um partido eleitoral de massas e um partido de quadros. Na Itália, o colapso do grande Partido Comunista (PCI) legou fragmentos de memória à Rete dei Comunisti [Rede de Comunistas], criada em 1988, e ao partido emergente Potere al Popolo! [Poder ao Povo!], ambos reduzidos face ao desafio da atual extrema-direita. Em muitos destes países, a esquerda manteve presença nos parlamentos dos seus países, mas não conseguiu, por si só, quebrar o consenso neoliberal.Defenda o sistema. Durante o período de consenso neoliberal, a social-democracia do Atlântico Norte afastou-se ainda mais do seu compromisso liberal com o bem-estar e a ajuda social. Não só abandonaram a sua missão histórica, mas aceitaram novos cortes a favor dos ricos e contra a classe trabalhadora e a classe média baixa. Devido a este abandono social-democrata, a esquerda teve que assumir a missão de defender o bem-estar social e lutar para construir o poder independente da classe trabalhadora para transcender o sistema. A esquerda teve de desempenhar um papel complicado e confuso na defesa dos aspectos de bem-estar do sistema e na luta para o transformar. Contudo, a defesa do bem-estar social foi essencial para proporcionar alívio a uma classe trabalhadora que estava a ser prejudicada pelo regime de austeridade neoliberal. Contudo, isto significou que as energias da esquerda, em geral, tiveram de passar de uma agenda de transformação para uma agenda de defesa do aspecto assistencial do sistema capitalista. A esquerda eleitoral do Atlântico Norte partiu de uma posição política genuinamente anti-austeridade, mas só conseguiu ir ao ponto de promover políticas de bem-estar social para salvaguardar as instituições estatais destruídas que prestavam serviços à classe trabalhadora e à classe média baixa.Os obstáculos das coalizões. As antigas divisões entre os diferentes tipos de esquerda começaram a desaparecer cada vez mais e observa-se uma nova tendência para a unidade nas lutas e nos blocos eleitorais. Isto ficou evidente em França quando La France Insoumise e o Partido Comunista Francês (PCF) se aliaram para as eleições parlamentares de 2024, e quando o Partido Comunista Espanhol (PCE) se juntou ao Podemos e mais tarde ao Sumar, formado em 2022. Estas histórias de construção de alianças vêm de de longe, como demonstra a presença do Partido Comunista Português (PCP) em plataformas eleitorais como a Aliança dos Povos Unidos (1978-1987) e a Coligação Democrática Unitária desde 1987. O obstáculo nestas coligações tem sido a tendência de vários movimentos sociais (desde grupos ambientalistas a grupos de justiça social) para impulsionar a agenda da coligação e para a esquerda ser incapaz de afirmar a importância de lutar para transcender o sistema atual. O papel dos movimentos sociais, vital na mobilização de um grande número de pessoas em diferentes plataformas e para diferentes reivindicações, foi moldado, no entanto, por uma lógica organizacional não governamental de política parcial e não por um quadro anticapitalista. Da mesma forma, o peso das políticas identitárias que não incluem uma política socialista atrai as plataformas destas unidades para o liberalismo. Estes sindicatos em ação são importantes, mas em muitos casos baseiam-se na necessidade de a esquerda renunciar aos seus princípios.O renascimento do anticomunismo. As raízes profundas do anticomunismo da Guerra Fria ainda estão vivas em ambos os lados do Atlântico Norte e estão a ser reactivadas como uma arma para reprimir qualquer um que tente reavivar um debate mesmo dentro de linhas social-democratas, como a expansão do bem-estar social. Além disso, uma das áreas centrais em que o centro neoliberal e a actual extrema direita estão unidos é o seu compromisso com a consolidação militar da era da Guerra Fria e as guerras contra as lutas de libertação nacional. Por exemplo, à medida que a esquerda do Atlântico Norte ganhava terreno na sociedade com o seu compromisso de acabar com o genocídio americano-israelense contra a população palestina, as formas de ataque anticomunistas da Guerra Fria foram reavivadas para disciplinar qualquer um que defendesse a paz e se opusesse à guerra, colocando todos o peso à esquerda. O facto de a extrema direita de hoje estar intimamente ligada ao consenso neoliberal sobre o uso da força militar ocidental é indicativo da sua proximidade com sistemas de poder estabelecidos. A ruptura da esquerda com a mentalidade da NATO coloca-a numa posição única no que diz respeito ao campo político dos estados ocidentais. 

Conclusões

Com o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em Janeiro de 2025, a actual extrema-direita no Atlântico Norte foi encorajada. Várias iniciativas para coordenar a política de extrema direita, como o Movimento de Steve Bannon (fundado em 2017) e o Fórum de Madrid (criado em 2020), já lançaram as bases para ações conjuntas de extrema direita em todo o país. Mas apesar da alegria, as contradições estabelecidas pelo pacto neoliberal não permitirão à actual extrema-direita uma acção verdadeiramente populista contra as instituições do neoliberalismo. Por exemplo, apesar da ansiedade generalizada causada pela guerra na Ucrânia e dos perigos de uma escalada, é pouco provável que a extrema direita de hoje seja capaz de estabelecer uma relação normal com a Rússia, e muito menos de perturbar os acordos de segurança atlânticos enraizados na NATO.

A extrema direita de hoje excede rotineiramente as suas promessas, especialmente em questões de miséria económica. Nem as suas políticas anti-imigração nem as suas políticas tarifárias aumentarão as oportunidades económicas das massas populares, especialmente se agravarem a ruptura com os países asiáticos (como a China e a Índia). O eventual fracasso da actual extrema direita constituirá uma tremenda oportunidade para a esquerda, desde que esta esteja disposta a assumir o fardo.

NOTAS E REFERÊNCIAS
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